Intuição, emoção e empatia: tudo o que a IA e os algoritmos ainda não aprenderam
Num mundo em que a inteligência artificial está a tomar conta de tudo e um ritmo alucinante, que espaço ainda resta às capacidades humanas, seja nas empresas, nas universidades, nas decisões políticas ou no jornalismo? Esta e outras questões mereceram a reflexão de protagonistas de renome no regresso da edição ao vivo do podcast “Puxar Pela Cabeça”, um programa da Amrop Portugal, conduzido por Maria da Glória Ribeiro e que conta com o JE como parceiro.
Para esta conversa, moderada por João Marcelino, diretor do JE, a Universidade Católica Portuguesa recebeu Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa, Mário Crespo, jornalista, Adolfo Mesquita Nunes, Assunção Cristas, Rui Miguel Nabeiro e Maria da Glória Ribeiro. Estes especialistas que partilharam visões e experiências distintas sobre as transformações que poderão marcar a próxima década.
Confrontada com todas possibilidades que se colocam através da tecnologia, Maria da Glória Ribeiro, diretora da Amrop Portugal e consultora, considera que as capacidades humanas “serão sempre as mais importantes” e define tudo aquilo que a tecnologia está a replicar como algo que “está ligado ao cérebro mas não à mente, sem intuição ou emoção”. A especialista considera que essas qualidades vão ficar para os humanos e que será tudo isso “que nos irá distinguir dos humanóides que nos vão substituir”. Num contexto em que os recrutamentos têm uma boa dose de tecnologia a determinar se determinado candidato é o melhor para a função, Maria da Glória Ribeiro não tem dúvidas: “Nunca aceitaria que um candidato fosse excluído através da avaliação de uma ferramenta de IA. As conversas até podem ser online mas nada é decidido sem uma reunião presencial”.
Decisões ao ritmo do algoritmo
A anfitriã deste encontro, Isabel Capeloa Gil, começou por ser desafiada para projetar o futuro do ensino superior, num mundo em rápida mudança alavancada na tecnologia. Para a reitora, o ensino superior “é muito mais do que um criador de emprego ou criar braços para a indústria” e terá que regressar à sua função primordial: a de articular a formação de um profissional com a formação de um cidadão que deve estar preparado para refletir e resistir à desinformação. Para Isabel Capeloa Gil, o mercado precisa de pessoas que pensem e que tragam valor e quanto a IA, terá o seu papel como extensão das possibilidades do ser humano.
Para Rui Miguel Nabeiro, CEO da Delta, a tecnologia é muito importante mas seja a IA ou qualquer outro mecanismo, tem que trazer sempre eficiência. Reconhece que a Delta está a aprender a melhor forma de adotar tecnologia e que isso também trouxe um maior acréscimo de trabalho: “A fórmula mágica é continuar a trabalhar junto dos nossos clientes para conquistar o top10 mundial que é o nosso objetivo”.
O advogado e ex-governante Adolfo Mesquita Nunes, autor do livro “Algoritmocracia”, expôs algumas das suas teses sobre a forma como os algoritmos estão a tomar conta das nossas vidas e como querem acima de tudo, a nossa atenção: “Os algoritmos escolhem aquilo que nós vemos e são eles que vão tomar decisões. Vão entrar na nossa vida em decisões que nunca pensamos atribuir-lhes competências”.
E como será no campo da energia e da sustentabilidade? A advogada e também ex-governante, Assunção Cristas, sublinha que “o grande desafio é tornar estas possibilidades tecnológicas como alavancas da sustentabilidade” e apesar de reconhecer dificuldades, considera que “o conhecimento vai permitir-nos esta evolução de forma sustentável e a fazer escolhas mais informadas”. Com Portugal a receber investimento no sector dos centros de dados, a advogada da Vieira de Almeida não tem dúvidas da importância de trazer estas infraestruturas para Portugal: “Serão muito importantes, serão âncoras de desenvolvimento, mas é preciso que tudo isto seja verdadeiramente bem feito”.
O jornalista Mário Crespo não tem dúvidas que os mecanismos atuais de IA permitem produzir coisas absolutamente sublimes, como um discurso muito bem escrito, mas deixou a pergunta: “Será que isso substitui a eloquência de um grande orador? Creio que não”. Para este profissional da comunicação com muitos anos de trabalho nos EUA, “habituamo-nos a reduzir os nossos standards de exigência e a aceitar a solução mais cómoda”. E como vê a relação de Trump com o Chat GPT? “Utiliza-o de forma muito curiosa e muito ridícula. Vivemos numa fase de absurdo”, realça.
