Algodão dispara 30% desde o início do ano, com El Niño e petróleo a pressionarem a oferta
O algodão, como motor de grande parte do comércio têxtil global, está no centro das preocupações relacionadas com o El Niño. Desde o início do ano, o preço do algodão subiu 30,70% no mercado norte-americano, negociando nos 83,2 cêntimos de dólar por libra-peso (1,83 dólares por quilo). Este fenómeno climático deverá ser o mais intenso de sempre, com ondas de calor até ao início do próximo ano, e que poderão danificar as culturas em várias fases — desde a plantação até à colheita, criando um desfasamento entre a procura global e a oferta real.
Neste contexto, estima-se uma produção de 25,5 milhões de toneladas até 2027 face a um consumo de 26,8 milhões de toneladas. Além do volume, a qualidade também pode ser afetada quando esta ‘commodity’ é castigada por secas ou cheias, levando a que matérias-primas de nível inferior entrem na cadeia de abastecimento e com o risco de comprometer a qualidade final dos produtos têxteis acabados.
Nos Estados Unidos, devido às condições meteorológicas adversas, causadas pela seca, o Departamento de Agricultura norte-americano reduziu a estimativa de produção. A projeção caiu de 2,96 milhões para 2,87 milhões de toneladas entre agosto e setembro. Na China, a redução deve-se a condições meteorológicas menos favoráveis e a uma menor área cultivada na região de Xinjiang (que concentra a quase totalidade do algodão chinês). E, no caso da Índia, apesar de deter a maior área cultivada de algodão do mundo, a sua produtividade é inferior à de concorrentes como a China ou o Brasil.
De acordo com a Fibre2Fashion (plataforma de comércio especializada em vestuário), também a subida do preço do crude desempenha um papel importante na fixação dos preços praticados na indústria têxtil. Isto acontece porque as cotações do algodão são frequentemente influenciadas pelos preços dos seus concorrentes, com especial destaque para o poliéster. Como o custo do petróleo é um dos principais motores do preço do poliéster, a sua valorização acaba por ter um impacto indireto no aumento da procura e na consequente subida de preço do algodão. Além disso, se o preço dos fertilizantes dispara, muitos agricultores reduzem a área plantada de algodão ou migram para culturas que exigem menos gastos.
Dana Bodnar, economista sénior da Atradius Crédito y Caución, afirma que “as condições meteorológicas extremas podem danificar infraestruturas, perturbar a produção e aumentar os custos logísticos. Ao mesmo tempo, os governos podem enfrentar necessidades crescentes de despesa para apoiar as comunidades afetadas e reparar ativos danificados.”
2027 será o ano mais quente?
O El Niño é um fenómeno natural que se repete a cada dois a sete anos. As águas superficiais do Pacífico equatorial central e oriental começam a aquecer na primavera, levando a grandes alterações nos padrões de vento, pressão e precipitação em todo o mundo nos meses seguintes.
As temperaturas da superfície do mar nesta zona do Pacífico equatorial já estão significativamente acima da média e continuam a subir. As temperaturas estiveram, em média, 1,5 graus acima do normal entre maio e julho de 2026, passando para dois graus acima do normal em julho, segundo a OMM, que refere ainda leituras de 2,2 graus a 2,6 graus acima da média entre o final de julho e meados de agosto, “o que demonstra o contínuo fortalecimento do fenómeno”.
Abaixo da superfície do oceano, as temperaturas oceânicas estiveram ainda mais de 08 graus acima da média em algumas áreas durante julho e início de agosto. Embora cada El Niño seja diferente, o fenómeno causou ou intensificou historicamente secas e riscos de incêndio em partes da Amazónia, América Central, Indonésia e Austrália, interrompeu a monção na Índia e trouxe chuvas torrenciais para a África Oriental.
Este fenómeno soma-se às alterações climáticas causadas pelas atividades humanas, exacerbando os eventos climáticos extremos. Para o período de setembro a novembro deste ano, as previsões da OMM indicam um aumento da probabilidade de temperaturas acima da média em quase todas as massas terrestres, bem como padrões de precipitação consistentes com uma resposta atmosférica forte e clássica a um El Niño intenso no Pacífico.
No ano seguinte ao El Niño, o calor armazenado no oceano é libertado para a atmosfera, contribuindo geralmente para o aumento das temperaturas globais, levando muitos cientistas do clima a prever que 2027 será o ano mais quente de que há registo.
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