A apólice que falhou duas vezes
Há apólices que só se descobrem inúteis no dia em que são precisas. A Arábia Saudita descobriu a sua na sexta-feira, 11 de Setembro, e descobriu-a duas vezes em menos de quarenta e oito horas.
Durante décadas, Riade construiu a sua cobertura contra Ormuz: o oleoduto Este-Oeste, que atravessa o reino desde os campos orientais até ao terminal de Yanbu, no mar Vermelho, para o dia em que o Golfo fechasse. Construído na guerra Irão-Iraque dos anos oitenta, convertido depois a gás e reconvertido a petróleo em 2012, era a apólice comprada numa guerra do Golfo para o caso de haver outra. E a outra chegou: desde a guerra de Fevereiro, Ormuz, por onde passava um quinto do petróleo mundial, está perturbado, e foi isso que empurrou as exportações sauditas para o mar Vermelho. Só que o petróleo que sai por Yanbu tem de passar por Bab-el-Mandeb, o estreito entre a Península Arábica e o Corno de África. Contornar um estrangulamento para desembocar noutro não é diversificar, é mudar de credor.
Na véspera, drones lançados do Iraque tinham atingido uma estação de bombagem do Este-Oeste, e nessa sexta-feira o ministério da energia saudita confirmou o encerramento do oleoduto, com Riade a anunciar que não retaliaria por agora, a pedido do primeiro-ministro iraquiano. No mesmo dia, do outro lado da península, os huthis chegaram à ilha de Perim, que parte o Bab-el-Mandeb em dois canais, depois de tomarem o porto de Mocha na véspera e de as forças do governo iemenita se retirarem de Dhubab, na costa em frente. A cobertura e a saída da cobertura falharam na mesma janela de dois dias, o que raramente é coincidência.
O desenho é iraniano e é inteligente. Incapaz de manter dentro do Golfo pressão naval suficiente sobre Riade, Teerão abriu uma frente terrestre onde tinha aliados e terreno. E há uma ironia na origem: foi o próprio reino que reacendeu esta guerra, em Julho, ao impedir, directamente ou através do governo iemenita, que um avião iraniano com dirigentes huthis, de regresso do funeral de Khamenei, aterrasse em Sanaa. Os huthis responderam no mar, perceberam que o bloqueio naval não bastava e passaram aos ataques a instalações petrolíferas e à conquista de costa. A 8 de Setembro atingiram Abha, Jizan, Najran e a base de Khamis Mushait. Três dias depois, o estreito era deles.
E então veio o que é verdadeiramente novo, e passou quase despercebido no meio das notícias de guerra. Os huthis terão declarado que a navegação se mantém segura para todas as companhias, excepto para os navios sauditas. A confirmar-se, um estreito deixou de ser um bloqueio e passou a ser uma tarifa dirigida a um único país. Quem controla a passagem já não escolhe entre fechar e abrir, escolhe a quem fecha. É um instrumento mais fino do que uma mina no canal, e mais difícil de combater, porque não agride o comércio de mais ninguém e por isso não mobiliza o resto do mundo contra si.
Convém, ainda assim, não exagerar o que se sabe. Antes da guerra, a Arábia Saudita exportava pouco mais de sete milhões de barris diários, mais de seis por Ormuz. O Este-Oeste, com capacidade em torno dos cinco milhões e expansão prevista para 6,5, escoava por Yanbu, descontado o consumo das refinarias locais, à volta de 3,6 milhões. Sobravam, portanto, mais de dois milhões de barris diários sem saída garantida. Mas a inibição real é disputada, e há uma tensão por explicar entre os volumes que se dizem retidos e um Brent acima dos 105 dólares: se estivessem mesmo fora do mercado milhões de barris por dia durante meses, o preço não estaria onde está. Quem soma perdas mirabolantes sobre barris não embarcados esquece que o preço mais alto sobre os que passam compensa parte do que não passa. O dano existe, mas é menor e mais lento do que a manchete sugere.
