40% das reservas públicas nacionais de petróleo estão no estrangeiro
São 1.700km de estrada, no mínimo, a separar Portugal de quase 40% das reservas nacionais de petróleo. Seria preciso atravessar a fronteira com Espanha e depois os Pirinéus para chegar a Manosque na região da Provença, no sueste do hexágono.
Contabilizadas todas as reservas físicas detidas pelo Estado português de petróleo, quase 40% estão fora do país. França é o país onde está a maior parte das reservas lá fora, com 20% ou 133 mil toneladas na caverna de sal Géosel (na foto).
Mas há mais reservas lá fora. Neste caso, assumem a forma de títulos de reserva (’tickets’) com a maioria, 15% das reservas totais, a encontrar-se nos Países Baixos (100 mil toneladas), com mais de 4% (30 mil toneladas) em Itália.
E o restante? A maioria (60%) está localizada na refinaria da Galp em Sines, com 405 mil toneladas.
O Governo garante que o país conta com 92 dias de consumo energético, juntando petróleo e combustíveis, mas isto inclui as reservas do Estado e as dos privados, em Portugal e no estrangeiro.
A análise do JE incidiu sobre as reservas detidas pelo Estado e geridas pela Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE).
“A situação das reservas está em linha com as melhores práticas internacionais e cumpre inteiramente as obrigações da União Europeia e da Agência Internacional de Energia”, disse ao JE fonte oficial do ministério do Ambiente e da Energia.
O Governo anunciou que vai gastar 60 milhões em mais capacidade de armazenamento para trazer para Portugal as reservas de petróleo nacionais que estão em França.
“Esta questão de termos um décimo das reservas em França. É uma situação preferível ter fisicamente em território nacional, mas temos segurança energética. Vamos avançar, é uma obra que leva de quatro a cinco anos”, disse na quinta-feira, 24 de setembro, a ministra do Ambiente e da Energia.
Depois de a Galp encerrar a refinaria de Matosinhos em 2021, a capacidade de armazenamento de crude e de combustíveis, foi reduzida em um terço.
Como consequência, “a própria Galp transmitiu à ENSE não ter capacidade de continuar contrato de armazenamento de combustível na sequência do encerramento da refinaria de Matosinhos. Foi por isso que Portugal foi obrigado a enviar parte das suas reservas para França”, segundo Maria da Graça Carvalho.
Um regresso a Portugal demoraria “duas a três semanas”, segundo a ministra. “Primeiro, seriam utilizadas as reservas armazenadas em território português e só depois as que estão fora” que são “menos de um décimo da nossa reserva”, no total de 132 mil toneladas.
“Este crude é propriedade do Estado português, pode ser mobilizado a qualquer momento por decisão do Governo. Portugal armazenou em França uma parte das suas reservas porque não havia capacidade de armazenamento em Portugal”, acrescentou no briefing do Conselho de Ministros.
E acrescentou que o país dispõe de 92 dias de reservas de combustíveis líquidos, acima do nível de referência que é 90 dias.
Questionado pelo JE, o ministério do Ambiente destaca que “na situação atual, armazenar as reservas estratégicas em Portugal ocuparia o equivalente a 76% da capacidade instalada de armazenamento no país. Esta situação não seria exequível porque colocaria em causa o normal funcionamento do país”.
O Governo deixou críticas às declarações de José Luís Carneiro sobre as reservas em França, considerando-as um “exercício de irresponsabilidade”.
Reservas físicas de gasóleo do Estado não chegam para 30 dias
As reservas físicas de gasóleo e gasolina em Portugal detidas pelo Estado ficam abaixo de 30 dias de consumo.
No gasóleo, o país conta atualmente com cerca de 300 mil toneladas armazenadas, quando o consumo mensal em 2026 atinge em média mais de 400 mil toneladas.
O mesmo acontece com a gasolina: as reservas físicas atuais atingem 51 mil toneladas, mas o consumo médio mensal é de 115 mil toneladas este ano.
O Governo garante que a “situação das reservas está em linha com as melhores práticas internacionais e cumpre inteiramente as obrigações da União Europeia e da Agência Internacional de Energia”.
Os dados são recentes e dizem apenas respeito às reservas detidas pelo Estado português e geridas pela Entidade Nacional para o Setor Petrolífero (ENSE).
O Governo tem referido que o país conta com 92 dias de consumo. Para isto, junta as reservas físicas de combustíveis e de petróleo, mas isto tem em conta as reservas públicas geridas pela ENSE, mas também as reservas obrigatórias, detidas pelos operadores privados A análise do JE incidiu apenas sobre as reservas prontas para uso detidas pelo Estado. No caso do petróleo, este teria, logicamente, de ser refinado ainda antes de poder ser utilizado como combustível.
Em tempos de bonança, as reservas são mais do que suficientes, mas perante a maior crise energética mundial de sempre, levantam sérias questões sobre se o atual sistema de reservas do país será realmente eficaz se houver uma corrida às bombas com escassez.
“Portugal dispõe atualmente de reservas de petróleo e produtos petrolíferos correspondentes a cerca de 92 dias de consumo: 62 dias correspondem a reservas físicas em território nacional e os restantes 30 dias correspondem a reservas físicas no estrangeiro e a tickets”, disse fonte oficial do ministério do Ambiente ao JE.
“Das reservas físicas em Portugal, o equivalente a 38 dias de consumo está sob alçada da ENSE e 24 dias sob alçada dos operadores no âmbito das reservas obrigatórias, para operação no Sistema Petrolífero Nacional. Além destes 62 dias, devem ainda ser tidas em conta as reservas comerciais detidas pelos operadores para a sua operação diária”, acrescentou a tutela de Maria da Graça Carvalho.
No caso das reservas físicas de gasóleo pertencentes ao Estado, a maioria está localizada em Portugal, na refinaria de Sines, na POL NATO na Margem Sul do Tejo, nos tanques da Galp em Matosinhos, ou na CLC em Aveiras de Cima.
Atestar o carro com gasóleo simples em Portugal custa mais 31 euros atualmente face ao período pré-guerra, para um valor de 111 euros, segundo contas feitas pelo JE. Na gasolina simples, a subida é de 22 euros para os 106 euros.
Os custos adicionais com a subida do preço do gasóleo já custaram à economia europeia 40 mil milhões de euros desde o início da guerra.
Portugal é dos países europeus onde o gasóleo mais pesa, surgindo na terceira posição com 55% da frota automóvel com estes motores, superados apenas pela Letónia e Croácia.
Em Portugal mais de 5 em cada 10 automóveis é a gasóleo, mas o cenário está a mudar. Em Portugal, os carros eletrificados pesaram 76% nas vendas até agosto. Destaque para os híbridos elétricos e 100% elétricos que pesaram 27% nas vendas cada um, superando a gasolina com 21%, os híbridos plug-in com 15% e o gasóleo com 4%, segundo os dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP).
Desde o início da guerra que um condutor de um carro elétrico terá poupado mais de 350 euros em combustível face a se tivesse um carro a gasóleo, segundo as contas da organização ambientalista europeia T&E.
Na União Europeia, o preço médio do gasóleo atingiu mesmo um máximo histórico esta semana: 2,23 euros por litro, com 19 países a atingirem novos recordes de preço.
Quem vive perto da fronteira, aproveita da melhor maneira, com os preços do gasóleo em Espanha a serem 30 cêntimos mais baratos face a Portugal, uma diferença explicada por menos impostos na fatura espanhola.
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