Renda moderada está desfasada da realidade e é um conceito “quase provocatório”, afirmam sociólogos
A renda moderada criada pelo Governo há um ano está desfasada da realidade e “é quase provocatório”, além de que a classe média a que supostamente se dirige está “em constante transformação”, analisam dois sociólogos ouvidos pela Lusa.
De todas as medidas anunciadas há um ano, a renda moderada – situada entre os 400 e os 2.300 euros – “é talvez a mais chocante […], porque realmente […] é quase provocatório”, considera Sandra Marques Pereira, investigadora do Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território do Iscte (DINÂMIA’CET).
O Governo, ao “dizer que uma renda moderada pode ir até 2.300 euros num país como Portugal” não está sintonizado com a realidade, salienta.
Elísio Estanque, investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, concorda: “Atendendo aos baixos níveis salariais e de rendimento em Portugal, […] é distorcer bastante a realidade”, porque, “de facto, um rendimento à volta dos 1.200 ou 1.000 e poucos euros dificilmente se pode incluir dentro de uma classe média minimamente sustentada”.
O sociólogo considera até que “as medidas que foram tomadas são, de alguma maneira, favoráveis”, no sentido de os senhorios passarem a beneficiar de “uma taxa reduzida de IVA quando se trata de construções destinadas a habitações com rendas reguladas”.
Porém, desconfia do “real impacto nos setores intermédios da sociedade, que são aqueles que, de alguma maneira, mais alimentam o consumo e, portanto, mais alimentam também a economia portuguesa”.
Já Sandra Marques Pereira defende que a renda moderada não “deve ser lida de forma isolada”, mas como um indicador de “uma política de habitação que tem como foco essencial […] a criação de estímulos à promoção imobiliária e ao setor da construção”, designadamente a um setor emergente do ‘build to rent’ (construir para arrendar).
“A política pública deste Governo sobre habitação assenta no pressuposto inicial de que a crise resolve-se, em primeiro lugar, por um reforço da oferta, nomeadamente privada e, nesse sentido, abrir as condições ao investimento privado na construção e no imobiliário”, observa.
Ou seja, a renda moderada faz parte de um pacote mais genérico, com um conjunto diversificado de medidas, e “não foi originalmente destinada ao setor tradicional de arrendamento”, visando antes aqueles “que invistam em conjuntos habitacionais com elevado número de fogos” e que são atualmente “os maiores apoiantes das medidas deste Governo”.
E porquê o teto máximo de 2.300 euros? “Não digo que […] tenham existido exigências concretas por parte dos construtores e dos promotores e dos investidores […], mas isto é provavelmente um cálculo do limiar mínimo que seria aceite por estes […] ou que seria considerado viável do ponto de vista financeiro”, aponta.
Isto porque os contratos oferecidos têm benefícios fiscais válidos por 25 anos, respondendo assim a “uma narrativa muito dominante no setor, que é a da instabilidade permanente da legislação”, lembra.
Ora, Sandra Marques Pereira não acredita na “solução miraculosa, que é um jogo de soma positiva para toda a gente, para as câmaras, para os investidores, para as pessoas”.
Isto porque – justifica – “a questão [da habitação] é muitíssimo mais complicada” e essa abordagem já foi testada, sem sucesso, pela Câmara Municipal de Lisboa, que estreou um modelo de parceria público-privada a partir de 2016.
“Ainda foram lançados vários projetos, mas não tinham viabilidade económica ou financeira, porque os promotores têm exigências. Quer dizer, estão no seu direito, agora não estão é no direito de, com o apoio público e com benesses públicas, nomeadamente cedências de terrenos, cedências de edifícios para reabilitação, ganhar e não pôr habitação a custos acessíveis”, recorda.
“Os valores que são praticados são, obviamente, completamente desmesurados relativamente e acima do que são os rendimentos médios, independentemente da zona, seja em Lisboa, seja noutras zonas”, destaca.
Especialista em desigualdades económicas e sociais, Elísio Estanque recorda que o conceito de classe média obedece a critérios quantitativos definidos pela OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – que colocam cerca de 60% dos portugueses nesta ampla categoria –, mas também por perceções subjetivas.
A esse propósito, realça que, na base dos inquéritos da União Europeia, apenas cerca de 30% das pessoas em Portugal se consideram de classe média, que, além do poder de compra, pressupõe um certo estilo de vida e um capital de acesso a educação e cultura.
“A escassez de crescimento económico, a inflação galopante e toda esta conjuntura de crise atingem o grosso da classe média, daquela classe média de alguma maneira com expectativas de ascensão social e que, portanto, se pode endividar e alimentar o consumo e a economia portuguesa”, salienta.
Contudo, alerta, importa ressalvar que a categoria da classe média “é muito ambivalente” e “está em constante transformação”, como a estrutura social de um modo geral.
Ora, as políticas públicas que têm sido adotadas “de um modo geral, não têm” em conta a natureza da categoria “ou, se têm, vão muito atrás, vão […], como se diz na gíria futebolística, a correr atrás do prejuízo, ou seja, tomam-se medidas quando os problemas já estão bastante avolumados”.
E, em tempos de acelerada e imprevisível mudança, “tomar medidas de médio ou de longo prazo é mais difícil do que há 20 ou 30 anos”, reconhece.
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