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Quando as eleições mudam tudo. E quando não mudam nada

Quando as eleições mudam tudo. E quando não mudam nada

Há eleições que mudam governos. Há eleições que mudam partidos. E há eleições que, mesmo sem mudar imediatamente quem governa, alteram profundamente a forma como um país olha para si próprio. Depois existem outras que cumprem o calendário, enchem urnas, distribuem mandatos e terminam praticamente no mesmo lugar onde começaram.
Talvez seja essa a reflexão mais interessante que fica deste fim de semana eleitoral na Alemanha e na Rússia. Dois países europeus, duas eleições, duas sociedades confrontadas com problemas sérios e duas formas quase opostas de entender aquilo que significa votar.
Na Alemanha, as urnas voltaram a produzir aquilo que as democracias, por vezes, produzem de forma particularmente desconfortável: surpresa, fragmentação e castigo. Em Berlim, o Die Linke venceu com 25,7%, deixando a CDU nos 18,8%. Em Mecklenburg-Vorpommern, a AfD chegou aos 38,2%, enquanto a CDU obteve um resultado tão baixo que Friedrich Merz não hesitou em classificá-lo como um desastre.
É tentador olhar para estes números apenas através da velha divisão entre esquerda e direita. Seria, contudo, perder uma parte importante do que está a acontecer.
A Alemanha parece estar a viver uma crise de confiança nos partidos que durante décadas constituíram o centro de gravidade da República Federal. CDU, CSU e SPD não desapareceram, obviamente. Continuam a ser máquinas políticas poderosas, com estruturas, militantes, autarcas e uma implantação nacional que os novos partidos dificilmente conseguem reproduzir. Mas existe uma diferença entre continuar a existir e continuar a convencer.
E é aí que começa o problema.
Uma parte crescente do eleitorado alemão parece já não acreditar que os partidos tradicionais conseguem resolver os problemas que reconhece no quotidiano. A economia perdeu dinamismo, a indústria enfrenta uma transformação difícil, a energia tornou-se mais cara, a imigração continua a dominar parte do debate político e o Estado social alemão enfrenta pressões demográficas que nenhum governo conseguirá resolver com uma frase de campanha.
Quando os partidos do centro deixam de oferecer respostas que uma parte significativa da população considera credíveis, os extremos deixam de parecer extremos para alguns eleitores. Passam a parecer alternativas.
Isso não significa que os alemães tenham subitamente acordado radicais. Significa que uma parte deles decidiu utilizar o voto para abanar o sistema. E uma democracia tem precisamente essa característica extraordinária e, por vezes, assustadora: permite ao eleitorado fazê-lo.
Uma eleição pode confirmar o poder, mas também pode humilhá-lo.
Pode destruir uma carreira política, obrigar um partido a mudar de liderança, provocar eleições antecipadas, alterar uma coligação ou transformar uma pequena força de protesto num problema nacional. O voto democrático contém sempre uma parcela de incerteza. Ninguém controla completamente aquilo que acontece quando milhões de pessoas entram numa cabine eleitoral.
É precisamente essa incerteza que praticamente desapareceu da Rússia.
Também os russos foram chamados às urnas para eleger a Duma. Também existem boletins, candidatos, partidos, campanhas e resultados. À primeira vista, encontramos muitos dos elementos exteriores de uma democracia parlamentar. Mas a semelhança começa a desaparecer quando observamos aquilo que o eleitor pode realmente escolher.
O Rússia Unida voltou a dominar as eleições, aproximando-se dos 58% na votação por listas durante a contagem. Ao seu lado permanecem os comunistas, o LDPR, Rússia Justa e Gente Nova. Formalmente são partidos diferentes. Politicamente, sobretudo na questão fundamental que hoje define a política externa russa, a guerra contra a Ucrânia, o espaço de escolha é muito mais estreito. As principais forças autorizadas a competir apoiam, com diferenças de linguagem e intensidade, a política de guerra do Kremlin. O Yabloko, a única força política registada que se tinha pronunciado publicamente contra a guerra, foi afastado da votação nacional.
Aqui encontramos talvez a diferença mais importante entre as duas eleições.
Na Alemanha, um eleitor descontente pode votar contra o sistema político dominante e contribuir para o transformar. Na Rússia, um eleitor descontente pode escolher entre diferentes partidos que, nas grandes questões que definem o regime e a guerra, oferecem uma margem de divergência muito mais limitada.
Não significa que todos os russos pensem da mesma maneira. Seria absurdo afirmá-lo. Existem russos contra a guerra, russos que abandonaram o país, opositores presos e movimentos políticos que tentaram organizar resistência. Milhares de exilados participaram simbolicamente nestas eleições precisamente para manifestarem oposição a Putin e à guerra.
O problema está noutro lugar: essa diversidade existente na sociedade não encontra correspondência equivalente na oferta política colocada diante do eleitor.
E uma eleição sem verdadeira possibilidade de alternância corre o risco de deixar de funcionar como instrumento de mudança para passar a funcionar como instrumento de confirmação.
É aqui que Alemanha e Rússia, olhando uma para a outra através das urnas deste fim de semana, contam duas histórias completamente diferentes sobre o poder.
A democracia alemã está desarrumada. Talvez demasiado desarrumada para o gosto de muitos alemães. O sistema partidário fragmentou-se, os antigos partidos populares perderam eleitorado e forças nos extremos ganharam um peso que seria difícil imaginar há vinte anos. Governar tornou-se mais complicado. Construir maiorias tornou-se mais difícil. Encontrar consensos tornou-se doloroso.
Mas é precisamente essa desarrumação que demonstra que as eleições continuam a importar.
Na Rússia existe muito mais previsibilidade. Sabemos quem continuará no centro do poder, conhecemos aproximadamente quais os partidos que estarão representados e sabemos que nenhuma maioria parlamentar surgirá para obrigar Vladimir Putin a abandonar a guerra na Ucrânia. A eleição acontece, mas a possibilidade de mudar a orientação fundamental do Estado através dessa eleição é nula.
Talvez seja por isso que não devemos avaliar uma democracia apenas pela tranquilidade dos seus resultados.
As democracias podem produzir governos fracos, coligações improváveis, partidos radicais e resultados que assustam. Podem obrigar os partidos tradicionais a confrontarem-se com a sua própria decadência. Podem até produzir escolhas que muitos de nós consideramos profundamente erradas.
Mas existe algo ainda mais preocupante do que uma eleição capaz de mudar demasiado. É uma eleição incapaz de mudar alguma coisa.
Na Alemanha, milhões de eleitores estão a dizer aos partidos que governaram o país durante décadas que já não aceitam simplesmente mais do mesmo. A resposta que CDU, CSU e SPD encontrarem para essa revolta determinará uma parte importante do futuro político alemão.
Na Rússia, pelo contrário, as urnas voltaram a oferecer ao poder aquilo que o poder esperava encontrar nelas.
Talvez essa seja, afinal, a diferença essencial entre uma eleição que incomoda o poder e uma eleição que o tranquiliza.

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