Guiné-Bissau: Negócios fracos e investimentos atrasados desde o golpe de Estado
Mariama Baldé, comerciante de revenda de peixe no porto de Bandim, em Bissau, tem na boca a conversa que é repetida por vários cidadãos guineenses em atividade económica, “o negócio está fraco” no país desde finais do ano passado.
Os militares protagonizaram no dia 26 de novembro mais um golpe de Estado na Guiné-Bissau e, desde essa altura, lamentam vários comerciantes contactados pela Lusa, o negócio de produtos decorre a um ritmo lento.
Em condições normais, Mariama diz que costumava revender, numa semana, até quatro caixas de peixe que compra aos pescadores, mas, desde dezembro, às vezes, leva até duas semanas para negociar uma única caixa.
Mariama admite que esta altura do ano, entre março até agosto, é considerada “período morto de venda do pescado” pelo facto de os pescadores preferirem trabalhar na apanha do caju, mas mesmo assim o “negócio do peixe está muito fraco”.
Bidon Ntunguê, habitante da comunidade de Kupul, arredores de Bissau, nada sabe sobre o Governo e a política que não acompanha, apenas sabe que a campanha da castanha de caju, principal produto agrícola e de exportação, este ano “não está a andar bem”.
“O negócio do caju não anda bem. Está fraco. Dizem que os indianos não vieram este ano, mas não sei”, declarou o camponês, referindo-se aos principais compradores da castanha de caju da Guiné-Bissau.
Um responsável da direção-geral do Comércio guineense explicou à Lusa que a campanha de comercialização da castanha do caju deste ano “poderá ser afetada” pela guerra no Médio Oriente, nomeadamente devido à escassez de navios de transporte de cargas.
O grosso do caju da Guiné-Bissau é vendido para o mercado indiano e é transportado em contentores por navios mercantes.
No mercado de venda do gado bovino e caprino situado no bairro de Djolo, nos arredores de Bissau, Mamadu Djaló lamenta que, mesmo no período da festa muçulmana de Tabaski, que deverá ser assinalada no dia 27, o negócio esteja “muito fraco”.
O comerciante de caprinos afirma que por esta altura em anos passados já tinha vendido mais de 50 unidades daquele que é um dos principais produtos à mesa nesta festa anual.
“Este ano e até hoje [quinta-feira] nem vendi 10 cabras e bodes, parece que as pessoas estão sem dinheiro”, lamenta Djaló, que compra no Senegal os animais que revende em Bissau, negócio do qual sustenta os quatro filhos e a mulher.
O país sente, também, a falta de dinheiro de parceiros internacionais nos investimentos estatais depois do golpe militar que “retraiu” e “atrasou” desembolsos destinados a vários projetos no país.
O Banco Mundial e a União Europeia são neste momento dois dos principais parceiros da cooperação internacional que se destacam em diferentes projetos de desenvolvimento em curso, e ambos “congelaram os apoios” logo após o golpe militar, observou uma fonte do Ministério da Economia, Plano e Integração Regional.
Na prática, é esse o departamento do Governo guineense que coordena a execução da quase totalidade dos projetos financiados ou participados por estas duas instituições internacionais, precisou a mesma fonte.
A Guiné-Bissau devia iniciar em finais do ano passado o quarto recenseamento geral da população e habitação, mas o processo só vai começar a 01 de junho, contando com os cerca de 19 milhões de dólares americanos (16,3 milhões de euros) disponibilizados pelo Banco Mundial, que, entretanto, levantou a suspensão dos desembolsos.
A suspensão temporária dos apoios do Banco Mundial também “impactaram negativamente” a construção de parte do eixo rodoviário que liga o norte da Guiné-Bissau ao sul do Senegal, através das localidades de Safim e Mpack, financiada em aproximadamente 34 mil milhões de francos CFA (quase 52 milhões de euros).
O troço da estrada Safim – Mpack conta também com financiamentos do Banco Europeu de Investimento (BEI), mas aquela instituição, sublinhou a fonte do Ministério da Economia guineense, ainda não levantou a sua suspensão aos apoios ao país desde o golpe de Estado.
A construção daquela estrada decorre, neste momento, no troço financiado pelo Banco Mundial, enquanto a parte financiada pelo BEI – mais de 60 quilómetros de um total de 114,7 quilómetros, com um envelope de 34,9 milhões de euros – “está praticamente parada”.
A instituição, precisou ainda a mesma fonte, tinha igualmente em andamento, projetos nos setores das infraestruturas, educação, saúde, agricultura, pesca, economia verde, entre outros, mas suspendeu os desembolsos financeiros com o golpe militar.
Atualmente, a União Europeia apoia vários projetos na Guiné-Bissau, mas ao nível de organizações da sociedade civil e agências das Nações Unidas, nomeadamente PNUD e UN-Habitat, destacou a mesma fonte.
*** A delegação da agência Lusa na Guiné-Bissau está suspensa desde agosto após a expulsão pelo Governo dos representantes dos órgãos de comunicação social portugueses. A cobertura está a ser assegurada à distância ***
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