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Lula da Silva parte com forte desvantagem para a segunda volta

Lula da Silva parte com forte desvantagem para a segunda volta

Tal como haviam dito vários analistas – entre eles o investigador André Pereira Matos em entrevista ao JE – a quarta vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na corrida presidencial afigura-se bem mais difícil que nas três vezes anteriores, em que levou sempre de vencida o seu opositor. E nessas três vezes, Lula da Silva apresentou-se sempre à segunda volta como vencedor da primeira: em 2002, avançou com 46,4% contra José Serra, em 2006 com 48,6% contra Geraldo Alckmin e em 2022 com 48,4% contra Jair Bolsonaro. Apenas em 1989 Lula da Silva partia para a segunda volta depois de se classificar em segundo lugar, com 17,1%, atrás de Fernando Collor de Mello, que obteve 30,4% e que acabaria por vencer a segunda volta.
Desta vez, o presságio da primeira tentativa de atingir a presidência persegue Lula da Silva: na primeira volta deste domingo, 4 de outubro, não foi além dos 45,16%, um pouco atrás dos 47,03% obtidos por Flávio Bolsonaro. Há quatro anos, o seu pai, Jair, não tinha ido além de um segundo lugar na primeira volta, com 43,2%, contra os já referidos 48,4% de Lula da Silva. Bolsonaro perderia a segunda volta com 49,1% – mas desta vez há muitos analistas que antecipam uma vitória do seu filho.
Para todos os efeitos, os resultados de domingo indicam que o país está profundamente dividido a meio, o que fica claro pelo facto de os seis restantes candidatos terem averbado, em conjunto, cerca de 8% dos votos. Muito pouco, mas ainda assim eventualmente importantes para quem quiser ganhar a segunda volta, a 25 de outubro.
Augusto Cury, que surpreendeu ao terminar em terceiro lugar com 2,9% dos votos (chegou a ter intenções de voto que se aproximavam dos 10%), anunciou oficialmente que não apoiará nenhum dos candidatos restantes. Cury afirmou que se vai “silenciar completamente” em relação à segunda volta. Renan Santos, que chegou aos 2,24%, também rejeitou formalmente qualquer apoio, mas disse que considera a vitória de Flávio Bolsonaro muito provável. Ronaldo Caiado, que chegou aos 2,18%, remeteu uma decisão final sobre apoios à segunda volta para o partido (PSD). Só Romeu Zema que não foi além de uns ‘despiciendos’ 0,27%, governador de Minas Gerais, sinalizou um posicionamento claramente anti-Lula, mas ainda não formalizou um endosso direto a Flávio Bolsonaro.
 
O que disseram os dois
“O resultado, às vezes, é um pouco inesperado. Eu confesso que esperava ganhar no primeiro turno”, declarou Lula da Silva, referindo-se às sondagens que o colocavam numericamente à frente na reta final da campanha. Para demonstrar confiança perante os seus apoiantes, o ainda presidente recorreu a termos que os analistas dizem ser do futebol para avisar o adversário: “eu sou muito bom no mata-mata, no tête-à-tête. Vamos ter um dia de folga e, na terça-feira, que os Bolsonaros se preparem. O jogo vai começar, estamos na prorrogação e vamos convencer as pessoas”.
Lula definiu que a grande prioridade estratégica da sua “nova campanha” será resgatar os eleitores que não foram votar. A primeira volta registou uma abstenção superior a 33 milhões de eleitores (21,07% do eleitorado). É o maior percentual de abstenção registado numa primeira volta desde 1998 (quando tinha atingido 21,5%). O indicador mantém-se acima do registado em 2022 (20,93%) e 2018 (20,33%). O problema é que, em quase todas as eleições presidenciais desde a democratização de 1989, o número de eleitores que faltaram às urnas foi maior na segunda volta que na primeira. Resta a Lula da Silva tentar o mesmo que fez há quatro anos: 2022 foi exatamente o único ano que fugiu a esta regra – e Lula da Silva bateu Bolsonaro.
Do seu lado, Flávio Bolsonaro destacou que a votação expressiva que obteve em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais reflete um forte desejo de transformação. “Fiquei muito feliz com a quantidade de brasileiros que foram às urnas para se manifestar e não se omitiram porque queriam essa mudança”, afirmou. E criticou os institutos de sondagens que o colocavam em desvantagem na reta final, celebrando o facto de ter falhado a vitória direta na primeira volta “por muito pouco”. O senador acusou diretamente o atual presidente de usar a máquina pública para tentar interferir no resultado eleitoral. “Depois de tudo o que o Lula fez, gastando mais de 350 mil milhões de reais para tentar vencer as eleições, o que eu tenho para falar é que o Lula está disputando o poder… Eu estou preocupado com o futuro do Brasil”. Bolsonaro recordou que o Congresso Nacional está “configurado” para o seu futuro governo: a forte expansão das bancadas de direita e centro-direita na Câmara dos Deputados e no Senado é um dado que, se vencer, Bolsonaro que usar como argumento de estabilidade.
 
Câmara e Senado
É que, no dia da primeira volta das presidenciais, os brasileiros também votam para a o Congresso Nacional. No caso da Câmara dos Deputados foram inteiramente renovados os 513 lugares de deputados federais, que cumprem mandatos de quatro anos; no Senado Federal foram renovados dois terços (54 dos 81 lugares, de oito anos).
O Partido Liberal, que apoia Bolsonaro, expandiu significativamente a sua bancada e manteve o estatuto de maior partido, enquanto a esquerda e os partidos tradicionais do chamado ‘centrão’ perderam espaço. Os liberais têm agora 121 deputados eleitos (um aumento em relação aos 97 conquistados em 2022).
A Federação Brasil da Esperança (O Partido dos Trabalhadores de Lula da Silva, comunistas e verdes) tem 88 deputados eleitos (dos quais 70 pertencem isoladamente ao PT), uma queda acentuada face aos 98 parlamentares que somavam anteriormente. O Partido Social Democrático elegeu 43 deputados, os republicanos 41 deputados, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) 36 e o Podemos 27. A força ‘bolsonarista’ mais convicta assegura de 213 deputados, longe da maioria de 257 lugares.
No Senado, as coisas correram ainda pior para Lula da Silva: os conservadores liderados por Flávio Bolsonaro conseguiram um resultado histórico, alterando drasticamente o equilíbrio de forças na câmara alta: a bancada do PL elegeu 19 senadores, somando-os aos nove que já tinham mandato garantido até 2031, passando assim a controlar sozinho 28 das 81 cadeiras, a maior bancada de um único partido na casa desde 1988. O bloco de direita, que faz oposição a Lula (como o Novo, Republicanos e as alas conservadoras do PP e União Brasil), tem agora uma bancada de 44 a 49 senadores a partir de 2027 – ou seja, maioria absoluta.
O atual presidente venceu em Portugal na primeira volta das eleições. Portugal representa o segundo maior colégio eleitoral brasileiro no estrangeiro. Os dados oficiais consolidados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Lula da Silva conseguiu 52,5% dos votos e Flávio Bolsonaro 38,6%.

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