“A culpa morre solteira”
No domingo, 20 de Setembro, em Madrid, José Mourinho entrou na sala de imprensa com uma folha A4 na mão. Tinha impressas duas fotografias de lances do dérbi que o Real Madrid acabara de perder, por 2-1, com o Atlético. Mostrou-as aos jornalistas e disse que a conferência era dispensável, porque a história do jogo estava ali. No dia seguinte, o Atlético respondeu, nas redes sociais, com uma impressora a imprimir a fotografia do próprio Mourinho e uma frase contra o assédio aos árbitros.
Nessa mesma noite, no Dragão, o FC Porto venceu o Benfica por 3-1. Seguiu-se o ritual que conhecemos: um clube garantiu que não tinham acontecido “coisas estranhas”; o outro respondeu com um vídeo de “coisas normalíssimas”, houve acusações de dualidade de critérios, pedidos de suspensão do Conselho de Arbitragem, um gesto obsceno e até um pedaço de pão duro atirado ao banco adversário.
Não me interessa saber quem tem razão na avaliação dos lances. Há especialistas para isso. Também não vou psicanalisar ninguém à distância. Como escrevi na última crónica, isso tem nome – psicanálise selvagem- e não o faço. Interessa-me outra coisa, que é pública e que todos vemos: a rapidez com que, nos desportos de grupo, e no futebol em particular, a derrota se transforma em injustiça. E o que essa operação diz sobre nós, espectadores, que assim ajuizamos.
Um mundo dividido em bons e maus
Melanie Klein descreveu, nos primeiros meses de vida, um modo de funcionamento psíquico a que chamou posição esquizo-paranóide. Parece um palavrão, mas vou tentar explicá-lo de modo simples.
Antes de mais, uma palavra que a Psicanálise usa à sua maneira: objecto. Para nós, não é uma coisa. É aquilo, ou aquele, em quem pomos o nosso amor, o nosso ódio, a nossa esperança. Quase sempre uma pessoa, mas uma pessoa tal como a trazemos cá dentro, não exactamente como ela é. Freud notou que até uma ideia, ou um país, pode ocupar esse lugar. Para muitos adeptos, o clube também.
Para o bebé, o primeiro objecto nem sequer é a mãe inteira. É o seio, que alimenta, ou que falta. Não há meio termo. E, quando falta, a fome, ou a ausência de colo, por ex., são sentidas como um ataque. Incapaz de suportar essa angústia, o bebé divide o seio em dois: um bom seio – perfeito, que dá; e um mau seio – que nega e persegue. Mais: é para o mau seio que atira a sua própria raiva, que assim deixa de ser sua. A ameaça passa a estar ali, no Outro, de onde o ataca.
Klein insistiu noutro ponto importante: não se trata de uma fase que se ultrapassa de uma vez por todas. É uma posição; um lugar psíquico para onde regressamos, ao longo da vida, sempre que a angústia aperta. E poucas coisas a despertam tanto como uma derrota vivida diante de milhões de olhos.
Quando a culpa é do árbitro, a equipa fica intacta. O treinador fica intacto. E, sobretudo, fica intacto o adepto, que pôs naquele clube uma parte importante de si e todo o seu amor. A derrota deixa de ser uma perda e passa a ser um roubo. E um roubo não se chora. Denuncia-se.
A posição mais difícil
À posição esquizo-paranóide, Klein contrapôs a posição depressiva. O nome engana: nada tem que ver com depressão, no sentido comum. É o momento em que o bebé descobre que a mãe que o alimenta e a mãe que o frustra são a mesma pessoa. O objecto passa a ser total, bom e mau, ao mesmo tempo. Com essa descoberta chegam a ambivalência, a preocupação com o dano causado e o desejo de reparar. É uma conquista, e é a condição para que um luto possa acontecer.
No futebol, a posição depressiva pode dizer-se assim: jogámos mal, falhámos, o outro foi melhor, e isso dói. Curiosamente, ouviu-se algo parecido no Dragão, quando Marco Silva afirmou que tinham sido eles a perder o jogo e que era preciso olharem para si mesmos. É uma frase rara no nosso futebol. E tende a durar pouco. Habitualmente, depressa se regressa aos critérios do árbitro e ao condicionamento da arbitragem. Isto mostra, com uma nitidez quase didáctica, a oscilação que Klein descreveu e que Bion viria a pensar como um movimento permanente entre as duas posições. Chegar à posição depressiva não é o mais difícil. Difícil é lá permanecer.
Por outro lado, há um preço que nem todos podem pagar. Num clube pequeno, ou com um treinador pouco conhecido, assumir a derrota é muitas vezes ouvido como confissão: ele próprio o disse, portanto vai para a rua! Quando o árbitro não chega, o mau tem de ser depositado noutro lugar, e o treinador é o bode expiatório mais à mão. Expulsá-lo dá ao grupo a ilusão de ter expulsado a derrota.
Para mais, quem ganha também não está a salvo. A ironia dos vencedores, que transforma a queixa do rival em piada, também tem lugar na teoria kleiniana: o triunfo e o desprezo são defesas maníacas, formas de não sentir a dependência do Outro e a culpa que ela traz.
O que isto faz aos adeptos
Um treinador ou um presidente que, depois da derrota, aponta o árbitro, não está só a falar de um lance. Está a oferecer a milhares de pessoas uma maneira de “arrumar a frustração”: o mal está lá fora e tem cara. Bion, no seu trabalho com grupos, descreveu um funcionamento a que chamou pressuposto básico de luta-fuga: o grupo passa a comportar-se como se se tivesse reunido para lutar contra um inimigo, ou para fugir dele, e procura um líder que lho aponte. Nesse registo, o grupo deixa de pensar e passa a agir. Há treinadores que parecem “especialistas” nesta bordagem, e é assim que motivam o grupo para as vitórias.
Há ainda uma consequência que me preocupa, enquanto clínica. O clube ensina, domingo após domingo, uma maneira de lidar com a perda. E muitos dos que estão a aprender têm dez, doze, quinze anos. Uma criança que ouve, semana após semana, que quando se perde a culpa é sempre de alguém de fora, fica com menos instrumentos para perder na escola, no amor, na vida. E para aprender alguma coisa com isso.
Perder bem
Os árbitros não são intocáveis, e nem toda a suspeita é projecção. Em Junho, o director técnico de arbitragem da Federação Portuguesa demitiu-se depois de levantar preocupações sobre as nomeações, e o caso seguiu para o Ministério Público. Há erros, alguns graves. A crítica é legítima e necessária. O problema não é a crítica, é a função que ela cumpre. Há uma crítica que procura perceber o que correu mal: essa fala do árbitro, mas também do golo que falhámos e da marcação que não fizemos. E há outra que só procura não sentir a derrota: essa só pode falar do árbitro, porque, se admitir um único erro nosso, a dor volta a entrar.
Seria tão interessante ouvir, de vez em quando, uma conferência de imprensa em que a folha A4 trouxesse os nossos próprios erros… Não por humildade de fachada, mas porque é aí que começa o melhor que o futebol tem para nos ensinar: que é possível perder, sofrer com isso, e voltar no domingo seguinte com vontade de ganhar. A isto, em Psicanálise, chamamos elaborar.
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