Até aqui, a história é de competência iraniana. Daqui em diante, é de negligência saudita.
A coligação que combatia os huthis partiu-se há anos, quando os Emirados apostaram no Conselho de Transição do Sul e abriram uma segunda guerra dentro da primeira. Riade tratou o Iémen como dossier de segunda enquanto financiava tudo o resto, das cidades futuristas ao desporto. O resultado viu-se numa semana: um reino que gasta em defesa mais do que quase qualquer outro país do mundo viu um adversário sem marinha nem força aérea tomar-lhe a costa de que dependia a única saída alternativa do seu petróleo. Comprou-se tecnologia, não se comprou capacidade, e não se defendeu o flanco de que dependia a alternativa. Redundância não é só infra-estrutura, é a condição política e militar de a manter aberta. Um cano vale o que vale a costa que o guarda.
Washington observa, e o que faz diz muito. Mohammed bin Salman ligou a Donald Trump duas vezes em vinte e quatro horas a pedir ataques americanos contra os huthis, e a resposta foi não. Mas seria erro ler isto como recuo por sobre-esticamento militar. O apoio americano não é zero, é calibrado: o comandante do CENTCOM foi a Riade coordenar, há informações e dados de alvos a serem partilhados e cerca de duzentos militares americanos em apoio não-cinético no reino. Washington ajuda a defender. O que recusa é atacar por Riade. E uma recusa tão cirúrgica não é falta de meios, é escolha política. É um sinal.
O sinal tem causas, que são a minha leitura e não a única possível, porque haverá sempre o que não se vê. Riade passou o último ano a desalinhar-se de Washington em coisas que pesam. Recuou nos Acordos de Abraão: quando o entendimento nuclear com os Estados Unidos foi tornado dependente da normalização com Israel, o reino respondeu com silêncio, e uma cimeira árabe-islâmica em Riade foi mesmo no sentido oposto. Assinou com o Paquistão e a Turquia o Pacto de Meca, um acordo de defesa conjunta que já analisei noutra coluna e que a administração americana não saudou. E, no auge da guerra com o Irão, recusou aos Estados Unidos o uso do seu espaço aéreo e das suas bases para atacar Teerão a partir de solo saudita, interdição que chegou a abranger o próprio apoio, o reabastecimento e o reconhecimento. A tudo isto soma-se a aproximação económica à China, com Riade a tratar a presença americana no Golfo como uma opção entre várias e não como a garantia. Quem diversifica as suas garantias não estranhe que a principal demore a chegar.
Nada disto anula a incógnita. Os sauditas e o governo iemenita podem reagir, e os ganhos huthis não são irreversíveis. Mas a lição sobrevive a qualquer contra-ofensiva: quem constrói uma alternativa que termina em território alheio comprou uma opção que não controla.
E fica o que nos diz respeito. Para a Europa, a exposição directa é pequena, cerca de 4% do petróleo que sai por Ormuz tem aqui o destino, e mal distribuída, porque pesa mais nuns países do que noutros. E não se fica pelo crude: por Ormuz passa também o gás natural liquefeito do Catar, de que a Europa depende, o que faz do mesmo estreito um duplo estrangulamento, de petróleo e de gás. A exposição que conta, porém, é a que chega sem se ver um navio, pela via do preço: desviar pelo Cabo da Boa Esperança acrescenta mais de dez dias e um terço de combustível, e faz disparar fretes e seguros, que se traduzem nas facturas europeias em inflação importada, com meses de atraso e sem rosto a que atribuí-la.
Quando os estreitos do Médio Oriente se fecham selectivamente, a energia e o comércio procuram o Atlântico. Mas passar ao largo de Portugal não é ganhar nada. Ganha-se quando há capacidade portuária, armazenamento, reparação naval e vigilância que transformem passagem em escala. É a diferença entre estar no mapa e estar na rota, e é uma decisão nossa, não do Irão.
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