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Regresso da qualificação ao WRC: sim ou não?

Regresso da qualificação ao WRC: sim ou não?

A possível reintrodução da qualificação para definir a ordem de partida no Campeonato do Mundo de Ralis não convence Richard Millener, que considera que o formato voltaria a favorecer os pilotos mais rápidos e poderia prejudicar o equilíbrio competitivo que tem levado a decisão do título até à última prova.
A proposta pretende reduzir a desvantagem enfrentada pelo líder do campeonato nos ralis de terra, nos quais partir primeiro significa habitualmente limpar a terra solta e proporcionar melhores condições de aderência aos concorrentes seguintes. Para Millener, porém, entregar aos mais rápidos a possibilidade de escolherem a posição na estrada criaria um benefício adicional: “Preocupa-me que se dê aos melhores, aos mais rápidos, a melhor oportunidade. E, como já disse, este ano, novamente o campeonato será decidido na última prova”, afirmou.
O responsável entende que a incerteza na luta pelo título representa uma vantagem para a promoção do WRC e não vê motivos para alterar um sistema que tem prolongado a discussão do campeonato: “Assim sendo, porque queremos mudar? Todos os anos chegamos à última prova. É o sonho do promotor”, salientou. “Teria muito cuidado com a introdução da qualificação.”
A posição surge numa altura em que o novo promotor tem defendido a preservação da identidade dos ralis. Millener considera que uma sessão de qualificação não faz parte dessa essência, embora reconheça que a ordem de partida continua a ser um dos problemas mais discutidos da modalidade: “Para mim, o ADN dos ralis não inclui qualificação. Mas a posição na estrada é algo que discutimos ao longo dos 20 anos em que estou envolvido no desporto e nunca foi encontrada uma boa solução.”
O dirigente recordou ainda que o WRC já utilizou este formato antes de o abandonar. “Tivemos qualificação e depois afastámo-nos dela. Se nos afastámos, porquê isso sucedeu? Provavelmente porque não funcionou tão bem como esperávamos.”
Um sistema abandonado após 2013A qualificação foi utilizada nos ralis de terra em 2012 e 2013. Os pilotos prioritários realizavam uma passagem cronometrada, após duas tentativas de treino livre, e escolhiam depois a respetiva posição de partida pela ordem dos tempos obtidos, do mais rápido para o mais lento.
O sistema permitia ao vencedor da qualificação evitar as primeiras posições na estrada, habitualmente menos favoráveis em pisos de terra. Contudo, a FIA concluiu que o formato concedia uma vantagem suplementar às equipas e aos pilotos que já eram mais competitivos.
Jarmo Mahonen, então diretor de Ralis da FIA, afirmou em agosto de 2013 que a regulamentação parecia estar a “oferecer presentes aos pilotos mais rápidos”. O responsável admitiu, por isso, a possibilidade de voltar a colocar os líderes do campeonato na função de abrir e limpar a estrada.
A superioridade demonstrada por Sébastien Ogier e pela Volkswagen durante a temporada de 2013 reforçou a discussão. A dupla venceu nove dos 13 ralis, beneficiando também da possibilidade de conquistar uma posição favorável através da qualificação. O sistema não esteve na origem desse domínio, mas ajudou a ampliar a vantagem da equipa mais rápida.
A sessão também ficou aquém das expectativas no plano promocional. Mahonen criticou os organizadores por não aproveitarem devidamente a qualificação para divulgar os respetivos ralis, reduzindo o valor de uma iniciativa que acrescentava complexidade ao programa dos eventos.
FIA procurou mais espetáculo e menos táticaA qualificação foi eliminada em 2014 e substituída por uma ordem de partida baseada na classificação do campeonato. No primeiro dia, os pilotos de prioridade 1 e 2 passaram a arrancar nessa sequência, com o líder a abrir a estrada. Nas jornadas seguintes, a ordem era definida pela classificação provisória do rali, mas em sentido inverso.
A FIA justificou oficialmente a alteração com a intenção de aumentar o espetáculo para os adeptos e reduzir a utilização de táticas relacionadas com a ordem de partida. A medida integrou uma reorganização mais ampla do formato dos fins de semana, que incluiu a uniformização do arranque cerimonial à quinta-feira e da Power Stage no domingo.
A mudança traduziu uma escolha entre dois conceitos distintos de equilíbrio desportivo. A qualificação recompensava o desempenho imediato, permitindo aos mais rápidos escolher as melhores condições. O sistema adotado em 2014 transformava a abertura da estrada num obstáculo associado à liderança do campeonato, procurando limitar a vantagem acumulada pelos principais candidatos.
Para Millener, o possível regresso da qualificação recuperaria precisamente o problema que levou ao seu abandono: dar aos pilotos mais fortes condições ainda mais favoráveis, num campeonato em que a discussão da ordem de partida permanece sem uma solução consensual.
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