Cessar-fogo entre EUA e Irão e a teoria dos jogos
O atual cessar-fogo no Médio Oriente, entre EUA e Irão, levanta uma questão central para os investidores. Trata-se de uma pausa ou de um importante passo para o fim da guerra. Para alguns, é uma trégua frágil. Outros admitem que possa ser mais estrutural, existindo a possibilidade de evoluir para um acordo mais duradouro, embora essa hipótese seja exigente, pois implica concessões de ambas as partes.
Existem talvez dois cenários principais. Numa primeira hipótese, o cessar-fogo cumpre os 14 dias previstos e a guerra regressa novamente. A segunda, à luz da teoria dos jogos, admite que ambos, estando a perder com o conflito, tenham incentivo para o terminar. Nesse caso, a reabertura do estreito de Ormuz representaria um win-win. Ainda assim, existe o risco de a trégua ser quebrada antes do prazo, já que basta um incidente para ditar uma nova escalada.
O estreito de Ormuz tem um papel central neste conflito. Por ali passa 20% do petróleo mundial e o seu bloqueio teve impacto imediato nos preços da energia, contagiando a economia global e aumentando o receio de estagflação. Para o Irão, este estreito é simultaneamente uma arma estratégica e um risco significativo, já que a sua economia, muito menos diversificada do que a de vários países do Golfo Pérsico, depende fortemente das exportações de hidrocarbonetos. Um bloqueio prolongado acabaria por prejudicar a economia do próprio país e aumentar a contestação interna ao regime iraniano.
Assim, tanto os EUA como o Irão têm incentivos para evitar uma escalada. Os primeiros procuram impedir um choque energético mais grave, evitar uma guerra prolongada e limitar os impactos negativos nos mercados financeiros. Já o segundo tenta evitar um agravamento da sua situação económica. Apesar disso, ainda não há sinais de que este cessar-fogo chegue a bom porto e culmine num acordo definitivo de final da guerra, pois há divergências nos 10 pontos do entendimento. O mais provável é que represente uma pausa com margem para negociação.
Após o anúncio do cessar-fogo, os mercados financeiros reagiram de imediato e os preços do petróleo e do gás caíram 15%, refletindo um alívio do risco geopolítico. Os mercados acionistas subiram entre 2% e 5%, nos EUA e na Europa. No entanto, essa descida não se tem revelado sustentada, pois, no dia seguinte, os preços dos hidrocarbonetos voltaram a recuperar parcialmente, evidenciando que os investidores, ainda apreensivos, não encaram este acordo como sólido ou duradouro. A trégua parece curta e persistem tensões na região, com alguns focos de instabilidade, o que mantém ainda um elevado prémio de risco nos preços dos combustíveis fósseis. Assim, não é expectável, para já, uma descida prolongada dos preços do petróleo ou do gás. Para que tal aconteça seria necessário um acordo mais estável e credível, sobretudo no que toca à maioria dos seus dez pontos, acompanhado de uma redução efetiva das tensões no Médio Oriente, algo que ainda não se verifica. Assim, o cenário mais provável neste momento é ainda o de elevada volatilidade, com os preços a reagirem rapidamente a qualquer novo desenvolvimento político ou militar.
No que toca à economia europeia, incluindo Portugal, esta incerteza continua a influenciar as expectativas de inflação e, consequentemente, a política monetária. As Euribor mantêm-se atualmente em máximos recentes, com a taxa a 12 meses nos 2,86%, tendo subido 60 pontos desde o início do conflito. Porém, as expectativas para as taxas de juro do BCE caíram 20 pontos em dois dias, sendo esta ainda uma descida ligeira, precisamente porque o cenário energético não transmite confiança suficiente. Ainda assim, os investidores antecipam agora apenas duas subidas de 25 pontos cada, em vez das três anteriormente previstas. Uma descida das Euribor poderá materializar-se caso a incerteza geopolítica diminua e o cessar-fogo prevaleça.
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