Brasil olha para África como a próxima fronteira agrícola
Há 50 anos, praticamente não havia agricultura no Cerrado brasileiro. Hoje, aquela região está no centro de uma das maiores transformações agrícolas das últimas décadas. Para António Azevedo, CEO do Luxor Group, um family office brasileiro com investimentos globais, a história pode estar prestes a repetir-se, desta vez em África.
“Talvez seja o momento onde estamos hoje em Angola e Moçambique” que o Brasil viveu em 1975, afirmou o gestor no Global Agri Forum, em Lisboa. A ideia assenta numa combinação que o Brasil conhece bem: tecnologia agrícola tropical, investigação, capital e uma geração de empresários disposta a avançar para novas fronteiras.
O ponto de partida é a dimensão do próprio Brasil. A produção de grãos cresceu cerca de 5% ao ano ao longo das últimas cinco décadas e Azevedo estima que a produção brasileira ultrapasse este ano os 350 milhões de toneladas.
Nas exportações agrícolas, os valores também são expressivos. O agronegócio brasileiro exportou 164,4 mil milhões de dólares (145,2 mil milhões de euros) em 2024, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola. Em 2025, as exportações terão atingido cerca de 150,2 mil milhões de dólares (132,6 mil milhões de euros), segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
É uma potência construída sobretudo em algumas cadeias. O Brasil é líder mundial nas exportações de soja, café, açúcar, sumo de laranja, etanol de cana-de-açúcar, carne bovina e carne de frango, além de ocupar posições de destaque no algodão, celulose e milho.
No Mercosul, a escala aumenta. Na apresentação de Azevedo, o bloco, formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e, mais recentemente, Bolívia, representa cerca de 70% das exportações mundiais de soja e 76% das de sumo de laranja.
A Argentina tem uma estrutura agrícola próxima da brasileira em vários aspectos, mas é também uma grande potência no trigo, produto de que o Brasil é importador. Paraguai e Bolívia são, por seu lado, novas fronteiras da agricultura de grande escala, com a expansão para áreas que prolongam, em certa medida, a geografia agrícola do Cerrado.
O Paraguai tem ainda uma posição de destaque na produção e exportação de chia, enquanto a Argentina é um dos grandes produtores de soja e uma potência no esmagamento para produção de óleo e farelo.
A revolução começou no solo
A história brasileira não se explica apenas pela quantidade de terra disponível. Uma parte decisiva da transformação aconteceu debaixo dos pés dos agricultores. O Cerrado tinha solos muito ácidos e com limitações de nutrientes. Através da investigação e da tecnologia, o Brasil conseguiu corrigir os solos e adaptar culturas que não estavam originalmente preparadas para aquele clima, como a soja.
A expansão começou praticamente do zero em 1975. Hoje, está já na segunda e terceira gerações de agricultores. Muitos dos pioneiros avançaram com as famílias para territórios onde faltavam estradas, infra-estruturas e condições básicas de produção.
Esse espírito empreendedor continua, defende Azevedo. É ele que está agora a levar agricultores brasileiros para o Paraguai e para a Bolívia e que poderá, no futuro, levá-los para África.
A tecnologia permitiu também aumentar a produtividade. A agricultura tropical possibilita, em muitas regiões, duas culturas por ano: soja e milho, soja e algodão ou mesmo a integração entre agricultura e pecuária.
O que começou por ser chamado “safrinha” de milho ganhou uma escala que transformou o milho numa das grandes culturas brasileiras. O plantio directo, feito sobre a palhada da cultura anterior, ajuda simultaneamente a conservar a humidade e a melhorar o solo, sendo também uma das práticas associadas à agricultura regenerativa.
Embrapa e universidades no centro da transformação
Azevedo atribui uma parte importante desta revolução aos centros de investigação. A Embrapa, empresa pública brasileira de investigação agropecuária, tem mais de 2.000 investigadores, cerca de 85% com doutoramento, segundo os números apresentados.
