A carregar agora

iBRICS Summit 2026, um evento de negócios

iBRICS Summit 2026, um evento de negócios

O melhor, para evitar qualquer confusão entre siglas, é começar por distinguir a Cimeira BRICS de Nova Deli, do evento de negócios iBRICS Summit, realizados nas mesmas, data (12/13 Setembro 2026) e cidade, evocando objectivos e resultados que os separam e aqueles em que, aparentemente, se cruzam.
1. Na Cimeira BRICS, reuniram-se os Chefes de Estado e representantes dos países BRICS+, para debater a geopolítica, designadamente as reformas que defendem para a Governação do Mundo, a contenção dos conflitos mundiais, o desenvolvimento económico delineando os diversos tipos de participação, o equacionamento de plataformas que agilizem o uso das moedas locais nos pagamentos entre países, de forma a proporcionar às economias dos BRICS, poupanças em tempo e custos e, por conseguinte, uma menor dependência do dólar sem grandes referências ao termo por questões diplomáticas, bem como o debate sobre as cadeias de abastecimento e rotas comerciais, tudo isto plasmado na Declaração de Nova Deli 2026, disponibilizada ao Mundo, para dar conhecimento das posições assumidas, por unanimidade, pelo conjunto dos BRICS.
No iBRICS Summit, tivemos um evento de natureza privada, com foco no mundo dos negócios e incidência muito forte na área financeira. Traduziu-se em reuniões de negócios, umas à porta fechada e outras não, para “aplanar” entendimentos entre empréstimos financeiros e Investimentos. Mais de 500 investidores institucionais participantes, incluindo fundos soberanos e de pensões que, no seu conjunto, gerem mais de 1000 milhões de activos, em dólares. O iBRICS, que se realizou, pela primeira vez, aconteceu, taxativamente, para colocar estas duas partes em contacto, ou seja, os detentores de capitais (independentemente da sua origem e natureza) e os projectos concretos em áreas diversas, mas sobretudo no domínio das infraestruturas, transportes, energias e digitalização, no âmbito dos países membros dos BRICS e países parceiros. A grande finalidade do iBRICS situava-se e situa-se no mundo dos negócios.
 iBRICS Summit – evento de capitais essencialmente privados
2. O iBRICS 2026 convém acentuar consistiu numa iniciativa privada, organizada pela Sovereign Weath Fund Institute (SWFI), “uma empresa de dados e análises, sediada nos EUA”, que decorreu de forma paralela à Cimeira dos BRICS, mas, teoricamente, sem relações entre si. Esta coincidência e alguns artigos da comunicação social mundial suscitam dúvidas, pois indiciam que, no mínimo, houve um aproveitamento das dinâmicas dos participantes in loco na Cimeira.
Depois, há notícias credíveis de que a SWFI pretende continuar a desenvolver este tipo de iniciativas, aquando das próximas Cimeiras BRICS, certamente, porque pretendem beneficiar de muitas sinergias que aí se geram. Refira-se, a propósito, o ditado português “de que não há almoços grátis” muito usado, com alguma ironia, em situações menos transparentes.
O Banco BRICS
3. Os BRICS criaram o seu próprio banco, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), com finalidades “algo semelhantes”, sobretudo na área do financiamento de projectos de investimento.
E aqui começam as dúvidas. Parece haver diferenças de fundo em choque com o banco BRICS, pois as orientações que norteiam os iBRICS tendem a aproximar-se das do FMI e Banco Mundial que são pouco ou nada aceites nos países do Sul Global, sobretudo pelas imposições que estas instituições exigem na concessão do financiamento, em áreas como a fiscalidade, a exigência de redução de despesas e as reformas estruturais como a extinção de serviços, etc.
Portugal, aliás, está bem ciente desta situação do tempo da Troika: os cortes nos salários, o aumento de impostos, as reformas ditas estruturais, etc.. A criação do Banco BRICS surge em contraponto a esta situação.
A promoção do desenvolvimento sustentável e inclusivo, o fomento do uso de moedas locais, a não interferência política e o respeito pela soberania dos países são regras presentes no funcionamento do Banco BRICS, prestando, assim, apoios mais consentâneos com os interesses de quem precisa de financiamento para investir e desenvolver os projectos, segundo uma estratégia de desenvolvimento própria.
Ao contrário das condicionalidades políticas que o FMI e o BM costumam impor na concessão dos empréstimos, o NBD não se intromete na austeridade fiscal ou em reformas estruturais do país candidato a empréstimos. É evidente que tem de haver garantias de recuperação do empréstimo, negociadas entre o NBD e o respectivo cliente.
4. Com filosofias tão diferentes, causa alguma perplexidade do interesse real para os BRICS deste tipo de iniciativas aquando das Cimeiras e em concorrência tão directa com o perfil do NBD.
Não se entende que, em iniciativas deste género, o NBD seja marginalizado e não chamado a uma participação de relevo, até porque é nele que os países BRICS mais confiam para agir neste domínio.
Será que os seus princípios dissonantes com o FMI e Banco Mundial, os órgãos de natureza financeira, oriundos dos acordos de Bretton Woods de 1944, que impuseram e impõem a Governação global em torno dos interesses do Mundo Ocidental e, mais, continuam avessos a toda a adaptação, apesar das grandes evoluções que se têm registado nas sociedades e economias mundiais, estão na origem desta não colaboração?!
Dilma Rousseff – Presidente do Banco BRICS
5. A Presidente do NBD, Dilma Rousseff, assinalou na Cimeira de Nova Deli que o Banco, neste seu segundo decénio, vai subir o patamar de financiamento, elevando a sua escala financeira para a mobilização de recursos, com o objectivo central de ampliar os montantes dirigidos ao Sul Global, tendo avançado com a ampliação do financiamento em moedas locais, o que vem facilitar a movimentação de pagamentos e a redução da dependência do dólar, a diversificação das ferramentas financeiras como por exemplo o programado Panda Bonds na China e os novos planos para obrigações em Rupias na Índia e ainda o recurso ao co-financiamento, em que o capital privado terá o devido lugar.
Por outro lado, este tipo de eventos à margem das Cimeiras futuras, sem o mínimo de coordenação com o Banco BRICS e sem atender aos objectivos do País que detém a Presidência, pode gerar algumas incompatibilidades, inclusive com os interesses do país que preside.
Pela informação colhida, tudo isto necessita de ser burilado, sob pena de criar a sensação de intrusão disfarçada.
Sem querer pôr de lado a cooperação entre os BRICS e o Ocidente, que será sempre bem-vinda, em condições negociadas, as dúvidas não se desvanecem e poder-se-á questionar a continuidade e o interesse, a não ser para os privados, deste tipo de eventos paralelos, tendo em conta os princípios fundadores dos BRICS.
Há, pois, na base do que contribui para unir os BRICS e da sua projecção no Futuro. muito a repensar sobre o seu prosseguimento.
Este, um tema que criou incertezas em certos meios que se interessam e acompanham o evoluir dos BRICS e que têm olhado para 2026 como um ano bem difícil e ainda com potenciais nuvens num horizonte muito próximo, apesar do grande sucesso da Cimeira de Nova Deli ao aprovar por unanimidade a Declaração Final. Mas, como escreveu o poeta sevilhano, António Machado, “o caminho faz-se caminhando”.
Nota final: algumas destas dúvidas não são novas. Já as tenho referido aqui e em alguns outros sítios.

Share this content:

Publicar comentário