Um espaço para arriscar, colaborar e falhar melhor
Dar palco aos outros. Seja por mérito, talento, reconhecimento, generosidade, justiça. Deveria ser mais frequente. Mas vai acontecendo em diferentes esferas. Como aquela que está na génese do espaço experimental que dá asas, oportunidade, a quem quer voar no e com o teatro. Try Better, Fail Better é o festival produzido pelo Teatro da Garagem desde 2008 e que ambiciona contrariar um contexto cultural frequentemente marcado pela lógica da avaliação e da competição. Aqui não há júris, prémios ou vencedores. Objetivo? Criar as condições para que a experimentação aconteça sem a pressão do resultado final.
Nem todos acabarão por subir ao palco do Teatro Taborda, em Lisboa, casa da companhia Teatro da Garagem que, em 2026, celebra 37 anos de atividade. Não é coisa pouca quando no cerne da sua prática está a pesquisa e a experimentação, a exploração de novas formas de escrita para teatro, numa reflexão contínua sobre o mundo contemporâneo. No fim de semana de 26 e 27 de setembro, cumpre-se a 19ª edição do Try Better, com quatro projetos inéditos nas áreas do teatro, performance e criação multidisciplinar. Estarão em cena, das 15h00 às 00h00, no Auditório e na Sala de Ensaios do Teatro Taborda.
Maria D. não sobe montanhas, de Gustavo Antunes, combina memórias pessoais e elementos fabulares para explorar o luto, o desejo de liberdade e a busca pela felicidade, num tom que tanto deve à tragédia como à comédia. Com um humor por vezes ácido, como a vida, que também celebra a nossa capacidade de reinvenção. Gustavo sonha viver do teatro e, quiçá, um dia, encenar textos de Samuel Beckett. E está aberto a “falhar melhor”, como escreveu o autor irlandês que viveu obsessivamente devotado à escrita.
Ora, errar é maravilhoso. E é precisamente a pensar no erro, no poder errar, que convocamos Carlos J. Pessoa, diretor artístico do Teatro da Garagem, para esta conversa – antes de apresentarmos os demais participantes desta edição do Try Better, Fail Better. Queremos saber o quão importante é, e que possibilidades abre, este espaço que permite o erro, o risco e a experimentação.
“Para quem quer viver do teatro, o Try Better não pode prometer uma carreira. Permite, todavia, algo raro: um contexto profissional de trabalho. Tempo de residência, uma equipa que acompanha, divulgação, estreia profissional diante de público.” Não se fica por aqui, pois há outras variáveis que importam. “O teatro tem uma vantagem relativa a outras atividades que tende a acentuar-se: assenta no acontecimento efémero e não padronizado, precisamente aquilo que a inteligência artificial não reproduz. Por isso a sua aprendizagem faz-se de tentativa e erro, de experimentação, de colaboração, de pertença e de compromisso.” Diz ainda ao JE que, um espaço como o Try Better, que permite errar aprendendo a tirar o melhor partido disso, acaba por ser “uma forma adequada de preparar futuros profissionais.”
Olhar para dentro e ver mundos
O Try Better, Fail Better tem por base uma open call. Este ano, receberam cerca de 100 candidaturas. Foram selecionados quatro projetos de candidatos com idades entre os 25 e os 50 anos, com uma média a rondar os 30. Os critérios, diz Carlos J. Pessoa, foram a diversidade e a consistência. “A diversidade, porque nos interessa acolher as diferentes formas de abordar as artes cénicas. A consistência, porque permite perceber desde logo a maturidade de um projeto e a sua exequibilidade.” E como se processo a seleção? “A direção artística da Garagem escolhe de forma colegial: cada um de nós faz a sua triagem, e depois comparamos e conversamos até chegarmos a um consenso. Este ano há projetos mais ligados à performance, outros às artes plásticas, ao texto e à palhaçaria. São mundos muito peculiares que se encontram e se contaminam.”
E chama a atenção para um denominador comum, que não foi intencional. “Sem que o tenhamos procurado, os quatro recorrem a figuras interpostas, como quem se defende de uma ameaça difusa, para poderem dizer o que têm a dizer: um palhaço, uma fotógrafa, uma persona fabulada, a Alice do País das Maravilhas.”