A organização nasceu, em parte, da formação de investigadores brasileiros nos Estados Unidos, que trouxeram conhecimento científico e o adaptaram às condições tropicais brasileiras.
A Universidade de São Paulo e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a ESALQ, são outros exemplos apontados pelo gestor de instituições que transformaram investigação em conhecimento aplicado ao campo. Esta capacidade científica é hoje também uma ferramenta de internacionalização. A Embrapa já desenvolve trabalho fora do Brasil, incluindo em África.
Café, açúcar e proteínas
O café é um dos exemplos mais claros da liderança brasileira. O país representa cerca de 38% da produção mundial de café e, segundo os dados apresentados por Azevedo, cerca de 45% da produção de café arábica.
Mas a alteração dos padrões climáticos está a colocar pressão sobre as regiões tradicionais de produção. Quase todas as principais áreas produtoras de café estão expostas a riscos associados ao aumento das temperaturas e à alteração da precipitação.
É neste contexto que ganha importância o café robusta, que apresenta características diferentes do arábica e pode ser produzido em novas regiões, incluindo o Cerrado brasileiro. Para Azevedo, África pode também beneficiar desta evolução genética e tecnológica.
No açúcar, Brasil e Índia dominam a produção mundial, enquanto o Brasil assume uma posição particularmente forte nas exportações. O país é ainda uma potência nas proteínas animais, com grandes empresas nos sectores da carne bovina e de frango, e está a desenvolver rapidamente a produção de biocombustíveis.
No Mato Grosso, há actualmente mais de 20 unidades de produção de etanol de milho recentemente construídas ou em construção, segundo os dados apresentados no fórum. O Brasil produz ainda etanol de cana, biodiesel a partir de soja e começa a desenvolver o mercado de combustível sustentável para aviação, o SAF.
O problema é transportar tudo
O crescimento agrícola brasileiro trouxe, contudo, um problema que o país ainda não resolveu: a logística. A produção cresceu mais depressa do que a capacidade de construção de portos, ferrovias, hidrovias e rodovias. Uma parte significativa dos produtos continua a ser transportada por camião, o que provoca enormes filas nas regiões produtoras e nos acessos aos portos.
A ferrovia tem avançado, mas as fronteiras agrícolas também continuam a avançar. A dependência de fertilizantes é outro risco. Azevedo classifica o Brasil como o maior importador mundial de fertilizantes e sublinha que praticamente toda a produção utilizada no país depende de fornecimento externo, nomeadamente de países como Rússia, Arábia Saudita e Marrocos.
Os produtos biológicos poderão reduzir parte dessa dependência, mas, para o gestor, os fertilizantes continuam a ser um dos grandes riscos da agricultura brasileira.
A rastreabilidade é outro desafio, sobretudo para quem exporta para a União Europeia. Certificações, rastreabilidade da carne e regras relacionadas com a desflorestação obrigam os produtores a investir mais para manter o acesso aos mercados internacionais.
E há um quarto problema: o clima. Secas no Norte da América do Sul e precipitação excessiva no Sul são fenómenos que já estão a afectar a produção. Azevedo considera particularmente preocupante o facto de aquilo que eram anomalias climáticas se estar a tornar cada vez mais frequente.
28 milhões de hectares à espera de produtividade
A resposta poderá passar por produzir mais nas áreas já utilizadas. Um estudo da Embrapa citado por Azevedo identifica cerca de 28 milhões de hectares de pastagens potencialmente aptos para agricultura. A transformação dessas áreas, sobretudo através de modelos regenerativos, poderá aumentar a produtividade sem depender exclusivamente da abertura de novas áreas.
A irrigação é outra fronteira. Menos de 10% da área agrícola brasileira é irrigada, segundo os dados apresentados pelo gestor. Há, por isso, um enorme espaço para crescimento, desde sistemas de irrigação de precisão no café até grandes pivôs para culturas de grãos.
