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O Brasil e o alerta para a Europa

O Brasil e o alerta para a Europa

A Europa deveria acompanhar a eleição brasileira para além da preferência por um candidato. Está em jogo a liberdade de um país de escolher seus governantes, sem que governos estrangeiros condicionem essa decisão por meio de pressões econômicas e de apoio eleitoral. Quando tais práticas se tornam aceitáveis, a soberania passa a depender da força de quem pretende limitá-la.
No Brasil, as consequências se estendem por toda a América do Sul. Maior economia da região, o país reúne recursos agrícolas, energéticos e minerais, mantém relações com a China e participa dos BRICS, o principal mecanismo da futura reorganização da ordem global. Sua capacidade de dialogar com diferentes centros de poder amplia as possibilidades de uma região que não deveria ser tratada como uma extensão dos interesses de Washington.
É essa autonomia que a retomada da Doutrina Monroe pelo governo Trump vem pressionando. Reafirmar a primazia americana no hemisfério implica restringir outras potências e influenciar escolhas locais. Aceitar essa lógica também reduz o espaço europeu: as relações com os sul-americanos ficariam subordinadas às prioridades norte-americanas.
O acordo comercial Mercosul–União Europeia mostra o que está em jogo: uma parceria construída diretamente entre as duas regiões. Entretanto, seria um erro atribuir ao exterior as dificuldades da democracia brasileira.
A influência estrangeira encontra terreno favorável em uma sociedade cansada e em um sistema político pouco renovado. Faltam novos nomes, mas, sobretudo, quadros capazes de pensar o futuro para além da próxima disputa. A polarização mobiliza ressentimentos com mais facilidade do que organiza respostas sobre educação, produtividade, tecnologia e projeção internacional.
O principal adversário de Lula é seu próprio legado. Após cerca de dezesseis anos de seu grupo político na Presidência desde 2003, prometer mudanças exige explicar por que elas ainda não ocorreram. A oposição também precisa oferecer algo além da mera rejeição ao adversário e da proximidade com líderes estrangeiros.
O Brasil não recuperará a ambição de futuro apenas alternando os protagonistas de seus conflitos. Essa fragilidade interna não confere a outros países o direito de interferir. Concordar com um candidato não legitima o uso de instrumentos de Estado para favorecer sua vitória.
O precedente tolerado no Brasil poderá ser invocado amanhã contra uma democracia europeia. Portugal tem razões para compreender esse risco. Seus vínculos com o Brasil recomendam uma parceria que atravesse governos e respeite escolhas, inclusive as que desagradem. Uma Europa que deseja preservar sua autonomia deveria reconhecer no Brasil o mesmo direito.
Afinal, a soberania perde consistência quando defendida em casa e relativizada no exterior.

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