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Extrema-direita impõe presença no próximo governo de Espanha

Extrema-direita impõe presença no próximo governo de Espanha

As eleições antecipadas em Espanha, marcadas para 29 de novembro, ficarão marcadas, tudo o indica, pela chegada ao governo central da extrema-direita do Vox. As sondagens – que no caso de Espanha têm conseguido se um espelho antecipado real dos votos – indicam que, de uma forma um pouco inesperada, tudo vai permanecer exatamente na mesma face ao que sucedeu nas eleições anteriores, em julho de 2023: o Partido Popular vencerá com uma maioria demasiado curta (próxima dos 33%), os socialistas do PSOE ficarão em segundo, com 26%, os extremistas de direita em terceiro (18%) e os dois partidos radicais de esquerda nos lugares seguintes (o Sumar com 6% e o Podemos com 3%).
As contas também permanecem iguais: o PP não conseguirá formar governo sozinho, mas o PSOE e os dois partidos à sua esquerda sim – apenas faltando perceber-se até que ponto seria necessário que o líder socialista, Pedro Sánchez, voltasse a convocar o apoio dos independentistas (primeiro dos da Catalunha e depois, se necessário, dos do País Basco), com a exceção do Junts per Catalunia, que ‘traiu’ o acordo firmado em 2023.
A única diferença é que, desta vez, o Vox e os populares decidiram entender-se para a formação de um governo, inviabilizando assim mais uma ‘solução-geringonça’ como aquela que resultou das eleições anteriores. Santiago Abascal, que lidera o Vox, já verbalizou o apoio a uma solução com o PP de Alberto Núñez Feijóo. Que, desta vez – dizem todos os analistas, ou quase – se deixará de pruridos e cercas sanitárias e optará por aceitar o repto do Vox. Mesmo que seja, na sua ótica, um aborrecimento: Feijóo seria favorável a um apoio parlamentar que viabilizasse um governo do seu partido, mas Abascal já lhe disse que não chega: o Vox que entrar no governo e contar com uma ou mais pastas e outros lugares de destaque no quadro do organograma do próximo governo.
 
A ambiguidade como estratégia
O líder popular, um galego, tentará ser o mais equívoco possível sobre a matéria. É a única forma de tentar juntar em redor do seu partido o maior número possível de votos: quanto mais forte for a posição popular resultantes das eleições de novembro, menos intrusiva será a presença do Vox no executivo. Mas já todos perceberam que essa presença acabará por ser necessária.
Ora, este previsível conluio entre a direita conservadora e a extrema-direita – que com certeza se estenderá a outras latitudes europeias – é um excelente ‘cavalo de batalha’ para Pedro Sánchez que tratará de assumir-se como o único ‘exorcista’ capaz de travar esse demónio. Sánchez apresentou as eleições da forma o mais polarizada possível, definindo-as como uma escolha direta entre o avanço de uma Espanha progressista ou a rendição a uma coligação de ultradireita. O líder do PSOE alertou explicitamente para os perigos do “crescimento da extrema-direita” e para o impacto que a entrada do Vox no governo central teria nos direitos sociais. A estratégia passa por reverter a desmobilização do eleitorado de esquerda através do receio em relação à agenda conservadora e identitária do Vox – na tentativa de ultrapassar as reservas que essa esquerda foi criando em ser torno, nomeadamente por via de uma tremenda sucessão de casos de corrupção, alguns deles já confirmados pelos tribunais, outros caminhando para lá.
Mas, ao cabo de quase uma semana depois do anúncio da dissolução das Cortes e de as ruas estarem cheias de protestos contra o capitalismo que, na ótica dos manifestantes, destruiu a habitação, não se vislumbra que o universo eleitoral de Sánchez esteja em expansão. Aliás, se perder, o partido parece ter-se convencido de que o ainda chefe do governo deverá abandonar a liderança dos socialistas e dar lugar a um novo ciclo. O que também está claro entre os analistas é que Sánchez tudo fará para atrasar a sua saída até ao limite do que os socialistas conseguem tolerar.
Muitos deles já lhe antecipam uma vida feliz fora das fronteiras de Espanha. No ecossistema de Bruxelas, o seu nome é visto como um ativo de peso sempre que há reconfigurações de cargos de topo. O facto de ter sido um dos principais opositores às políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e um forte defensor do Estado social europeu confere-lhe grande capital político entre os parceiros da União.
Resta, apesar de tudo, um cenário alternativo: o PP conseguir convencer o PSOE de deixar passar, pela abstenção, um governo popular sem a presença do Vox. Para Feijóo é um risco político extremo, mas uma coligação com os ultras talvez não seja menos.
 
Já se ‘contam espingardas’ entre os socialistas
A possível saída de Pedro Sánchez da liderança do PSOE já está a motivar posicionamentos, aproximações, apertos de mão e palmadinhas nas costas. Aparentemente, dois nomes ganham força nos círculos internos socialistas. O mais bem posicionado será Óscar Puente, o atual ministro dos Transportes, que tem ganho visibilidade e é visto como uma das vozes mais combativas e com identidade própria dentro do atual executivo. Em setembro passado, afirmou que não descarta candidatar-se à liderança. Outras figuras com forte peso territorial, como o presidente de Castela-Mancha, Emiliano García-Page, podem ir até à capital tentar a sua sorte. Garcia-Page tem a vantagem de ser uma das vozes internas mais críticas da atual direção nacional, o que, numa fase pós-Sánchez, será com certeza considerado uma excelente propriedade. A ministra das Finanças, María Jesús Montero, também parece acalentar esperanças de liderar os socialistas, mas é vista como a ‘número dois’ da atual hierarquia do partido, o quee a transforma numa ‘contaminada’ por Sánchez.

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