Lusofonia pode ser uma “ponte” para o futuro do agronegócio
“Comer e beber nunca vai passar de moda.” A frase, proferida pelo Ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, esta quinta-feira, 1 de Outubro em Lisboa via comunicação em vídeo na abertura do Global Agri Forum resume um dos grandes paradoxos do futuro da agricultura: aquilo que é mais básico — pôr comida na mesa — tornou-se também um dos maiores desafios à escala global.
As alterações climáticas, a demografia, a transformação geográfica dos mercados, a segurança alimentar e energética e a escassez de mão de obra estão a obrigar o setor agrícola a acelerar a inovação. Foi este o ponto de partida do Global Agri Forum, realizado pela Vieira de Almeida (VdA), que reuniu responsáveis políticos, empresários e especialistas do setor.
Para José Manuel Fernandes, a resposta passa por uma agricultura cada vez mais mecanizada e tecnológica, assente na agricultura de precisão, na robótica e no desenvolvimento de plantas e culturas mais resistentes às alterações climáticas. Mas há uma condição: “os países mais pobres não podem ficar de fora” desta transformação, avança.
Na União Europeia, acrescentou, a agricultura enfrenta desafios que vão além do clima. A quebra da natalidade, a escassez de trabalhadores e a necessidade de garantir segurança energética acabam também por ter impacto direto na segurança alimentar.
A água surge como outro dos recursos críticos. O investimento em armazenamento, a construção de infraestruturas para regular os recursos hídricos e soluções como a dessalinização deverão ganhar peso numa estratégia de adaptação às alterações climáticas. “Todos são convocados para este desafio”, defendeu o ministro, destacando que a construção da barragem de Girabolhos teria evitado as cheias deste ano. Salientou ainda o tema da Água que Une, um investimento na ordem dos 5,4 milhões de euros até 2030.
Bruxelas prepara também instrumentos financeiros para reforçar a competitividade do setor. Fernandes apontou para um fundo europeu de 400 mil milhões de euros para o período 2028-2034, que deve ser usado para apostar na inovação enquanto, à escala global, os investimentos necessários para responder aos desafios da agricultura e da segurança alimentar atingem valores de vários biliões de euros.
Aponta ainda os vários memorandos assinados por Portugal, deixando a dica de que não devem ficar apenas no papel, mas sim que devem ser usados.
Mas a discussão em Lisboa não se ficou pela tecnologia ou pelo financiamento. A Lusofonia foi apresentada como uma possível plataforma para aproximar mercados, conhecimento e investimento.
Portugal tem já uma relação económica relevante com estes mercados. Entre 2021 e 2025, os negócios associados a memorandos de entendimento celebrados pelo país terão permitido atingir 2,9 mil milhões de euros em exportações, cerca de 38% do total das exportações abrangidas por esses instrumentos, segundo os números apresentados no encontro.
Para o ministro, estes valores são “uma bússola” para uma relação que deve assentar em parcerias de longo prazo e numa lógica de benefício mútuo. Portugal pode levar para esses mercados experiência em áreas como o regadio, a olivicultura e a tecnologia agrícola, mas também deve procurar construir relações estáveis e cooperantes.
É precisamente essa lógica de ligação que Assunção Cristas, co-head of practice e partner de Ambiente e Alterações Climáticas da VdA, quis sublinhar. A ambição passa por contribuir para o desenvolvimento do setor em Portugal, mas também nos países de língua portuguesa, disponibilizando conhecimento e serviços jurídicos especializados para apoiar investimento e negócios.
“O futuro do agronegócio será feito por relações de confiança”, defendeu ainda António Corrêa Nunes, membro do advisory board do Global Agri Forum. A Lusofonia representa, neste contexto, um universo de cerca de 260 milhões de habitantes, que pode gerar valor económico se forem criadas relações mais estreitas entre empresas e mercados.
A mesma ideia foi reforçada por Raúl Bragança Neto, membro do conselho do Global Agri Forum: “falar hoje de agricultura é falar de soberania, mas também de ligação entre mercados. A Lusofonia pode funcionar como uma rede capaz de conectar recursos, mobilizar conhecimento e acelerar a inovação.”
Num mundo em que produzir alimentos se tornou simultaneamente uma questão económica, climática e geopolítica, a língua comum pode ser mais do que uma herança cultural. Pode transformar-se numa infraestrutura de negócios.
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