Arrow avalia compra de ativos do Novobanco que eram de Vieira
O grupo Arrow Global está a analisar o “Project Horizon”, depois de ter sido convidado pela KPMG a avaliar a compra dos ativos problemáticos de Luís Filipe Vieira que o Novobanco pôs à venda em junho, apurou o Jornal Económico.
O portefólio incorpora subcarteiras, de forma a permitir que os interessados possam apresentar ofertas apenas para partes do lote. Assim, não foi possível apurar quais das quatro carteiras interessam ao grupo Arrow.
A KPMG enviou o teaser a vários potenciais investidores, como os fundos Bain Capital e Davidson Kempner, mas o projeto não terá suscitado o interesse de um vasto leque de interessados, segundo fontes do mercado.
Nem a Arrow, nem o Novobanco, nem a KPMG quiseram comentar.
O Novobanco avança agora para uma fase decisiva do “Project Horizon” e é já conhecida a estrutura completa dos ativos problemáticos de Luís Filipe Vieira que estão à venda, bem como o respetivo valor.
No documento a que o Económico teve acesso é detalhada, pela primeira vez, a estrutura das quatro carteiras à venda, avaliadas em mais de 583 milhões, e é confirmado o calendário da operação que tem o closing previsto para outubro-novembro. O calendário que consta do teaser prevê que as ofertas vinculativas sejam apresentadas em outubro e que a assinatura e o fecho do negócio ocorram até ao fim de novembro.
O documento, datado de junho e distribuído a potenciais investidores, descreve uma estrutura de quatro carteiras que compõem a operação: Vista, Latitude, Apex e Vector.
Quatro carteiras, mais de 583 milhões de euros
A Portfolio Vista reúne créditos malparados garantidos por imóveis em Portugal, com uma dívida em aberto (outstanding balance) de 66 milhões de euros em maio de 2026 e um valor imobiliário agregado de 56 milhões de euros.
Estão em causa cinco projetos imobiliários — três em Lisboa e dois no Algarve —, correspondentes a cerca de 324 mil metros quadrados de área bruta de construção, localizados em Santa Iria da Azóia, Alverca e Vila Franca de Xira, no distrito de Lisboa, e em Tavira, no Algarve.
A maioria das sociedades envolvidas está sujeita a processos de recuperação judicial (PER) ou insolvência, o que, segundo o documento, oferece “uma via visível e estruturada” para a tomada de controlo dos ativos.
A Portfolio Latitude corresponde à exposição a Moçambique: uma dívida de 25 milhões de euros, garantida por hipoteca de primeiro grau sobre um edifício de escritórios em Maputo avaliado em 21 milhões de euros.
O imóvel, com 21 pisos — 17 de escritórios (cerca de 9.500 m²) e quatro de estacionamento (155 lugares) —, está ocupado em apenas 35%, gerando uma renda bruta anual de 900 mil euros junto de duas multinacionais e uma embaixada. O teaser aponta para um potencial de valorização através do arrendamento dos 11 pisos ainda devolutos.
A Portfolio Apex é a mais valiosa: reúne os direitos de crédito resultantes do exercício, pelo Novobanco, da put option sobre participações sociais de duas empresas do grupo, com um valor de reclamação total de 352 milhões de euros. A operação remonta a 2011, quando o banco subscreveu cerca de 160 milhões de euros em obrigações mandatoriamente convertíveis (MCBs) emitidas por duas sociedades do universo Vieira. As obrigações venceram em 2021 sem reembolso e converteram-se em capital, dando ao Novobanco posições de 66,2% e 63,3% (esta última detida também indiretamente, através de uma participação de 36,7% da primeira sociedade na segunda). Segundo o documento, os beneficiários efetivos do grupo não cumpriram a obrigação de compra decorrente da put option exercida pelo banco em março de 2026, avaliada, em conjunto, em cerca de 351,8 milhões de euros (197,9 milhões e 153,9 milhões, respetivamente).
Por fim, a Portfolio Vector engloba as unidades de participação do Novobanco no fundo regulado pela CMVM, criado em 2017 para consolidar os ativos imobiliários do grupo — cerca de 140 milhões de euros de capital subscrito, equivalentes a 95,9% do fundo, cujo valor líquido dos ativos (NAV) é, segundo o teaser, inferior a zero.
A carteira inclui ainda a possibilidade de o banco vir a recuperar as unidades remanescentes (3,8%) apreendidas a beneficiários efetivos no âmbito de um processo executivo iniciado em 2021.
Processo em duas fases
O calendário indicativo do teaser confirma que a fase 1, de ofertas não vinculativas, decorreu entre julho e agosto, com a partilha de data tape e do memorando informativo confidencial (CIM). Segue-se agora a fase 2, de ofertas vinculativas, entre setembro e outubro, com acesso à documentação completa para due diligence, de modo a cumprir a meta da assinatura e o fecho da transação serem em outubro-novembro.
O Novobanco já tinha provisionado a 100% este conjunto de ativos, que representa uma exposição acumulada desde os tempos do Banco Espírito Santo (BES) e que as regras prudenciais já não permitem manter em incumprimento no balanço.
A instituição já tinha conseguido alienar outro ativo ligado ao malparado de Vieira — o antigo Sheraton na Reserva do Paiva, no Brasil, vendido ao grupo Vila Galé — e mantém em curso a execução de garantias pessoais contra o ex-presidente do Benfica.
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