A pandemia do patriarcado
De acordo com dados recentes do Eurostat, na União Europeia, aproximadamente 58% dos trabalhadores das indústrias do turismo são mulheres e 42% homens. Em Portugal, a hotelaria e restauração apresentam uma distribuição semelhante, com cerca de 55–56% de mulheres e 44–45% de homens. Ou seja, a força do trabalho num setor tão fulcral para a economia atual é maioritariamente feminina.
Não obstante os factos, na VIII Cimeira do Turismo Português, que decorreu dias 28 e 29 de setembro, apresentou um cartaz com 16 oradores, homens, havendo ausência de vozes femininas para discutir o setor. A coragem de, em pleno século XXI e na Europa dita desenvolvida, se apresentar uma proposta destas é, no mínimo, admirável e um sinal claro dos tempos muito turvos e de enormes retrocessos que vivemos.
Ao exercício simples aqui feito nos dois primeiros parágrafos poderia ser ampliado, por exemplo, para o setor cultural, comparando dados como formação académica, currículo e, claro, força de trabalho, e as conclusões seriam as mesmas: quando se trata de visibilidade, cargos e reconhecimento público, a testosterona exerce o seu poder.
No campo da política, poderia dar aqui alguns exemplos da nossa história recente, em contexto português, de vereadoras que nunca foram, nem nunca serão, candidatas a presidentes de câmara, pelo simples facto de serem mulheres e de não terem aprendido, desde o berço, o lobby e o corporativismo feito em mesas de jantar fora de horas. Afinal de contas, alguém tem sempre que ficar em casa a tomar conta das crianças e parece que continuam a ser, maioritariamente, as mulheres.
Aquilo que sabemos todas (e alguns todos) é que hoje, num conjunto muito alargado de áreas profissionais, nas quais se insere a Cultura – essencial para um setor de atividade como o Turismo, por exemplo –, as mulheres, além de estarem em maioria, têm mais habilitações académicas e fazem mais formação ao longo da vida, apresentam currículos mais ricos e diversificados e têm uma inegável capacidade de organização e trabalho. Mas parece que não basta e, quando se chega, ou tentam chegar à liderança, a avaliação aperta os seus critérios: não podemos ser demasiado bonitas, mas não se toleram gordas e desleixadas; a aparência deve ser feminina, mas não sexy, evitando-se uma postura demasiado reivindicativa, sem nunca perder um certo ar delicodoce. E muita atenção à assertividade, que rapidamente é considerada histerismo, com terrível condescendência que se justifica com as hormonas que só nós temos. Não faltará, como machada final, o elogio da testosterona e afirmação do poder pela força, num mundo gerido pelo ego inflamado de machos inseguros de si.
E se, mesmo assim, uma mulher lá chegar, com insistência e persistência, ser-lhe-ão cobradas todas as falhas e a margem para obter resultados é nenhuma. Não serão esquecidas as tentativas de retirar protagonismo e de usar a secretaria para encontrar formas de silenciar quem se recusa ao silêncio.
Posto isto, não consigo evitar a sugestão de visita ao novo Museu do Mobiliário de Paredes, uma recuperação do antigo Mosteiro de Santo Estevão de Vilela. Obra de uma vereadora, Beatriz Meireles, que devia ser exemplo num país de em que as mulheres continuam atormentadas pela pandemia do patriarcado, confinadas à culpa de não poderem falhar em nada – muito menos como mães. Em Paredes, neste novo museu, não se esqueceram das mulheres carreteiras, anónimas que carregavam o mobiliário às costas no tempo do Portugal triste, mas que, para história, não ficaram como autoras de coisa nenhuma.
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