A guerra dos drones ensaia-se em Tróia
Um país que perde braços tem de ganhar engenharia. Portugal envelhece, e o modelo da mão-de-obra barata tem anos, não décadas. A defesa tecnológica responde às duas coisas: pede engenheiros e não braços, e põe sistemas onde as pessoas faltam. É das poucas indústrias capazes de puxar atrás de si toda uma economia de inovação, e Portugal já começou.
No REPMUS, a Marinha projectou 575 capacidades em ensaio, de drones submarinos a contra-drones. Trinta e seis marinhas e mais de 130 empresas, 25 portuguesas. É o maior do género no mundo, e é nosso.
Há aqui uma decisão a assinalar. Em 2022, a Marinha propôs, com a Agência Nacional de Inovação, a primeira Zona Livre Tecnológica do país, a Infante D. Henrique, mais de mil milhas quadradas de mar. Pegou num regime pensado para a inovação civil, uma sandbox regulatória, e fez dele um campo de ensaio de defesa em mar aberto, com regras, autoridade de testes e um centro próprio, o CEOM, a monitorizá-lo. É criatividade institucional rara num Estado que costuma legislar depois de os outros inventarem, e a NATO reconheceu-a integrando Tróia na rede do seu acelerador de inovação, o DIANA.
O efeito vai além do exercício. É em Tróia que a Aliança tem amadurecido a STANAG 4817, a norma que põe drones de países e fabricantes diferentes a falar com o mesmo comando, com contributo da Faculdade de Engenharia do Porto, co-organizadora do REPMUS.
Quem ajuda a escrever a norma molda o mercado que ela cria.
E Portugal não parte do zero. Nos drones aéreos, a Tekever tornou-se unicórnio, e a Beyond Vision e a UAVision ganharam dimensão. O passo seguinte são os drones de superfície e submarinos, que servem a Marinha, a GNR e a Polícia Marítima. Não temos escala para grandes estaleiros, mas o drone naval pede engenharia fina, integração e software, e isso temos.
O gargalo é humano. Um drone naval junta inteligência artificial, engenharia naval, mecânica e electrónica, e empresas como a Critical Software absorvem milhares de engenheiros. Formar mais passou a ser política industrial. O retorno vai além da defesa: autonomia e robótica transbordam para portos, energia e logística. O nicho vende produtos. A indústria contamina a economia à volta.
Falta quem aglutine. O que o CEiiA fez no automóvel e no aeroespacial não existe no mar, e tem sido proposta uma entidade que junte Marinha, engenharia e indústria e converta ensaio em produto.
Falta também a procura, e a prova está à vista. A Tekever cresceu a servir o Reino Unido e a agência europeia de segurança marítima, e só este ano fechou em casa: 1,5 milhões com a Autoridade Marítima em Junho, os AR5 da Força Aérea em Agosto. O Estado compra bem, mas compra tarde e pequeno. E não é a Tekever apenas. A Beyond Vision exporta 95 por cento do que faz, fechou 15 milhões nos Estados Unidos e vai erguer lá uma fábrica de 50 milhões. Cá fica o resto. A parceria para a inovação, que junta desenvolvimento e compra, pouco se usa, e o direito europeu permite reservar à contratação nacional segmentos de interesse essencial de segurança. Onde está em causa o nosso mar, o fornecedor deve poder ser português.
Mas reduzir o Estado a cliente é ficar aquém. Pode atrair investimento, nacional e estrangeiro, porque a localização, o ensaio e a engenharia são argumentos, como mostra a UFORCE, fabricante ucraniana dos drones Magura que já produz em Portugal. E pode ser aquilo que mais ninguém faz por elas, o garante da segurança da informação, porque uma fileira que vive de software, dados e autonomia só é soberana se o que sabe estiver protegido de quem o quer copiar ou corromper. E quem abastece uma guerra torna-se alvo dela: quem tem tecnologia no terreno ucraniano vive sob espionagem e risco de sabotagem de potências hostis, e essa protecção não se exige a uma empresa sozinha.
A Marinha construiu o laboratório. O resto é do Estado inteiro: decidir se isto é um nicho simpático ou uma indústria nacional.
E fica a pergunta das próximas semanas: se o mar vai ser governado por algoritmos, quem os vai escrever?
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