A carregar agora

Inês Moura: “A arquitetura é arte, mas também função”

Inês Moura: “A arquitetura é arte, mas também função”

A cervejaria Portugália, que desde 1925 serve imperiais geladas na Almirante Reis, em Lisboa. O Café de São Bento, lugar assiduamente frequentado por políticos da esquerda à direita. O Palácio Chiado, onde turistas e locais descobrem a gastronomia contemporânea portuguesa, são alguns exemplos do trabalho de Inês Moura. A forma como trabalha o detalhe e mistura as linguagens contemporâneas com a história dos locais onde projeta têm-na destacado entre os arquitetos da sua geração. Formada em arquitetura na Universidade Lusíada, em Lisboa, e pelo Politécnico de Milão em 2005, o caminho profissional de Inês começou em vários ateliês de arquitetura. Entre os quais o do seu ex-professor da universidade Fernando Hipólito e o do arquiteto Falcão de Campos, que, diz, teve uma grande influência no seu trabalho. Seguiram-se oito anos num ateliê na Praia Grande, em Sintra, onde trabalhava de uma forma “idílica”, conta. “Tudo era desenhado, os projetos que apresentávamos eram calhamaços de folhas com muitos detalhes, tudo descrito. E sempre gostei disso.”
Em 2015, decide montar negócio em nome próprio, trabalhando como uma espécie de ateliê satélite dos seus colegas da Praia Grande. Sentada numa mesa no seu ateliê, perto do jardim da Estrela, de lapiseira na mão e caderno aberto, onde amiúde desenhará alguns pormenores enquanto fala, reforça o gozo que lhe dá ser arquiteta. “É um processo de aprendizagem contínuo. Sinceramente, gostava de trabalhar para sempre.”
Mais tarde, recebe o convite para integrar a equipa criativa da Time Out Market, com a missão de levar a outros países o modelo arquitetónico do mercado de Lisboa. “Foi muito interessante, escolhíamos os arquitetos locais, em Londres ou em Nova Iorque, e acompanhávamos os projetos”, conta. Mesmo nessa altura continuou a trabalhar em alguns projetos seus, apesar do pouco tempo disponível. “Chegava a casa e ainda trabalhava todos os dias até às três da manhã”, recorda.

Em 2017, decide que é tempo de se concentrar no seu ateliê e começa a projetar, para o grupo Non Basta, os restaurantes Memória, Província e Madrasta. É também por esta altura que começa a fazer a arquitetura de interiores do Hotel Esqina. Apesar dos vários projetos da mesma tipologia, recusa a especialização no desenho de interiores de restaurantes e hotéis. “Acontece por acaso”, sem dar grande importância à questão. Mas reforça, “no modo de trabalhar, somos um ateliê de arquitetura tradicional, com as mesmas fases, desde o estudo prévio ao projeto de execução, onde tudo é desenhado. Aliás, todos nós, aqui no ateliê, somos arquitetos”, esclarece.
Criatividade e técnica
Nascida em Cascais em 1984, desde cedo soube qual o caminho que ia seguir. “Sempre quis ser arquiteta e sempre gostei de desenhar”. À questão se a arquitetura é arte ou não, Inês Moura responde que a arquitetura “tem um lado muito criativo, mas também muito técnico. Nunca podemos esquecer que temos de entender os materiais e o que é possível fazer com eles. A arquitetura tem de responder a uma função e por isso, de facto, não é só arte”. Tem um método criativo, um ritual que ajuda a desenvolver as suas ideias – questionamos. Inês conta que, sobretudo, existe um grande envolvimento da sua parte.
“Sou obcecada pelo meu trabalho e pelos projetos que vou fazer, ou seja, não consigo desligar até sentir que chego à ideia certa”, e nunca sentada em frente ao computador, confessa, acrescentando que a cultura visual é muito importante no seu processo criativo, “por isso estou sempre a ver e a pesquisar coisas novas”. Sublinha igualmente outros fatores que contribuem para chegar à ideia, “interpretar e entender o cliente e ver o espaço, são fundamentais”. Entre outros projetos, está a desenhar uma casa na Madeira, e recorda o quão essencial foi visitar o local. “Ter lá ido foi essencial para entender o lugar e respeitá-lo, perceber o contexto e também para conquistar o cliente”, explica.
Regressamos ao seu percurso profissional. E conta-nos como um telefonema lhe deu mais ferramentas para gerir os seus projetos. “Ligaram-me do ateliê Saraiva e Associados, do arquiteto Miguel Saraiva, e convidaram-me para integrar a área de arquitetura de interiores.” Aceitou e passou a ser a diretora criativa dessa área. No ateliê, um dos maiores do país, aprendeu a gerir equipas maiores em projetos de outra escala e com timings muito apertados, como grandes hotéis – o Radisson é um deles.
A experiência contribuiu para que, hoje, novamente dedicada em exclusivo ao seu ateliê, esteja a trabalhar com a sua equipa de seis arquitetos em 15 projetos em simultâneo. Os muitos restaurantes, hotéis e casas que já desenhou, e o grande desejo de projetar fora de Portugal, não beliscaram a sua motivação: “sinto que só agora estou a começar.”

Share this content:

Publicar comentário