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Lisboa e Cascais entram na corrida pela nova geração de grandes fortunas

Lisboa e Cascais entram na corrida pela nova geração de grandes fortunas

Há uma nova geração de grandes fortunas a preparar-se para mudar de vida — e, com ela, também pode mudar o mapa dos lugares onde se vive, investe e fazem negócios. Nas próximas duas décadas, cerca de 84 biliões de dólares (74,35 biliões de euros) deverão passar de uma geração para outra, numa transferência de riqueza de dimensão sem precedentes.
É a chamada Great Wealth Transfer, ou Grande Transferência de Riqueza. E Portugal está a tentar garantir um lugar nesta corrida.
Segundo estimativas da Capgemini citadas pela Savills no relatório Spotlight on Wealth Trends 2026, 72 biliões de dólares (63,73 biliões de euros) deverão ser transferidos diretamente para herdeiros, enquanto outros 12 biliões de dólares (10,62 biliões de euros) deverão seguir para causas filantrópicas.
Mas esta não é apenas uma história sobre dinheiro. É também uma história sobre escolhas. A geração que vai receber esta riqueza é mais jovem, mais móvel e mais habituada a trabalhar e viver em vários pontos do mundo. E quando o dinheiro deixa de ser a principal limitação, outras perguntas ganham importância: onde quero viver? Onde quero educar os meus filhos? Que qualidade de vida procuro? Que ambiente quero para construir um negócio?
É precisamente essa mudança que a Savills procurou medir.
A consultora analisou mais de 100 localizações através do Next-Generation Wealth Hubs Index, considerando quatro grandes dimensões: negócios, governação e conectividade; concentração de riqueza e características locais; gestão de património e fiscalidade; e estilo de vida.
O estudo olha para a chamada “próxima geração de riqueza”: pessoas com menos de 40 anos que já herdaram património significativo, estão prestes a recebê-lo ou construíram a própria fortuna através do empreendedorismo.
Quando o dinheiro começa a procurar qualidade de vida
Nova Iorque lidera o índice mundial, seguida de Miami, Londres, São Francisco e Los Angeles. Londres é a primeira localização da região EMEA e continua a beneficiar da sua enorme concentração de riqueza, dos serviços profissionais, das universidades e escolas de referência, da cultura e das ligações internacionais.
Mas a lista revela também uma mudança interessante. Mais de metade das 30 localizações consideradas mais atrativas encontra-se na região EMEA e nem todas são grandes centros financeiros.
Há cidades costeiras, destinos de montanha e lugares onde a qualidade de vida começa a pesar tanto como a proximidade de bancos, empresas ou bolsas.
Gstaad aparece em 23.º lugar mundial, Barcelona em 26.º e a Côte d’Azur em 28.º. São destinos onde é possível combinar património, negócios e uma vida que não se resume ao trabalho.
“Com a passagem da riqueza para uma geração mais jovem, mais móvel a nível internacional e mais ligada ao mundo digital, as prioridades evoluem”, afirma Kelcie Sellers, Associate Director da Savills World Research. “O estilo de vida, a educação, o bem-estar e os valores pessoais influenciam cada vez mais onde estas pessoas escolhem viver, investir e abrir negócio.”
Lisboa e Cascais querem ficar com uma fatia
É neste novo mapa da riqueza que aparecem Lisboa e Cascais, ambas incluídas entre as 30 localizações da região EMEA identificadas pela Savills.
Portugal beneficia de uma combinação que começa a ser particularmente valorizada por esta geração: qualidade de vida, restauração, comércio, clima e uma dimensão que permite estar perto de tudo. E, apesar da subida dos preços nos últimos anos, continua a apresentar valores relativamente mais acessíveis do que alguns dos grandes mercados europeus concorrentes.
A procura internacional também ajuda. Tal como em Espanha, compradores e arrendatários provenientes da América Latina têm um peso importante, com os brasileiros a destacarem-se no mercado português.
Para uma geração habituada a trabalhar de qualquer lugar e a dividir o ano entre diferentes cidades, a possibilidade de ter uma casa em Lisboa ou Cascais e passar parte do tempo noutro país pode ser mais importante do que escolher uma única residência.
É uma mudança subtil, mas com consequências para os mercados imobiliário, financeiro e empresarial: o novo milionário não procura necessariamente apenas um lugar onde guardar dinheiro. Procura um lugar onde queira viver.
Rita Bueri, Head of Residential Lisboa da Savills Portugal, considera que Lisboa e Cascais já são destinos de eleição para investidores com património elevado, ainda que de forma relativamente discreta.
A melhoria da oferta imobiliária, uma economia mais sólida, a perceção de estabilidade perante os atuais focos de tensão geopolítica e a qualidade de vida têm reforçado o interesse por Portugal, segundo a responsável.
Há, contudo, trabalho pela frente. Serviços mais sofisticados e processos mais simples são algumas das áreas que terão de acompanhar as expectativas de clientes internacionais habituados a mercados altamente desenvolvidos.
A dimensão portuguesa pode, ainda assim, ser uma vantagem. “A nossa escala reduzida é um trunfo”, defende Rita Bueri, permitindo oferecer uma sensação de exclusividade num destino escolhido pela qualidade e não pela dimensão.
E talvez seja esse o ponto mais interessante desta nova corrida à riqueza. Quando dezenas de biliões de dólares mudam de mãos, Portugal não precisa necessariamente de competir com Nova Iorque ou Londres em tamanho.
Pode competir noutra moeda: tempo, segurança, proximidade, qualidade de vida e a possibilidade de transformar um destino de investimento num lugar onde se quer realmente viver.

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