A agricultura regenerativa surge como uma terceira oportunidade. Nas explorações do Luxor Group, Azevedo deu como exemplo sistemas que combinam lavoura, pecuária e floresta, permitindo melhorar a retenção de água no solo, aumentar a biodiversidade e tornar as explorações mais resistentes às alterações climáticas.
O mesmo modelo pode ser aplicado ao café e ao cacau agroflorestais, à restauração florestal e a outros projectos que exigem capital paciente. São investimentos que precisam de anos para produzir resultados e, por isso, de financiamento de longo prazo.
Do grão à fruta
Outra mudança é a passagem das commodities para produtos de maior valor acrescentado. O Nordeste brasileiro é um exemplo. Apesar de ter pouca precipitação, dispõe de água através do rio São Francisco. Com sistemas de irrigação, a região transformou-se num importante produtor de fruta para exportação.
Manga, melão, limão e lima estão entre os produtos que chegam aos supermercados europeus. É uma agricultura que depende menos da expansão territorial e mais da combinação entre água, tecnologia, produtividade e acesso aos mercados.
Portugal como porta de entrada
É aqui que Azevedo coloca Portugal no mapa. O acordo entre o Mercosul e a União Europeia poderá abrir novas oportunidades comerciais, embora a sua implementação esteja a avançar de forma complexa. O gestor identifica potencial adicional para produtos como café torrado e solúvel, melão, lima, limão e uva brasileiros.
No sentido inverso, vê oportunidades para vinho, queijo, leite em pó e azeite portugueses no Brasil. Mas a ambição é maior: transformar Portugal numa porta de entrada das empresas brasileiras na União Europeia.
Actualmente, grandes plataformas logísticas europeias, como Roterdão, funcionam como pontos de entrada para muitas commodities brasileiras. Azevedo considera que Portugal pode conquistar uma parcela maior desse movimento, aproveitando a proximidade cultural, económica e linguística. “Portugal tem que se colocar como porta de entrada para a União Europeia”, defendeu.
O país poderá também canalizar financiamento europeu para projectos agrícolas de longo prazo no Brasil e em África e exportar tecnologia de irrigação.
O novo Cerrado pode estar em África
É, contudo, em Angola e Moçambique que está uma das apostas mais ambiciosas. Azevedo estima que apenas cerca de 10% das terras agrícolas de cada um dos dois países estejam actualmente a ser utilizadas, embora reconheça que os valores variam consoante a definição utilizada.
A comparação com o Brasil é directa: em 1975, o Cerrado estava praticamente por explorar. Hoje, é uma das grandes plataformas agrícolas do mundo. Angola e Moçambique têm características que, na perspectiva do gestor, podem permitir adaptar parte da tecnologia desenvolvida no Brasil: agricultura tropical, grandes extensões de terra, necessidade de irrigação, investigação aplicada e espaço para aumentar a produtividade.
A oportunidade não está apenas na exportação de máquinas ou sementes. Inclui conhecimento, produtores, organizações de investigação, capital e capacidade empresarial. E há uma vantagem adicional: o ADN dos agricultores brasileiros que abriram o Cerrado. “Se eles enxergarem que há essa oportunidade, eles vão atrás”, disse Azevedo sobre os empresários brasileiros.
Uma cadeia agrícola lusófona
A ideia final é, portanto, mais ampla do que uma expansão brasileira. Brasil, Portugal, Angola e Moçambique podem formar uma cadeia de conhecimento, capital, produção e comércio dentro do espaço lusófono. Cabo Verde e São Tomé e Príncipe podem encontrar oportunidades mais específicas, nomeadamente no café — Azevedo diz já ter provado cafés de qualidade dos dois países.
No Brasil, a próxima fronteira pode ser a agricultura regenerativa, a irrigação, o café robusta, os biocombustíveis, as florestas e as cadeias de maior valor acrescentado. Já em África, pode ser a própria construção de uma agricultura tropical de grande escala. E Portugal pode tentar ocupar o espaço entre os dois mundos: não como grande produtor agrícola, mas como plataforma de entrada, financiamento, tecnologia e distribuição para a Europa.
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