Guterres deixa a ONU e deverá ser substituído por uma mulher
Nada melhor que uma estreia mundial para lançar uma reforma radical numa instituição, as Nações Unidas, que estão “ultrapassadas” – como afirmou o português António Guterres na sua última intervenção na Assembleia Geral da organização enquanto secretário-geral. O ex-primeiro-ministro português deve ser substituído por uma mulher, o que, a acontecer, será inédito. O processo de escolha está em andamento – mas é demorado, burocrático, sensível, secreto e misterioso – mas só deverá ser concluído em outubro, na melhor das hipóteses. Mas as principais candidaturas são todas protagonizadas por mulheres.
Segundo as regras, a escolha final do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral deverá ser oficializada entre outubro e dezembro de 2026. Nas sondagens informais mais recentes, realizadas em setembro, Rebeca Grynspan (ex-vice-presidente da Costa Rica e atual secretária-geral da UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) assumiu a liderança das intenções de voto. Mas é seguida de perto por Carolyn Rodrigues-Birkett (embaixadora da Guiana na ONU). Uma terceira forte candidata, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, retirou oficialmente a sua candidatura em setembro após perder tração nos apoios por parte dos países do Conselho de Segurança. Mas há mais sete candidatos ativos, entre eles Rafael Grossi (diplomata argentino e diretor da Agência Internacional de Energia Atómica), María Fernanda Espinosa (do Equador, ex-ministra e ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, nomeada oficialmente por Antígua e Barbuda) e Macky Sall (ex-presidente do Senegal). A lista conta ainda com Ivonne A-Baki (tambel do Equador, embaixadora e diplomata nomeada formalmente pelo reino do Tonga em agosto de 2026), Olara Otunnu (ugandês, antigo subsecretário-geral da ONU e ex-diplomata). Virginia Gamba (da Argentina, representante especial da ONU) também retirou formalmente a sua candidatura poucas semanas após ter sido nomeada pelas Maldivas.
Refira-se que o número final de concorrentes ainda poderá sofrer ligeiras alterações até à deliberação conclusiva, uma vez que o Conselho de Segurança da ONU continua a avaliar os perfis e os Estados-membros mantêm a prerrogativa de apresentar nomes até ao momento da votação decisiva.
Quem é Rebeca Grynspan Mayufis?
Economista e diplomata costa-riquenha, nascida em dezembro de 1955, Rebeca Grynspan distinguiu-se no seu país de origem pelo seu forte ativismo em prol do desenvolvimento, da redução das desigualdades, da coesão social e da igualdade de género. Foi segunda vice-presidente da República entre 1994 e 1998, no governo de José María Figueres Olsen, e durante o mesmo período assumiu funções como ministra da Habitação, ministra coordenadora dos Assuntos Económicos e Sociais e vice-ministra das Finanças.
Só depois de consolidar a carreira internamente Rebeca Grynspan decidiu ‘aventurar-se’ fora de portas. A sua trajetória na ONU permitiu-lhe construir mais de três décadas de experiência ligada a instituições multilaterais, o que, dizem os seus defensores, a torna uma candidata interna com forte conhecimento prático da estrutura da organização que pretende dirigir. Ali, liderou a divisão para a América Latina e as Caraíbas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, foi secretária-geral Adjunta entre 2010 e 2014 e assumiu a posição de administradora associada do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), antes de assumir a liderança da UNCTAD a partir de 202, lugar que ainda ocupa. Ao ser designada pelo próprio António Guterres, tornou-se a primeira mulher a chefiar a UNCTAD.
O facto de entre 2014 e 2021, ter sido eleita por unanimidade pelos 22 países-membros para chefiar a secção da América Latina, ainda a primeira mulher a exercer o cargo, permitiu-lhe acompanhar de muito perto aquela região. O mesmo sucedeu, mais tarde na liderança da UNCTAD, onde teve um papel geopolítico importante ao co-negociar a Iniciativa dos Cereais do Mar Negro, viabilizando a exportação segura de alimentos e fertilizantes da Ucrânia e da Rússia num momento crítico de crise alimentar planetária.
Uma curiosidade: em setembro de 2021, foi agraciada em Portugal com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. Se for eleita como a 10.ª secretário-geral da ONU, será também a primeira vez que alguém oriundo da América Latina e Caraíbas o conseguirá. Os analistas consideram que a relação de Rebeca Grynspan com os Estados Unidos é globalmente positiva e principalmente pragmática, o que lhe abre a possibilidade de não ter de se haver com a hostilidade de Washington. O problema é que terá de enfrentar o complexo desafio de agradar tanto a Washington como a Pequim e Moscovo. Seja como for, esta verdade serve para todos.
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