Interrompemos para apresentar os quatro intérpretes-criadores – Bárbara Gomes, Joana Resende, Mariana Sardinha e Zé Alves – que escolheram mergulhar em Alice no País das Maravilhas para desdobrarem Alice e os seus sonhos. Na breve conversa com o elenco, emerge uma figura tutelar: Bob Wilson. E uma dúvida inicial que serviu de motor à criação. “Somos pessoas privilegiadas. Como podemos transmitir dor, angústia, tensões e incertezas sobre um futuro que não rima com otimismo?” Étudo isso que agita a peça Paradoxo Molotof, feita de desassossegos.
O Teatro da Garagem tem integrado vários atores e atrizes que se revelaram nestas duas décadas de festival. O caso mais recente é o de Dai Ida, ator e performer brasileiro que apresentou no ano passado “um trabalho notável de inteligência e humor”, refere o diretor artístico. Ida faz parte do elenco de O Rinoceronte, que está em digressão no Brasil.
Miriam Freitas também é brasileira. Vive em Portugal e é professora de Artes Performativas na Universidade Nova. O espetáculo que vai apresentar no Taborda cruza palhaçaria contemporânea, teatro físico e experimentação vocal para mostrar um universo em que o ritmo funciona como matéria viva. Em Desafinada no Coração lembra-nos que estar “desafinada” não tem a ver com ritmo ou timbre de voz, mas sim com o facto de não estar no mesmo comprimento de onda de quem nos rodeia. Porque somos feitos de memórias e de encontros, estar só também nos devolve a imagem do outro. É importante dessincronizar, voltar a sentir a pele. E brincar, rir, mesmo falando sério.
Já a criação multidisciplinar dis-far-ce, de Mariana Magalhães, inspira-se nas figuras em torno da fotógrafa Cindy Sherman e do poder da representação. Explora a passagem da infância ao mundo adulto. Questiona-se. E procura desconstruir narrativas culturais.
Somar encontros, pensar no plural
No Try Better, os encontros entre quem respira teatro são, muitas vezes, somas. Somam-se experiências, percursos de vida, inquietações. Estímulos, incentivos, uma palavra amiga naquele momento em que tudo parece correr mal. É assim com quem participa, mas também com quem dinamiza esta plataforma de experimentação. Daí a pergunta: como se nutre a relação entre a Garagem e a “rede de cumplicidades institucionais e artísticas”, para usar a expressão do seu diretor artístico.
“Sozinhos é muito mais difícil avançar. Por isso privilegiamos, sempre que possível, a articulação com parceiros com quem temos afinidades, e este princípio é transversal a toda a atividade da Garagem. No Try Better, Fail Better as parcerias com o La Rage e a Tasca das Artes nascem de contactos da nossa equipa de produção e respondem a uma necessidade concreta: dar a cada grupo um espaço mais privado de criação durante o processo.”
Conjugar vontades para fazer acontecer, claro. “Os grupos ocupam de forma rotativa as duas salas do Taborda e os dois espaços parceiros, que contribuem também com material técnico. Assim, cada grupo tem uma sala à sua disposição durante todo o período de residência. Não o fazemos apenas por otimização de recursos logísticos e financeiros, mas porque acreditamos no benefício mútuo da troca de conhecimentos e experiências.”
Não poderia faltar um pedido a Carlos J. Pessoa sobre este espaço de colaboração, encontro e aprendizagens. Que balanço faz deste laboratório? “É francamente positivo”, afiança sem descartar “as dúvidas e crises próprias de uma plataforma que vive do risco.” Ao mesmo tempo que sublinha que a procura é cada vez maior de ano para ano, e que a qualidade dos projetos tem crescido de forma paulatina. E acrescenta algo que, forçosamente, é estimulante para quem dá espaço ao risco. “Reconheço também uma preparação mais sólida nos artistas que participam: conseguem projetar e materializar as suas intuições em objetos cénicos cada vez mais conseguidos.”
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