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Quem vai cuidar de Portugal?

Quem vai cuidar de Portugal?

O custo invisível dos cuidadores informais
Portugal não envelhece apenas nas estatísticas. Envelhece dentro das casas.
Envelhece quando uma filha começa a sair mais cedo do trabalho para acompanhar o pai às consultas. Quando uma mulher ajuda diariamente o marido a levantar-se, vestir-se ou tomar a medicação. Quando um filho reorganiza a sua vida profissional porque a mãe deixou de conseguir viver sozinha.
São milhares de histórias individuais que, somadas, representam uma das maiores infraestruturas invisíveis do país: o cuidado informal.
No meu artigo anterior, coloquei uma questão: Portugal está preparado para envelhecer? Há agora uma segunda pergunta que me parece inevitável: quem vai cuidar de Portugal quando Portugal envelhecer?
O trabalho que as contas não mostram
Chamamos cuidador informal à pessoa que, de forma regular ou permanente, presta cuidados a alguém em situação de dependência. Mas a expressão “informal” pode induzir-nos em erro.
Há muito pouco de informal em ajudar diariamente alguém a alimentar-se, cuidar da higiene, gerir medicamentos, marcar consultas, assegurar deslocações, vigiar durante a noite ou tomar decisões quando essa pessoa deixa de conseguir fazê-lo autonomamente.
É cuidado real. Exige tempo. Exige esforço. E tem valor económico.
Os últimos dados oficiais que localizei, relativos a maio de 2026, registavam 11.420 pessoas com Estatuto do Cuidador Informal principal e 7.616 com estatuto de cuidador não principal. Nesse mês foram processados 6.901 subsídios de apoio ao cuidador informal principal, com um valor médio de cerca de 430 euros.
Estes números representam apenas as pessoas formalmente reconhecidas pelo sistema. O universo real do cuidado familiar é necessariamente mais vasto. E é precisamente essa parte invisível que deveríamos começar a observar com maior atenção.
Quanto vale uma hora de cuidado?
Imaginemos uma pessoa que cuida diariamente de um familiar durante quatro, seis ou oito horas.
Quanto custaria substituir integralmente esse trabalho através de serviços profissionais?
Quanto representa, economicamente, uma filha que reduz o horário de trabalho para acompanhar os pais?
Quanto perde uma família quando alguém abandona temporariamente a carreira para cuidar?
E quanto custa ao próprio cuidador quando anos de esforço físico, privação de sono e sobrecarga emocional começam a afetar a sua saúde?
Estas perguntas raramente aparecem juntas numa conta pública. Mas isso não significa que os custos não existam. Significa apenas que são distribuídos por diferentes lugares: empresas, famílias, Segurança Social, sistema de saúde e, muitas vezes, pelo próprio cuidador.
A OCDE identifica precisamente este problema. O cuidado informal constitui uma das principais fontes de apoio às pessoas com necessidades de cuidados de longa duração. Nos países analisados, cerca de 60% das pessoas mais velhas que recebem cuidados contam apenas com apoio informal.
Portugal apresenta ainda uma característica particularmente relevante: entre os cuidadores diários analisados pela OCDE, 36% declaravam estar simultaneamente empregados ou trabalhar por conta própria, uma das proporções mais elevadas dos países comparados. Há, portanto, pessoas que fazem dois turnos. Um termina no emprego. O outro começa em casa.
Cuidar também é uma questão económica
Durante demasiado tempo tratámos os cuidados como uma matéria essencialmente familiar ou social. Num país que envelhece, isso deixou de ser suficiente. Os cuidados são também uma questão económica.
Quando um trabalhador reduz horas para cuidar de alguém, existe impacto na produtividade e no rendimento.
Quando abandona o mercado de trabalho, existe impacto contributivo.
Quando um cuidador adoece, existe impacto no sistema de saúde.
Quando uma família deixa de conseguir assegurar uma situação de dependência e não existe resposta comunitária adequada, a pressão pode transferir-se para hospitais, cuidados continuados ou respostas residenciais.
A própria OCDE associa níveis intensos de cuidado informal a reduções do tempo trabalhado e a saídas antecipadas do mercado de trabalho. Isto significa que uma política de cuidados não pode ser analisada apenas pela despesa que gera. Também deve ser analisada pelos custos que consegue evitar.
Portugal continua muito dependente das famílias
Existe outro dado que merece reflexão.
Portugal dispõe de apenas 0,8 trabalhadores de cuidados de longa duração por cada 100 pessoas com 65 ou mais anos, quando a média da OCDE é de 5 trabalhadores. A diferença é significativa.
Não significa que seja possível importar diretamente modelos de outros países, porque os sistemas familiares, sociais e de saúde são diferentes. Mas mostra como Portugal continua fortemente dependente da capacidade das famílias para assegurar cuidados.
