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Rússia explora deterioração da perceção de segurança

Rússia explora deterioração da perceção de segurança

A proliferação de acidentes – ou de incidentes, numa linguagem mais circunspecta – entre atividades militares russas nas imediações de países europeus está a aumentar a perceção de que Moscovo pode, em qualquer momento à sua escolha, optar por um ataque a um país da NATO ou desenvolver uma artimanha para o tornar inevitável. Nesse contexto, os Estados Unidos alertaram esta quinta-feira, 24 de setembro, os países do sul da Europa sobre um possível ataque de Moscovo, no qual a Rússia lançaria drones com alcance de 600 km a partir de navios comerciais contra a Espanha, França e Itália.
Segundo a imprensa espanhola, os serviços de inteligência dos Estados Unidos partilharam um relatório com diversos países europeus apontando para uma possível operação russa com drones contra aqueles três países, usando a máscara de navios mercantes. Ao mesmo tempo, informações recolhidas por fontes anónimas do Ministério da Defesa da Lituânia indicam que estas eventuais ações seriam levadas a cabo para fechar temporariamente um aeroporto, iniciar um incêndio ou demonstrar que Moscovo pode atacar a retaguarda da Europa sem ter que cruzar nenhuma fronteira terrestre.
 
A sucessão de ‘incidentes’
Em fevereiro passado, uma unidade naval sueca detetou um drone a decolar de um navio de inteligência russo no Estreito de Öresund. Antes disso, foi registado um ataque com drones armados no aeroporto de Leipzig, na Alemanha, que Berlim atribui à inteligência russa. Entretanto, 19 drones desarmados sobrevoaram o espaço aéreo polaco desde há um ano a esta parte. A Roménia já contabilizou mais de 100 casos de drones a sobrevoar o seu espaço aéreo ou destroços caídos no seu território decorrentes de ataques russos na fronteira com a Ucrânia.
Desde fevereiro de 2022, as autoridades documentaram 151 casos envolvendo vários tipos de sabotagem e ameaças híbridas, de acordo com o Centro de Combate à Desinformação (CCD, Center for Countering Disinformation, um organismo oficial da Ucrânia). Segundo a análise do CCD, entre fevereiro de 2022 (o início da guerra) e fevereiro de 2026, foram documentados 151 casos de “desvio, sabotagem, incêndio criminoso, tentativas de atentado a bomba e outros ataques híbridos relacionados com a Rússia”. Só entre o verão de 2025 e fevereiro de 2026, foram identificados 41 incidentes. Segundo a mesma fonte, estes ataques ocorreram em quase toda a Europa. A Polónia registou o maior número, com 31 incidentes. Surgem depois a França, com 20 casos, a Lituânia e a Alemanha, com 15, o Reino Unido, com 12, e a Estónia, com 11.
Por outro lado, há precisamente um ano, a Procuradoria-Geral e a Polícia Criminal da Lituânia desmantelaram uma rede que tentou realizar uma série de ataques coordenados em vários países europeus. Liderado por um lituano alegadamente a soldo de Moscovo, o grupo enviou quatro encomendas contendo dispositivos explosivos incendiários a partir da capital, Vilnius, utilizando os serviços de entrega especializados. Duas encomendas foram endereçadas para o Reino Unido e transportadas por aviões da DHL, enquanto as outras duas foram enviadas para a Polónia por camiões da DPD. Os dispositivos detonaram no Aeroporto de Leipzig, na Alemanha, no interior de um camião da DPD na Polónia e num armazém da DHL em Birmingham, no Reino Unido – enquanto o quarto pacote não explodiu devido a uma falha. As bombas estavam escondidas dentro de travesseiros de massagem (equipadas com temporizadores eletrónicos) ou eram um composto químico inflamável, disfarçados em tubos de produtos de higiene e cosmética.
 
Uma lógica perversa
Segundo os especialistas, estas ações têm em vista duas finalidades: testar a resistência dos europeus a lidarem com uma ameaça externa identificável – ao mesmo tempo que produzem um assinalável dano na perceção de segurança; e darem a entender que não é o facto de um país europeu não ter fronteira direta com a Rússia que o liberta de ser passível de ameaça.
É também referido que a Rússia procura países que têm um nível de defesa insuficiente. De facto, vários países europeus, principalmente do sul, não possuem sistemas integrados de defesa aérea adequados a uma ameaça que utilize drones. Espanha, França e Itália também se conjugam noutro fator de risco: os três países realizarão eleições em 2027 e possuem forças políticas capazes de capitalizar sobre o cansaço social gerado por anos de guerra na Ucrânia, um fator que o governo de Vladimir Putin poderia tentar explorar com uma ação de baixo custo e alto impacto.
 
Letónia vota para o parlamento no início de outubro
A Letónia é o próximo país europeu (da União Europeia e da NATO) a realizar eleições parlamentares – que ocorrerão a 3 de outubro próximo. É portanto um dos países que farão parte da lista de potenciais intervenções ilícitas de Moscovo, tanto mais que, como sucede noutros lugares, há na Lituánia um partido pró-russo: O Estabilidade!, que é atualmente a principal força representativa da minoria russa no parlamento. O partido elegeu originalmente 11 deputados para o parlamento nas legislativas de 2022 – que acabariam em apenas quatro depois de desistências e desentendimentos. Mas, segundo as sondagens mais recentes, o partido enfrenta a possibilidade de ficar fora do parlamento )se não atingir  um mínimo de 5% dos votos – o que, a suceder, demonstrará que os russos são cada vez menos bem-vindos naquelas paragens. Segundo os mesmos estudos, a AS (Lista Unida), uma aliança regionalista, ecologista e conservadora fundada em 2022, está confortavelmente à frente das intenções de voto.

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