A carregar agora

10 anos do MAAT sob o signo do “V”: Valentino, Venus, Vasconcelos

10 anos do MAAT sob o signo do “V”: Valentino, Venus, Vasconcelos

 
Furtamos a imagem e as palavras a Joana Vasconcelos, uma das artistas portuguesas mais consagradas e com maior projeção internacional: “Nesta obra, feita expressamente para esta exposição, temos um ‘V’. De Valentino, a quem presto homenagem, Venus, nome da exposição, e Vasconcelos”. O sorriso rasga-se e logo reforça o que tinha dito momentos antes, esta manhã, durante a visita de imprensa à exposição “Venus – Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos”, que marca o início da celebração dos 10 anos do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia.
“Esta exposição reúne a coragem do ‘craft’, da minúcia do trabalho feito à mão, e a magia do ‘craft’ numa escala maior”. Um diálogo entre a alta-costura e o universo doméstico. Numa conversa que nos devolve os detalhes de uma e outra arte. Dos drapeados às lantejoulas e bordados que nos lembram joias delicadamente esculpidas. E as cores, em harmonia umas com as outras, enaltecendo-se mutuamente. Até quando a passagem do tempo se anuncia num vestido elegantíssimo desenhado por Valentino e cujas cores primordiais voltam a ganhar vida num dos braços tentaculares da “Valkyrie Venus” (2025) que, no MAAT, se expande face à exposição realizada em janeiro deste ano em Roma, a convite da Fondazione Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti.
Mas tudo tem um começo. Joana Vasconcelos não conhecia o estilista italiano pessoalmente. Até ao dia em que Valentino esteve no seu ateliê, “juntamente com a sua corte”, diz Joana Vasconcelos num gracejo, por ocasião de uma festa que que ali teve lugar. Da visita guiada que a artista fez ao estilista, surgiu uma comparação, inesperada para Joana Vasconcelos. “Explicaram que o meu ateliê é, no fundo, um ateliê de alta-costura, coisa que eu nunca tinha pensado na minha vida.” A organização, o detalhe com que se executam os trabalhos, toda a minúcia envolvida levou Valentino a dizer-lhe “somos mais ou menos do mesmo mundo.” Joana Vasconcelos discordou. “Não somos porque eu trabalho o espaço, não trabalho o corpo humano. E ele contrapôs, ‘mas o corpo humano que visita as tuas exposições também interessa’. É verdade! E foi aí que, de alguma maneira, se estabeleceu uma relação.”
O universo da alta-costura é tudo menos um corpo estranho à artista portuguesa. O seu percurso como artista tem-se cruzado, amiúde, com grandes nomes da alta-costura, de Karl Lagerfeld, Stella McCartney e Max Mara à Maison Dior. Um dos ‘detonadores’ do interesse da Fundação Valentino no seu trabalho, a par da exposição inaugural do Malta International Contemporary Art Space, em outubro de 2024.
Deixemos o começo desta relação para deslizarmos pelas salas que acolhem as mais de 40 criações de alta-costura de Valentino e obras emblemáticas de Joana Vasconcelos, como “Venus” (2025) da série Pinturas em Croché, “Coração Independente#3” (2008), “Marilyn” (2011), “Sacro Cuore” (2025), “A Todo o Vapor” ou “Flores do Meu Desejo” (1996-2010), sem esquecer o redesenho de “Jardim do Éden” (2007-2026), inspirado no labirinto de Chartres, e que convida a aproximarmo-nos dos vestidos de Valentino, a descobrir os pormenores, a delicadeza e complexidade de que são feitos. Frente e costas, pois para o estilista nunca o vestido foi a soma das partes. É um todo que envolve o corpo e que o exalta.
Nesta exposição, as obras de Joana Vasconcelos enquadram-se no que diz ser as suas criações de “média dimensão”, o que também permite criar ambientes mais intimistas e de proximidade com as peças de Valentino. Porque tudo importa. Os materiais, a escala, a técnica e, claro, as ideias e o modo como a sua obra é feita do mundo. E aqui, o mundo Valentino, os arquivos, o acervo da Fundação que leva o nome do estilista, foi fundamental.
Teve carta branca, escolheu as peças que entendeu e que agora a exposição revela. Múltiplos encontros entre uma artista plástica e um designer de moda. Não se ofuscam, realçam-se mutuamente. Ainda que, de um lado, esteja o aspeto funcional – um estilista obedece a “um programa” – e, do outro, a ausência de qualquer programa, porque “nós, os artistas, não temos programa”. E elogia o lado “minucioso, o ‘craft’, a perfeição e a magia que é possível fazer através de um vestido, a transformação. As mulheres que usam [criações de] Valentino sentem-se transformadas em deusas, sentem-se noutra dimensão. E é essa transformação que me parece a parte mais importante, é aquela que eu gosto mais, que é essa capacidade de dar uma nova visão ao mundo, de transformar o quotidiano noutra dimensão.”
Mais. Esta é uma homenagem não apenas à genialidade do estilista, mas também a um mundo que está a desaparecer. O salão de baile, que serve de antecâmara a esta exposição é algo que existia no passado. “O Valentino trabalhava para essas senhoras ter as grandes receções, os grandes bailes, as grandes festas. Hoje, as pessoas não se vestem ‘de gala’ para ir a uma grande festa. E o fim dessas tradições está a acompanhar o desaparecimento dos criadores que faziam esses vestidos. E Valentino é o último desses grandes criadores.” E explica que foi por essa razão que recriou o “salão de baile”, que é aquilo que, “no fundo, os museus são atualmente. Os museus continuam a cumprir essa função de receber as pessoas de uma forma diferente.”
E já que o museu é, de novo, invocado, não podemos deixar de lembrar que esta exposição representa, também, um regresso a casa. Em 2000, Joana Vasconcelos foi a artista que venceu a 1ª edição do Prémio Novos Artistas Fundação EDP. E foi também “aqui”, no edifício abandonado de uma carpintaria – no terreno onde mais tarde começou a ser erguido o MAAT – que expôs o seu “primeiro corpo de trabalho”. Não lhe era concebível receber uma distinção como aquela sem poder expor. Aconteceu e ficou para a história. Sua e da Coleção de Arte Fundação EDP e, claro, do MAAT. Várias obras suas integram o acervo. “E essa coleção é, talvez, o que de mais importante fica para o futuro, pois é ela – através de aquisições contínuas – que faz com que os artistas vivam em Portugal e possam existir, enquanto tal, em Portugal”.
“Venus – Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos” inaugura a 2 de outubro e pode ser visitada no MAAT Gallery até 22 de fevereiro de 2027.

Share this content:

Publicar comentário