De Ursula Von der Leyen a António Costa: o paradoxo da Europa
A Europa vive um paradoxo. No momento em que proclama a ambição de reforçar a sua autonomia estratégica, aceita submeter-se ao poder americano para, supostamente, garantir a sua segurança. No momento em que defende o multilateralismo como resposta aos desafios globais, assiste ao regresso da geopolítica e das esferas de influência. E no momento em que procura afirmar-se como potência global vê crescer dúvidas sobre o modelo económico, social e político seguido nas últimas décadas.
Entre 16 e 20 de setembro, a Europa foi confrontada com contradições que definirão o seu futuro. Ursula von der Leyen, no seu discurso sobre o Estado da União reafirmou a ambição de construir uma Europa mais autónoma e capaz de se afirmar como ator estratégico global; o acordo celebrado entre os Estados Unidos, a Dinamarca e a Gronelândia mostra quem detém os instrumentos fundamentais do poder estratégico; António Costa associou-se a Lula da Silva, Mark Carney e William Ruto no lançamento de uma iniciativa destinada a revitalizar o multilateralismo e o papel da ONU como alternativa à crescente lógica de blocos e esferas de influência; e os resultados das eleições alemãs vieram recordar que a afirmação externa da Europa depende da sua capacidade para responder às tensões económicas, sociais e políticas que atravessam o seu próprio espaço.
Mais do que episódios isolados, estes quatro acontecimentos revelam uma realidade: a ordem internacional está a reconfigurar-se, ao mesmo tempo que entram em crise vários dos pressupostos sobre os quais assentou o modelo europeu das últimas décadas.
O discurso de Ursula von der Leyen identificou os principais desafios da Europa: competitividade, inovação, defesa, autonomia estratégica, transição energética, inteligência artificial e segurança económica. Todavia, o problema não reside nos objetivos definidos, mas na insuficiente reflexão sobre as causas das dificuldades europeias.
O discurso de Ursula von der Leyen dá frequentemente a impressão de assumir que a Europa enfrenta um problema de adaptação, quando talvez esteja confrontada com um problema de transformação. A diferença não é irrelevante.
Adaptar significa corrigir políticas e aperfeiçoar instrumentos, mas o modelo permanece na sua essência. Transformar implica questionar referências que durante décadas foram consideradas adquiridas: a bondade da globalização, o papel dos Estados Unidos como garante último da segurança europeia, a relação com a China, a sustentabilidade do modelo energético e até o próprio equilíbrio entre integração económica e soberania política.
A iniciativa de António Costa talvez tenha sido o sinal mais claro de que ganha força na Europa a consciência de que o caminho terá de ser outro. Não o de mimetizar a posição americana de afirmação como potência estratégica autónoma e autosuficiente. Mas o de afirmar a Europa como referência global de recuperação do multilateralismo e da construção de uma governance mundial.
A 81.ª Assembleia Geral das Nações Unidas surge, neste contexto, como muito mais do que um acontecimento institucional. Ela constitui o palco onde se confrontam duas respostas à reconfiguração do sistema internacional: a adaptação a um mundo dominado pela lógica do poder e a tentativa de reconstruir uma ordem baseada na cooperação. Entre Ursula von der Leyen e António Costa, talvez se encontre uma das questões decisivas para o futuro da Europa.
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