Tamil Nadu: dois clássicos no palco
A Índia é a única grande potência cultural que recusou tomar o ballet clássico como rosto oficial da “alta cultura”. Mas reconhece oito tradições suas de “bailado clássico” desfazendo a ideia de que “clássico” – como “universal” – seja apanágio da cultura ocidental.
Supor que outras culturas têm apenas tradições dispersas, incapazes de constituir “clássicos” em relação com o seu contemporâneo, é um resto de sobranceria colonial. Evidentemente, a pergunta de Italo Calvino – “porquê ler os clássicos?” – não perde o brilho da verdade diante do Bharatanatyam, dança tâmil tornada ícone nacional da Índia.
Assistir a um arangetram, culminar, após muitos anos de formação, de uma bailarina de Bharatanatyam, é uma sorte rara que nos calhou em viagem. E então Moogambigai Murugesan dançou. As formas esculpidas nos templos que visitámos em Hampi reanimam-se. Assistimos aos seus olhos seguirem as suas mãos e a sua mente seguir os olhos, tudo ligado, como ensina a tradição indiana. Não é apenas linguagem gestual: é coreografia no ar, poesia dita por dedos que conhecem a torção dos pulsos. Cada dedo segue o seu caminho; cada um por si e por todos, a tecer versos. Não sei ler os mudras, mas sente-se a energia, como se percebesse pela voz uma língua desconhecida.
Entretanto, o ritmo acelera e os passos correm dentro dos próprios passos. Os pés são sólidos e sentimos o embate no chão nos nossos pés descalços. Se os pés são terra, as mãos são ondas de um oceano que é a expressão em acto, rasa, sabor que nos é dado saborear. O rosto é e não é o da bailarina: a persona maquilhada, o olhar e o sorriso fazem dela uma manifestação além de si. “Surrender”, diz-lhe a sua guru, Sangeeta Isvaran: como com Draupadi quando, percebendo que os cinco maridos Pandava não a salvam, é Krishna quem a salva, tornando sem fim o seu sari.
A viagem levou-nos também ao Kattaikkuttu, teatro popular tâmil que narra e satiriza episódios do Mahabharata noite adentro até ao raiar do dia. Uma aldeia inteira assiste, esteiras estendidas em redor do palco, entre risos e cochilos, à interpretação burlesca de personagens míticas. Mas toda esta informalidade não diminui a reverência. Os pés de Draupadi, mesmo que sejam os de um actor a parecer uma matrona, são beijados quando ela sai do palco. E mães levam-lhe os bebés para que ela os tome nos braços. A sorte fez-se rara duas vezes, pois quem nos levou ao espectáculo foi Thilagavathi Palani, a primeira mulher a pontuar neste teatro tradicionalmente masculino. Ela encarna todo o espírito do Kattaikkuttu, clássico ao avesso, a revirar as convenções.
Esta é mais uma crónica que integra a série “Caderno de Viagens“.
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