Eleições na Colômbia e no Peru marcadas pela clivagem esquerda-direita
Cerca de 27,3 milhões de peruanos e de 41,5 milhões de colombianos estão em processo de escolha dos seus próximos presidentes e a clivagem entre a esquerda e a direita é o ponto mais marcante da batalha política. O sub-continente vive normalmente em ciclos que tendem a formar alguma hegemonia política e a direita está neste momento numa fase ascendente. A contagem é já a favor da direita (ou centro-direita): dez a nove. Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Paraguai, Peru, El Salvador, Honduras, Costa Rica e Panamá à direita; Brasil, México, Colômbia, Uruguai, Venezuela, Cuba, Nicarágua, Guatemala e República Dominicana à esquerda.
Em 2025 a direita da América averbou vitórias na Bolívia – e Rodrigo Paz acabou com 15 anos de governo do Movimento para o Socialismo (MAS) – e no Chile, com José Kast a derrotar a candidata da Frente Ampla.
Peru: um regresso familiar
No Peru, a primeira volta ocorreu a 12 de abril e teve nada menos que 35 candidatos à presidência. A segunda volta está marcada para 7 de junho e será disputada por Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que, dada a extrema fragmentação, obteve apenas 17,2%. O seu oponente é o candidato social-democrata Roberto Suarez, que teve 12,01% dos votos – apenas 15 mil votos a mais que os 11,92% do candidato da extrema-direita Rafael Aliaga, membro do Opus Dei.
Keiko Fujimori concentra os votos de toda a ‘não-esquerda’ e é favorita nesta que é a quarta vez que se propõe governar o Peru (concorreu em 2011, 2016 e 2021). Com uma agenda contra a corrupção (tema que, entre outras atrocidades, levou o seu pai à cadeia) e em favor da estabilização política interna, o regresso da família Fujimori a um lugar onde já foi feliz é um sinal, dizem os analistas, de que mais de uma década de liderança do centro-esquerda não foi capaz de solucionar os grandes problemas do país.
A esperança da esquerda é que a tradicional rejeição a Keiko volte a funcionar: foi sempre à segunda volta nas anteriores tentativas, mas acabou sempre perdendo mesmo que o candidato oponente (como era o caso de Pedro Castillo em 2021) desse muito poucas garantias de boa governabilidade.
Colômbia: segunda volta apertada
Na Colômbia as eleições ocorrerão a 31 de maio, mas o país seguirá com certeza para a segunda volta (a 21 de junho), enquanto sucumbe à violência: mais de 26 atentados ocorreram em poucas semanas, com dezenas de mortos e feridos – que os analistas descrevem como uma tentativa de desestabilizar o país e atingir a candidatura de Ivan Cepeda, do Pacto Histórico, apoiada pelo atual presidente Gustavo Petro, de esquerda.
Nas diversas sondagens, Cepeda surge com entre 38 e 45% das intenções de voto, mais que a soma do candidato da extrema-direita Abelardo de la Espriella (20% a 25%) e da senadora de direita Paloma Valencia (15% a 20%). Ou seja, Ivan Cepeda, que deve ganhar a primeira volta, tem ainda uma pequena hipótese o conseguir de forma a evitar a segunda volta. Mas, se isso não suceder, é possível que a aliança entre a direita tradicional e os extremistas acabe por determinar a sua derrota.
O Brasil à distância
Um alto dirigente empresarial dizia há semanas ao JE que os brasileiros estão neste momento concentrados no mundial de futebol. “Ninguém está a pensar nas eleições presidenciais”, que se realizarão em 4 de outubro (com uma eventual segunda volta a 25).
Já se sabe que Lula da Silva tentará mais um mandato, apesar da idade (fará 81 anos três dias depois da segunda volta), mas a sua errática prestação neste seu terceiro mandato (principalmente quando comparado com o primeiro) retirou-lhe qualquer garantia de reeleição.
Pelo contrário, o clã Bolsonaro – com o senador Flávio como candidato – conseguiu manter a clivagem direita-esquerda bem viva e extremada. A direita percebeu isso bastante bem: deixou cair uma eventual candidatura de Tarcísio de Freitas, considerado o melhor preparado para concorrer com Lula da Silva, para escolher alguém cuja grande vantagem é mesmo o seu sobrenome.
Share this content:


Publicar comentário