A OCDE assinala igualmente que a despesa pública portuguesa com cuidados de longa duração permanece entre as mais baixas da organização e que grande parte da responsabilidade continua a recair sobre cuidadores familiares, particularmente mulheres.
Até agora, este modelo conseguiu responder a muitas situações porque existiam famílias disponíveis. A grande questão é saber se continuará a funcionar nas próximas décadas.
A família portuguesa mudou
As famílias têm menos filhos. Os familiares vivem frequentemente em cidades — ou países — diferentes. Homens e mulheres participam plenamente no mercado de trabalho. A esperança de vida aumentou. E existem cada vez mais pessoas que chegam a idades muito avançadas. Por isso, podemos enfrentar um paradoxo: teremos mais pessoas a necessitar de cuidados e menos familiares disponíveis para os prestar.
A OCDE alerta precisamente para esta transformação. O aumento das necessidades de cuidados de longa duração coexistirá com famílias mais pequenas, maior mobilidade geográfica e mudanças na participação laboral, reduzindo a disponibilidade potencial de cuidadores informais. Não podemos, portanto, desenhar o sistema de cuidados de 2040 com base na estrutura familiar de 1980.
Reconhecer é importante. Apoiar é indispensável.
Portugal deu passos importantes ao criar o Estatuto do Cuidador Informal e mecanismos de proteção associados.
O reconhecimento jurídico tem valor. Mas reconhecer uma pessoa como cuidadora é apenas o princípio. A verdadeira questão é saber se essa pessoa dispõe de condições para continuar a cuidar sem deixar de ter uma vida própria.
Em 2026, o acesso ao subsídio de apoio ao cuidador informal principal continua sujeito a condições específicas, incluindo critérios relativos ao rendimento do agregado familiar. Além do apoio financeiro, existem outras dimensões essenciais: formação, descanso do cuidador, apoio domiciliário, acompanhamento em saúde, conciliação com a atividade profissional e capacidade de aceder rapidamente a respostas quando a situação de dependência se agrava.
Porque ninguém consegue cuidar continuamente, 24 horas por dia, 365 dias por ano, sem consequências. O descanso do cuidador não é um luxo. É prevenção.
O cuidado domiciliário pode fazer parte da resposta
Há sinais interessantes de mudança.
Em 2026 foi alargado o projeto de reforço das Equipas de Cuidados Continuados Integrados no domicílio. Nos territórios onde o modelo foi testado, o número médio diário de pessoas acompanhadas aumentou 46,6%, tendo sido também registada uma redução das idas aos serviços de urgência entre os doentes abrangidos.
Este tipo de experiência merece ser acompanhado com atenção. Porque permitir que uma pessoa permaneça em casa não significa transferir todo o peso para a família. Permanecer em casa só é uma verdadeira alternativa quando existe uma rede capaz de apoiar a pessoa dependente e quem dela cuida.
O cuidado é uma infraestrutura
Talvez precisemos de mudar a forma como pensamos esta matéria. Quando falamos de infraestruturas económicas pensamos em estradas, energia, telecomunicações, hospitais ou escolas. Mas uma sociedade longeva necessita de outra infraestrutura: uma infraestrutura de cuidados.
Serviços domiciliários. Cuidados continuados. Profissionais qualificados. Respostas de descanso. Tecnologia de apoio. Habitação adaptada. Articulação entre saúde e área social. Famílias apoiadas. Comunidades capazes de identificar situações de fragilidade antes de estas se transformarem em crises.
Não se trata de substituir a família pelo Estado, pelo setor social ou pelo mercado. Trata-se de reconhecer que nenhum destes atores, sozinho, conseguirá responder à dimensão futura do problema. O modelo terá inevitavelmente de ser partilhado.
Dar valor a quem dá tempo
Há uma última dimensão que não deveríamos esquecer.
Uma sociedade revela muito sobre si própria pela forma como trata aqueles que cuidam das pessoas mais vulneráveis. O cuidador não pode desaparecer atrás da pessoa cuidada. Também tem projetos. Também tem uma carreira. Também tem relações familiares. Também envelhece. E também tem direito à sua própria qualidade de vida.
Num Portugal cada vez mais velho, apoiar quem cuida não deve ser visto apenas como solidariedade. É também sustentabilidade social, prevenção em saúde, participação laboral e racionalidade económica. Porque talvez tenhamos colocado durante demasiado tempo a pergunta errada.
A questão não é apenas: quanto custa apoiar os cuidadores informais? A verdadeira questão é: quanto custará a Portugal continuar a depender deles sem lhes dar o apoio de que necessitam? E, sobretudo: quando formos nós a precisar de cuidados, quem estará disponível para cuidar de nós?

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