O Encontro bilateral Modi-Xi Jinping
1. Durante a Cimeira dos BRICS, realizada em Nova Deli (dias 11/12/13, Setembro 2026), houve vários encontros bilaterais. Um de que pouco se falou, entre o Presidente do Irão e o Príncipe herdeiro de Abu Dhabi, terá decorrido em ambiente bastante tenso. As relações, admito, estariam, no mínimo, “congeladas”, devido a ataques mútuos, na sequência da Guerra do Golfo, pois os Emirados Árabes Unidos pendiam, em termos de alinhamento político, para a dupla EUA/Israel que atacara o Irão. Houve/há tensões vividas, entre países BRICS, mas que vão sendo superadas, pela via diplomática e pelo diálogo, de que a última Cimeira foi um bom exemplo.
A comunicação social do mundo ocidental dá pouco relevo às questões dos BRICS e, em Portugal, menos ainda, pois é um assunto, predestinado, a não se falar ou a falar o menos possível, não se coadunando com a sua relevância crescente no Mundo.
Encontro Índia – China
2. Escolhemos o encontro Índia-China:
Por se entender, no contexto, como o mais determinante. São os dois maiores países BRICS, em termos demográficos, economicamente importantes, bem diferentes em quase tudo e com tensões fortes de há muito – o problema das fronteiras – embora, a atravessar um período de distensão e este encontro tenha dado passos significativos nesse sentido.
Por a China assumir a próxima Presidência e, certamente, prosseguir iniciativas lançadas pela Índia, onde a IA e as trocas entre países BRICS em moedas locais terão um lugar de relevo, até pela posição da China nestas matérias e, em especial, na IA, tema que fez parte do Encontro recente Trump -Xi Jinping, em Nova Iorque.
Pelos efeitos que a normalização e a cooperação/estabilidade económica entre os dois países possam trazer às suas economias, à região – Ásia – para onde pende cada vez mais a centralidade económica e ao Mundo. Neste contexto, a Europa deveria estar atenta e integrar o tema na sua autonomia estratégica, que diz querer aprofundar.
3. De acordo com os comunicados oficiais e informação disponibilizada pelos porta-vozes da China e Índia, quatro foram os temas centrais do encontro (12 de Setembro):
Parceria estratégica.
Estabilidade nas fronteiras.
Equilíbrio e cooperação económica e comercial.
Afirmação e aprofundamento do Sul Global, em que China e Índia podem/devem desempenhar papéis relevantes.
4. A frase “as divergências não devem tornar-se disputas”, assumida pelos dois Estadistas, traduz uma orientação de fundo: um excelente princípio, a nortear as relações políticas entre os dois países, que se espera se solidifiquem.
A Parceria Estratégica
5. Os dois líderes consensualizaram que a China e a Índia devem agir como países parceiros e as relações se devem pautar por uma perspectiva estratégica de longo prazo, que aproveite os pontos fortes um do outro, como base de sucesso do desenvolvimento comum.
Para Xi Jinping, a China e a Índia devem recorrer à sabedoria política do respeito e cooperação mútuos, reforçar a cooperação na SCO (Organização de Cooperação de Xangai) e no G20 e permanecer unidos nos grandes desafios globais defendendo, de forma inequívoca, a equidade e a justiça internacionais. Enfatizou que os dois países devem redobrar o trabalho conjunto nas presidências rotativas dos BRICS.
Para Modi, a Índia está pronta a se articular com a China, a fim de fortalecer em conjunto a cooperação com o Sul Global, promover um mundo multipolar e agir como força de estabilidade num mundo, hoje, demasiado turbulento. A Índia segue uma política externa independente e nas suas relações com a China não se sujeita à influência de instituições ou países terceiros, mas orienta-se por interesses próprios.
A estabilidade das fronteiras
Este tema vem a ser tratado desde 2022 por equipas técnicas. Não foi alvo de nenhum tratado específico de demarcação de fronteiras, uma vez que a disputa ainda não está resolvida, apenas bem encaminhada.
No entanto, pontos vários foram reafirmados, no sentido da manutenção da paz e estabilidade e no cumprimento dos acordos existentes, destacando-se a criação de um grupo de especialistas na demarcação de fronteiras e outro de gestão fronteiriça. Tudo isto, como se reafirmou, no respeito, sensibilidade e interesses mútuos, ou seja, como alguma comunicação social sintetiza, segundo as normas dos três “mútuos”.
Cooperação económica e comércio
Dentro dos temas centrais, é este, o mais central de todos, até porque os dois países têm toda a vantagem em reverter a situação em que se encontra o défice comercial estrutural da Índia face à China: mais de 112 mil milhões de dólares, em média. Neste contexto, várias medidas foram tomadas como a facilitação e acesso dos produtos e serviços da Índia ao mercado chinês pela redução de barreiras regulatórias da parte da China e menos burocracia no investimento e transferência de tecnologia entre os países.
A situação exige uma análise profunda e um plano, pois a situação não tem uma solução de curto prazo.
Assim, é necessária uma identificação das áreas em que a Índia depende da China e muitas são, de que se salientam a electrónica e as telecomunicações em que cerca de 70 a 80% dos componentes utilizados na Índia em televisores, smartphones, infraestruturas de rede provêm da China; a área farmacêutica onde a Índia é um grande exportador mundial, mas precisa da China para lhe fornecer cerca de 70% dos chamados princípios activos. Sem estes inputs, a “farmácia do mundo”, como se diz, simplesmente pararia. As energias renováveis intermitentes correspondem ao panorama mundial onde quase tudo depende da China e na indústria automóvel (veículos eléctricos), o mesmo. Tudo depende de Pequim, sobretudo nas baterias.
Esta situação a que se chegou, de que se deixa aqui um breve registo, levará muito tempo a ser alterada. Um plano negociado entre os dois países, que relacione parâmetros como investimento, tecnologias, financiamento e concertação de interesses, é preciso.
Afirmação do Sul Global
Neste domínio, para além dos grandes princípios reafirmados, designadamente sobre a governação do Mundo a circular sob os carris do Ocidente contra os seus interesses, ficou decidido concertar a cooperação com os restantes BRICS, no sentido de pressionar as grandes reformas a introduzir, a nível mundial. A paz no Mundo e o fim de todas as guerras bem como a questão crucial das sanções económicas em que todos perdem, só complicam e nada resolvem, como se tem visto, claramente, no caso da Ucrânia, em que a Europa, autora de sanções, tem vindo a empobrecer, como é a situação da Alemanha.
Concluindo,
É fundamental para o mundo BRICS+ que China e Índia acertem o passo, consolidem uma parceria estratégica de Futuro, no sentido do seu desenvolvimento económico e social. Daí advirão, certamente, consequências bem positivas, com impactos generalizados no Mundo, atendendo à dimensão dos dois países.
Se a Europa e a UE estiverem atentas e se querem o que apregoam – uma autonomia de modelo sociopolítico face aos EUA – deverão pensar e negociar com estes dois países que, a breve prazo, vão estar (já estão) no centro da economia mundial, outro tipo de relacionamento, isento de resquícios americanos.
Uma oportunidade a não perder, tanto mais que muitas sombras negras se abateram, neste último domingo, sobre a América Latina, que a concretizarem-se nada de bom trarão à dinâmica dos BRICS, nem ao Mundo.
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