“Para as empresas, há mais desafios para além da IA”
Rui Miguel Nabeiro reconhece a importância da tecnologia e não a desvaloriza, mas como CEO de uma das empresas mais importantes do país (e que quer crescer a nível mundial), realça que “é preciso perceber que há muito mais desafios para as empresas do que a IA”. E concretiza: “A gestão das pessoas é o mais importante, assim como a capacidade de conhecer os nossos clientes e de humanizar essa relação. Naturalmente que as tecnologias são fundamentais mas não podem ser o único tema nem o único desafio. E se a IA nos disser para lançar um produto no mercado e se não corre bem? Há muitos desafios para lidar e as pessoas estão nesse caminho”. Este responsável destaca ainda que “quando definimos determinados valores para a Delta, como o humanismo e a proximidade, sabemos que isso terá sempre um custo. Mas o bem-estar é algo que valorizamos e isto é um círculo virtuoso”.
“Preservar a empatia é essencial”
Isabel Capeloa Gil não tem dúvidas que a IA é imparável e que tentar evitá-la, no âmbito do ensino superior, “é como tentar parar o mar com as mãos”. Qual a solução? “Temos que potenciar uma adoção ética. A forma como os modelos de IA são utilizados e a forma pedagógica com que são utilizados é a chave. No meu entender, não basta que o estudante reproduza o que está na IA, é preciso trabalhar com os alunos para os sensibilizar que a capacidade de dominar o seu futuro será a capacidade de resolver aquilo que lhes vai aparecer pela frente”. Assim, é necessário um processo de evolução pessoal e quem sai da universidade “tem que entender o algoritmo e saber lidar com isso para perceber o que está por trás de tudo isto. Mas o pensamento crítico e a criatividade vem através de outros instrumentos”. E aqui, a reitora dá especial ênfase à empatia: “Temos que preservar a empatia e isso é essencial. Temos que ser capazes de ler e compreender aquilo que lemos, é um problema central. Tem que haver literacia e numeracia”.
“Novas gerações devem fazer perguntas”
Para Adolfo Mesquita Nunes, “somos todos responsáveis pela delegação de poder que confiamos à IA”. E que papel cabe às novas gerações nesse desafio? “Há mais emprego, mas as empresas contratam cada vez menos jovens. É importante que as novas gerações tenham a capacidade para fazer perguntas, para questionar constantemente”. O advogado considera que “no dia em que delegármos tudo na máquina, acabou a supervisão humana. E as máquinas vão ficar cada vez mais sofisticadas. Temos que ser donos das decisões”. O ex-governante lança um olhar no futuro e deixa um prognóstico: “Cada um de nós vai pagar de forma diferente consoante aquilo que o algoritmo sabe sobre nós e qual a nossa capacidade financeira. Vamos querer isto?”. Para Adolfo Mesquita Nunes, “a IA gere riscos brutais que podem determinar a existência de uma empresa ou os valores de uma família”.
“A Europa tem que se emancipar”
Mário Crespo não tem dúvidas de que a Europa tem um grande desafio e que esse repto é para já: “Tem que se emancipar porque deixou-se atrasar face aos EUA. Há pulsões nos governos europeus que mostram uma vontade de libertação, é visível no Reino Unido, no Canadá. Olhamos para a China e percebemos que há ali um método. Nos EUA, a governação de Trump prometeu uma poupança de trilhões ao erário público e isso foi confiado a Musk: foi um desastre humanitário completo”. O jornalista deixou um cenário do que eram as redações e da forma como estas também foram perdendo a memória: “Nas redações é fundamental a memória de redação e mesmo nas nossas famílias havia sempre aquele respeito pelos mais velhos, que eram instituições. Agora já não é assim. O fact checking deve ser usado, eu faço isso e todos os que trabalham nesse meio”.
Regulação e competitividade
Para Assunção Cristas, antiga governante e advogada da Vieira de Almeida, não devem haver clivagens entre os dois conceitos: “É importante que haja regulação porque isso transforma-se numa vantagem competitiva. Quando as pessoas usam menos o seu carro próprio e usam um carro elétrico de uma plataforma, tomam uma decisão muito mais sustentável”. Mas há riscos e os maiores passam pelas cisões e as fissuras “que podem ser criadas na sociedade fruto da evolução tecnológica e da transição energética”. Assim, “temos que confiar na regulação e em quem pode liderar a mudança”, concluiu.
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