Agroalimentar agrava défice com Espanha em 700 milhões desde 2020
Se Espanha fosse um supermercado, Portugal já teria cartão de cliente. O problema é usá-lo cada vez mais. Os dados do INE mostram um agravamento continuado do défice nas trocas de produtos agrícolas, agroalimentares e florestais com Espanha, de cerca de 1.450 milhões de euros em 2020 para aproximadamente 2.150 milhões em 2026, no primeiro semestre do ano. São mais 700 milhões de euros em seis anos, um aumento próximo de 48%.
A dimensão do desequilíbrio percebe-se melhor quando se olha para aquilo que está por trás do saldo. Entre janeiro e julho de 2026, as categorias em que Portugal apresenta os maiores défices face a Espanha são as carnes e miudezas comestíveis, com 625 milhões de euros, seguidas das preparações à base de cereais, farinhas, amidos, leite e produtos de pastelaria, com 253 milhões. Frutas, com 166 milhões, produtos hortícolas, com 156 milhões, e preparações de carne e pescado, com 130 milhões, completam o grupo das categorias com maiores saldos negativos.
Do outro lado da balança também há produtos em que Portugal consegue vender mais do que compra. É o caso das cervejas de malte, com um saldo positivo de 192 milhões de euros entre janeiro e julho, do tabaco manufaturado, com 167 milhões, das pastas de madeira, papel e cartão reciclados, com 73 milhões, e da cortiça e suas obras, com 36 milhões. Os números mostram, assim, uma relação comercial intensa, mas com uma especialização que deixa Portugal mais dependente de Espanha em várias das categorias alimentares de maior peso.
“O que constatamos é que ao longo dos anos se vai agravando a balança comercial com a Espanha por falta de competitividade da agricultura portuguesa”, lamenta, Luís Mira, secretário-geral da CAP. Na sua opinião, essa perda de competitividade resulta de uma combinação de custos de produção, preço dos combustíveis, fiscalidade e diferenças no nível de apoio ao setor.
Um dos exemplos apontados é o gasóleo agrícola. Segundo Luís Mira, a diferença entre Portugal e Espanha chega a 40 cêntimos por litro em determinadas condições de apoio, o que significa que um trator que consuma dez litros por hora suporta um custo adicional de cerca de quatro euros por hora face a um produtor espanhol nas mesmas condições.
Nuno Serra. secretário-geral da CONFAGRI também toca no mesmo tema , apontando para um aumento de 49% desde março, equivalente a cerca de 60 cêntimos por litro, enquanto o apoio concedido durante parte desse período se ficou pelos dez cêntimos. Para a CONFAGRI, a diferença face a Espanha ajuda a explicar por que razão os produtos agrícolas dos nossos vizinhos chegam ao mercado português em condições mais competitivas.
E a chamada de atenção não se fica pelo combustível. Serra aponta também para os apoios associados à área irrigada: “Cerca de 93 euros por hectare em Espanha, contra 28 euros em Portugal”. É uma diferença que, numa atividade em que os custos de energia, fertilizantes e outros fatores de produção pesam diretamente nas margens, acaba por se refletir na capacidade de competir pelo mesmo consumidor.
A CONFAGRI continua com uma leitura crítica e coloca o foco na dimensão global da resposta pública. “As ajudas do Governo ao setor agrícola são não só insuficientes, mas inacreditavelmente são praticamente inexistentes perante a dimensão avassaladora do aumento de custos”, considera Nuno Serra,
Porém, o Governo no dia 23 de setembro contrapôs em comunicado ao país este diagnóstico com um reforço das medidas dirigidas ao setor. Em 2026, anunciou um novo pacote de 40 milhões de euros destinado a reduzir o impacto do aumento dos preços dos fertilizantes e da energia, a somar aos 20 milhões de euros de apoio extraordinário anteriormente aprovado. O apoio ao gasóleo agrícola foi também reforçado, podendo atingir 25 milhões de euros no conjunto do ano.
A execução financeira é outro dos argumentos apresentados pelo Executivo. Até agosto, tinham sido pagos 807 milhões de euros aos agricultores, mais 225 milhões do que no mesmo período de 2025, estando previstos mais 207,5 milhões em pagamentos em setembro. O Ministério da Agricultura e do Mar apontou, entretanto, para um montante acumulado superior a mil milhões de euros em pagamentos em setembro.
Para a CAP estes pagamentos já fazem parte do calendário. “Oque necessitamos é de um apoio extraordinário, perante um aumento de custos extrordinários. Se isto fosse tão bom a balança comercial não estaria assim”, afirma Mira.
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