Prémio Munch 2026 atribuído ao coletivo sami Dáiddadállu
A rede interdisciplinar sami Dáiddadállu é a vencedora do Prémio Munch deste ano, que celebra a liberdade artística. O prémio é atribuído anualmente pelo Museu Munch, em Oslo, e, além do simbolismo, envolve também um prémio pecuniário no valor de 300.000 coroas norueguesas (cerca de 27,800 euros). É atribuído a artistas cuja prática está em linha com o espírito de Edvard Munch, que defendia a liberdade artística e a experimentação individual.
Dáiddadállu – uma rede interdisciplinar de 22 artistas sami baseada em Guovdageaidnu, na Noruega – sucede à artista palestiniana Samia Halaby, que foi homenageada em 2025 pelas suas abordagens inovadoras à pintura e ao ativismo na Palestina. A prática artística deste coletivo abarca desde as artes visuais, cinema, dança, teatro e escrita criativa à coreografia, design, música e joik, uma forma tradicional de canto.
Fundada em 2014 pela artista e escritora Máret Ánne Sara e pela coreógrafa e cineasta Elle Sofe Sara, naturais de Guovdageaidnu, em Sápmi, com a missão de inserir ativamente o conhecimento, a cultura e as perspetivas indígenas nos circuitos da arte contemporânea. A rede alargou-se a outros membros que vivem e trabalham nas regiões de Sápmi (região antes designada como Lapónia) na Suécia, Finlândia e Noruega.
Projetos recentes incluem a obra encomendada pela Hyundai a Máret Ánne Sara, “Goavve-Geabbil”, que esteve exposta na Tate Modern, em Londres, e a performance “Láhppon/Lost” da coreógrafa Elle Sofe Sara.
“O júri do Prémio Munch gostaria de homenagear a Dáiddadállu pelo seu relevante trabalho no apoio aos artistas indígenas e por integrar ativamente o conhecimento e as perspetivas indígenas no universo artístico já estabelecido”, lê-se em comunicado. “A Dáiddadállu opera como uma rede focada na criação e construção de infraestruturas que faltavam para as suas práticas. Com ênfase na solidariedade e na sustentabilidade, nutrem a próxima geração ao mesmo tempo que honram os seus anciãos. Embora fundamentalmente comprometidos com as suas comunidades, também desafiam a cultura Sami a partir de dentro, confrontando o status quo.”
Em comunicado, Dine Arnannguaq Fenger, diretora-geral da Dáiddadállu, realça os longos anos de trabalho árduo na construção da Dáiddadállu. “Trata-se de criar uma plataforma e uma infraestrutura onde os artistas sami se possam desenvolver como artistas, trabalhar, colaborar e interagir com o mundo nos seus próprios termos”, frisa Fenger. “É por isso que este prémio significa tanto para nós. É um reconhecimento do trabalho realizado ao longo de muitos anos, das pessoas que construíram a Dáiddadállu e da importância de termos instituições de arte Sami robustas.”
O povo Sami
A colonização dos territórios sami pelos suecos a partir da década de 70 de 1600 alterou a estrutura cultural e económica deste povo. Uma das consequências mais graves foi a caça pelos colonizadores de determinadas espécies até à sua extinção, o que provocou epidemias de fome entre os Sami e, gradualmente, a diminuição demográfica. Esta situação apenas se alteraria em 1751, quando o rei sueco criou a Lapónia (passando-se a designar os Sami como Lapões) e conferiu direitos de caça igualitários a samis e colonos.
A perseguição religiosa também não se fez esperar, seguindo-se a deportação de samis que no século XVIII estivessem a viver em Gästrikland, Västmanland e Kopparberg. A posição anti-étnica da Suécia perdurou no século XX, proibindo-se no início do mesmo a fala da língua sami nas escolas para nómadas – só em 1992 passariam a ter o direito de comunicar e ser respondidos na sua língua. E até aos anos 1970 apenas foi permitida a construção de casas de pequena dimensão a este povo.
Foram-lhes também retirados de forma progressiva os direitos de exclusividade de caça e pesca, atividades que com a criação de renas são basilares para a sua subsistência. O povo Sami estende-se por regiões que integram não só a Suécia como a Noruega, Finlândia e Rússia.
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