Democratas dos EUA tentam defender Cuba de uma ação militar de Trump
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, insistiu na retórica de que o seu país está preparado para ripostar militarmente a qualquer investida dos Estados Unidos e denunciou os “danos criminosos” causados pelo embargo de petróleo de que está a ser alvo por parte da administração de Donald Trump. Nenhuma das acusações é nova, mas é nova a circunstância em foram proferidas: durante uma visita de congressistas norte-americanos democratas à ilha. A visita, entendida na Casa Branca como uma grave injúria dos democratas face à política externa de Trump, ocorre num momento em que o presidente dos Estados Unidos tem toda a atenção virada pala o Médio Oriente e em que a comunidade internacional critica fortemente o assédio de que a ilha está a ser alvo sem que haja uma razão plausível. A não ser, evidentemente, a vontade de Trump se assenhorar do território, estrategicamente colocado numa posição de defesa do golfo outrora chamado do México.
Durante uma reunião com Pramila Jayapal, democrata de Washington, e Jonathan Jackson, de Illinois, Díaz-Canel, acompanhado, entre outros, pelo ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, afirmou que as sanções causaram danos significativos às infraestruturas e à vida quotidiana do país. O presidente denunciou “os danos criminosos causados pelo embargo, particularmente as consequências do bloqueio energético decretado pela atual administração dos Estados Unidos e as suas ameaças de ações ainda mais agressivas”. E reiterou que o seu governo mantém a disposição de aceitar “um diálogo bilateral sério e responsável” com Washington, com o objetivo de encontrar soluções “para as diferenças existentes”.
Citados pela CNN, os dois democratas norte-americanos descreveram as medidas punitivas de Washington como “uma punição coletiva cruel” e exigiram o fim imediato do embargo de petróleo depois de testemunharem o seu impacto durante uma visita de cinco dias. “Esta é uma punição coletiva cruel – praticamente um bombardeamento económico à infraestrutura energética do país – que causou danos permanentes. Deve parar imediatamente”, disseram numa declaração conjunta.
Recorde-se que os Estados Unidos mantêm um embargo económico contra Cuba desde a década de 1960 – quando Fidel Castro, o seu irmão Raúl e o médico argentino Ernesto Guevara lideraram uma guerrilha que colocou um fim ao governo do ‘protegido’ Fulgencio Batista – ao qual o governo Trump acrescentou este ano um bloqueio que impede o envio de petróleo para a ilha. Alguns países da América do Sul, nomeadamente o México, tentaram ultrapassar o bloqueio, mas a ameaça de novas tarifas sobre os que o fizerem retardou o auxílio. Mesmo assim, há cerca de uma semana, o petroleiro russo Anatoly Kolodkin chegou à ilha com 700 mil barris petróleo para refinar, o que permitiu aliviar a escassez (durante 10 dias).
Consequência da Venezuela
O embargo imposto pela administração Trump surgiu na sequência do rapto de Nicolás Maduro, e terá sido decidido como retaliação pelo facto de serem cubanos a maioria dos guarda-costas do antigo presidente da Venezuela. A escassez de combustível aumentou a frequência e a duração dos apagões, agravados pela deterioração das infraestruturas energéticas, sem manutenção e sem investimentos.
Os congressistas norte-americanos acreditam que o governo cubano deu “sinais claros de que este é um novo momento para o país”, com medidas recentes como a abertura da economia a certos investimentos cubano-americanos, o anúncio da libertação de mais de dois mil prisioneiros e a presença de uma equipe técnica do FBI para investigar o tiroteio entre soldados cubanos e a tripulação de um barco ocorrido em fevereiro. “Os obstáculos restantes ao progresso em Cuba dependem agora de os Estados Unidos mudarem a sua política ultrapassada de medidas económicas coercitivas e pressão militar herdada da Guerra Fria”, acrescentaram os congressistas, citados pela CNN.
Administração Trump: é preciso mudar, a bem ou a mal
A falta de petróleo paralisou hospitais e interrompeu serviços públicos e o transporte de alimentos, gerando descontentamento na população – sendo essa, segundo os analistas, uma das intenções centrais de Donald Trump, interessado em fazer implodir a partir do interior um regime que considera o único sobrevivente da geografia de influência da antiga União Soviética. Mas, para já, e apesar de algumas manifestações de desagrado, subsiste a ideia (enraizada há décadas e aprendida desde os bancos das escolas) de que os Estados Unidos são os principais responsáveis pelo desastre económico da ilha. Tal como no Irão, não é crível que o regime cubano venha a sucumbir a qualquer revolta popular interna.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, insistiu há uma semana que uma mudança de regime é necessária em Cuba para que sua economia melhore. O presidente Donald Trump exige reformas políticas, económicas e de direitos humanos em Cuba.
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