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Adalberto da Costa Júnior entre o Messias e Bórgia

Adalberto da Costa Júnior entre o Messias e Bórgia

Adalberto da Costa Júnior (ACJ) pode-se consagrar como Messias, através de um triunfo político com a retirada do MPLA do poder, ou então Bórgia da nossa história política, ou seja, um líder com muitas virtudes políticas, na concepção de Maquiavel do termo, e sem fortuna. O microensaio visa, essencialmente, perspectivar o futuro do líder da UNITA, porque só tem direito a dois mandatos e, em caso de não triunfar nas eleições, poderá deixar a liderança da UNITA, caso não haja uma alteração dos estatutos.
As virtudes de um líder e a fortuna política
O líder da UNITA é carismático e com virtudes políticas reconhecidas (oratória e retórico, culto e sofisticado), o que lhe garante uma fácil penetração no eleitorado urbano e jovem. Conseguiu, assim, atrair um conjunto de jovens activistas e críticos do regime que não são militantes da UNITA, mas depositam total confiança no ACJ para retirar o MPLA do poder.
Maquiavel ensina-nos que as virtudes de um líder são, em si, insuficientes para lhe garantir a fortuna da História, porque os seus métodos podem estar desajustados com a realidade política e acabarem, pois, por não provocar nenhuma alteração substantiva. Este é o maior risco que o líder da UNITA corre devido à sua estratégia política que se baseia na prudência política e calculismo eleitoral, sem ousar desafiar a História para glória.
Quando um líder da oposição acena com o estabelecimento de um pacto político enquanto mecanismo de promoção da substituição de poder instalado, visa assegurar, essencialmente, uma transição de regime de forma ordeira e previsível. Mas, negligencia que as transformações dos regimes não democráticos são marcadas por circunstâncias históricas imprevisíveis e com um caminho certo quanto ao resultado dessa transição em si.
Entre os transitólogos, evoca-se o conceito de equilíbrio de poder como um factor político determinante para o resultado da transição política, isto é, a relação de forças entre os sectores moderados do regime e da oposição, por um lado, e os sectores mais radicais de ambos os campos, por outro. O pacto político resulta da correlação de forças existente num determinado momento histórico, reflectindo as condições políticas e materiais que tornam possível a negociação entre os diferentes actores. Assim, a UNITA não anuncia antecipadamente a celebração de um pacto de transição, mas apresenta-o como uma condição necessária para a mudança de regime, cuja concretização dependerá de uma correlação de forças políticas favorável à oposição.
Da frente ao pacto: da força à fraqueza
A construção de uma frente política, consagrada na Frente Patriótica Unida (FPU), enquanto plataforma política de oposição angolana sob a liderança de Adalberto Costa Júnior (UNITA) desafiou a história e criou uma dinâmica social e política de transformação política no país. Ou seja, ampliou as expectativas dos cidadãos que a FPU actuaria como o agente mobilizador do protesto popular até o fim do regime do MPLA. Mas, as diversas lideranças da FPU não foram capazes de se manter coesas e unidas no seu posicionamento político e decidiram, posteriormente, tomar posse dos seus assentos parlamentares.
Assumem, ainda assim, que os resultados eleitorais foram fraudulentos e venceram as eleições de 2022. O discurso e a prática política entram, objectivamente, em contradição efectiva, o que lhes retira qualquer legitimidade política e, sobretudo, autoridade de mobilizarem o povo pela mudança política necessária e urgente. Porque acabam por participar, efectivamente, no funcionamento político do regime, classificado como ilegítimo no discurso, através dos seus assentos parlamentares. Este comportamento enfraquece, claramente, a construção de uma frente política da oposição.
Da expectativa ao desencanto
A FPU elevou, efectivamente, a expectativa de mudança de regime e a vitória eleitoral da FPU no círculo provincial Luanda, maior círculo e mais populoso, carregava a simbologia de mutação política em favor da estratégia adoptada pela UNITA. Porque, na realidade africana, a queda de um regime ocorre sempre com a tomada da capital política e não controlo total do território, do ponto de vista militar. Ou seja, o poder oficial africano é o poder estabelecido na capital do país, caso contrário, torna-se um poder rebelde.
Com a derrota do MPLA, em Luanda, pela primeira vez na história de Angola, significava que o regime não contava com o apoio maioritário dos cidadãos. Mas, mantinha a capacidade coerciva nas ruas e visíveis de forma a assegurar a estabilidade do regime, através dos militares mobilizados que passaram a policiar a cidade de Luanda. Ou seja, os canhões estavam na rua e não para darem flores. Considerando o risco de violência militar contra a população, os líderes da FPU decidiram não mobilizar a população e assumirem, por sua vez, os assentos parlamentares.
Se esta decisão representou numa altura o sentido de Estado e de responsabilidade política, também se constituiu como um desencanto e possibilitou a construção de múltiplas narrativas ou interpretações, tais como oposição comprada, falsa oposição e, ainda, de desistência ou não participação das eleições, que espelham, acima de tudo, o desencanto político de alguns sectores angolanos.
De Messias a Bórgia
Se Adalberto da Costa Júnior trilhou um caminho político para provocar a transformação do regime, consagrando-se, assim, como Messias da História de Angola. Mas, ao hesitar se colocou na possibilidade de se consagrar como Bórgia da nossa História. As eleições de 2027 determinarão como este líder virtuoso ficará registado na memória dos angolanos.

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