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Donald Trump e a internacionalização do risco

Donald Trump e a internacionalização do risco

Há governos que alteram políticas; outros alteram o preço do risco mundial. Em menos de dois anos, a administração Trump converteu a imprevisibilidade em método. O seu legado externo reúne três custos: normalização da guerra, coerção comercial e corrosão das regras que sustentam a estabilidade. Não são episódios isolados.
O primeiro é a banalização da força. A guerra iniciada em 28 de fevereiro de 2026 por Estados Unidos e Israel contra o Irão, com ataques e retaliações chegando ao Iraque e ao Golfo, interrompeu negociações mediadas por Omã e multiplicou vítimas civis e danos a escolas, hospitais e infraestrutura. A retórica de “aniquilar” o adversário e destruir “uma civilização inteira” alimenta uma guerra sem saída. Há alegações graves de violações do direito humanitário que exigem investigação; a Cruz Vermelha adverte que ataques deliberados a serviços essenciais podem constituir crimes de guerra. Washington solicitou 67,1 mil miliões de dólares adicionais (cerca de 60 mil milhões de euros) para operações contra o Irão e outras ações militares. Fora do campo de batalha, o bloqueio de Ormuz reduziu a quase nada fluxos equivalentes a 20% do consumo mundial de petróleo. O barril superou os 100 dólares, encarecendo diesel, aviação, fertilizantes e alimentos.
O segundo custo é a transformação do comércio em intimidação. A China permanece sob ameaça tarifária; a Europa, embora aliada, negociou sob risco de tarifas ainda maiores; e, em 2026, uma sobretaxa americana de 10% alcançou quase todos os parceiros. Quando o acesso ao maior mercado mundial depende da política de Washington, empresas deixam de buscar eficiência e compram proteção: antecipam estoques, duplicam fábricas e desviam cadeias. A conta surge em preços mais altos, investimento menor e pressão sobre o Sul Global.
O terceiro custo é institucional. Ao sancionar o Tribunal Penal Internacional, abandonar dezenas de organismos e tratar compromissos como concessões revogáveis, Washington ensina que as regras só valem enquanto servem ao mais forte. Essa lógica estimula a corrida armamentista, blocos rivais e diversificação financeira. O poder americano pode compelir; é a credibilidade que estabiliza. Ao corroê-la, Donald Trump enfraquece o sistema que multiplicou a influência dos Estados Unidos a custo baixo.
Os três legados se reforçam. A guerra encarece a energia; as tarifas fraturam a produção; a erosão do direito elimina mecanismos de contenção. A economia mundial não colapsou porque as cadeias se adaptaram e a inteligência artificial sustentou o comércio. Mas resiliência não significa ausência de dano. O legado de quase dois anos é um mundo mais caro, mais armado e menos previsível — e a conta, paga em petróleo, seguros, investimentos adiados e vidas civis, não termina nas fronteiras americanas: afeta a Europa substancial e ao Sul Global profundamente.

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