A carregar agora

É ou não é saúde mental? O teste que falta às organizações

É ou não é saúde mental? O teste que falta às organizações

Todos os anos, quando chega o mês de outubro, as organizações voltam a falar da importância da saúde mental. Surgem webinars, campanhas internas, mensagens da liderança, posts no LinkedIn, sessões de mindfulness e newsletters bem-intencionadas. Tudo isto pode ter valor. Mas a pergunta essencial continua por responder: isto é, ou não, promover a saúde mental?
A resposta não depende da quantidade de iniciativas lançadas, nem da qualidade gráfica dos cartazes, nem sequer do número de participantes numa sessão de sensibilização. Depende de algo mais exigente: a capacidade da organização de olhar para si própria e perceber se está a criar condições reais para que as pessoas trabalhem com equilíbrio, segurança, autonomia, reconhecimento e sentido.
Porque promover saúde mental não é apenas falar sobre saúde mental. É gerir o trabalho que influencia a saúde mental.
Não é oferecer uma sessão de relaxamento a equipas que vivem em urgência permanente. É questionar por que razão tudo se tornou urgente. Não é recomendar pausas a quem sabe que será penalizado, formal ou informalmente, por fazê-las. É criar uma cultura onde recuperar energia não seja visto como falta de compromisso. Não é dizer “a porta está sempre aberta” quando ninguém se sente seguro para entrar. É formar líderes para escutar antes de avaliar, perguntar antes de concluir e intervir antes de normalizar o desgaste.
Durante muito tempo, as organizações trataram a saúde mental como um tema individual: resiliência, gestão do stress, equilíbrio emocional, capacidade de adaptação. Tudo isto é importante. Mas é insuficiente. A saúde mental no trabalho não vive apenas dentro das pessoas; vive também entre as pessoas, nos processos, nos ritmos, nas metas, nos critérios de reconhecimento, na forma como se decide, comunica e lidera.
Quando uma organização olha para a saúde mental apenas como responsabilidade do colaborador, corre o risco de transformar prevenção em delegação. Como se dissesse: “Nós mantemos o sistema como está. Tu aprende a aguentá-lo melhor.” Esta visão pode produzir alívio momentâneo, mas dificilmente gera mudança estrutural.
Promover saúde mental é fazer perguntas desconfortáveis. As cargas de trabalho são compatíveis com os recursos disponíveis? As prioridades são claras ou mudam ao sabor da pressão? Os líderes têm maturidade emocional para gerir conflitos? As pessoas podem discordar sem receio de represálias? O erro é tratado como aprendizagem ou como ameaça? O desempenho é avaliado apenas pelo resultado final ou também pela forma como esse resultado é alcançado?
É aqui que o tema deixa de ser apenas humano e passa a ser estratégico. Organizações psicologicamente seguras aprendem mais depressa, antecipam riscos, comunicam melhor e desperdiçam menos energia com medo, silêncio e defesa. Pelo contrário, ambientes marcados por ambiguidade, sobrecarga, controlo excessivo, injustiça percebida ou liderança imprevisível podem até continuar produtivos durante algum tempo – mas muitas vezes à custa de uma erosão invisível.
E a erosão invisível é cara. Não aparece imediatamente no balanço, mas manifesta-se na rotatividade, no absentismo, no presentismo, na quebra de confiança, na perda de talento, na redução da criatividade e na incapacidade de inovar. Há equipas que não colapsam de um dia para o outro; desligam-se em silêncio. Continuam presentes, mas menos disponíveis. Respondem, mas já não propõem. Executam, mas já não investem.
Por isso, a pergunta “é ou não é promover saúde mental?” deve funcionar como um teste de coerência organizacional.
É promover saúde mental quando a liderança assume que o bem-estar não é um benefício acessório, mas uma condição para um desempenho sustentável. É promover saúde mental quando os riscos psicossociais são avaliados com a mesma seriedade que os riscos financeiros, operacionais ou reputacionais. É promover saúde mental quando se escutam as pessoas antes de desenhar soluções para elas. É promover saúde mental quando se ajusta o trabalho, e não apenas a narrativa sobre o trabalho.
Não é promover saúde mental quando se confunde comunicação com compromisso. Não é promover saúde mental quando a empresa celebra o Dia Mundial da Saúde Mental numa semana e normaliza comportamentos tóxicos na seguinte. Não é promover saúde mental quando se pede autenticidade às pessoas, mas se recompensa apenas a conformidade. Não é promover saúde mental quando se fala de propósito, mas se lidera pelo medo.
O grande desafio das organizações não é acrescentar mais uma campanha ao calendário interno. É transformar a saúde mental numa lente de gestão. Uma lente que ajuda a desenhar funções, preparar líderes, organizar equipas, definir objetivos, gerir a mudança e construir confiança.
No fundo, promover saúde mental é decidir que as pessoas não são apenas recursos que executam a estratégia. São o lugar onde a estratégia acontece ou falha. Talvez por isso este mês deva servir menos para perguntar “que iniciativa vamos fazer?” e mais para perguntar “que condições estamos a criar?”. A primeira pergunta produz eventos. A segunda produz cultura. E é na cultura, não no cartaz, que se percebe se uma organização está verdadeiramente comprometida com a saúde mental.

Share this content:

Publicar comentário