Exportações crescem em 0,5% à boleia da Alemanha e trabalhos por encomenda
Portugal conseguiu registar novo crescimento das exportações em 2025 apesar da turbulência e incerteza no comércio mundial, mas apenas à custa de transações sem transferência de propriedade. Estas, associadas frequentemente a trabalhos por encomenda, ditaram o crescimento de 0,5% reportado esta segunda-feira, dado que, excluindo esta componente, 2025 teria fechado com menos 1,6% de exportações do que no ano anterior. Em sentido inverso, nota positiva para o crescimento das vendas para a Alemanha.
A subida de 0,5% nas exportações do ano passado em relação a 2024 foi conseguida à custa das transações sem transferência de propriedade, ou seja, na sequência de trabalho por encomenda – excluindo estas, o indicador teria caído 1,6%. Este tipo de transações tem vindo a ganhar importância no comércio internacional português no último ano, começa por denotar Pedro Braz Teixeira, mas há detalhes que importam salientar.
“Ao princípio, até parecia que estas transações seriam uma coisa one-off […], mas afinal têm uma certa sustentabilidade”, começa por referir o diretor do gabinete de estudos do Fórum para a Competitividade, sendo que são tipicamente “produtos com mais qualidade do que a média” e que contribuem com mais valor acrescentado para a economia portuguesa do que a maioria das exportações.
No entanto, estes trabalhos por encomenda concentram-se sobretudo no sector farmacêutico e com vista a exportações para os EUA, continua Pedro Braz Teixeira. Nesta linha, a exposição às tarifas norte-americanas é um risco que pode alterar as perspetivas de médio prazo das empresas exportadoras do ramo.
“Tem alguns riscos. Para já, Trump isentou de tarifas [as importações farmacêuticas norte-americanas], mas é uma das coisas que continua em cima da mesa”, sublinha, lembrando as sucessivas ameaças que o presidente norte-americano tem lançado a este respeito.
Três principais destinos representam mais de metade das exportações
No detalhe, o mercado norte-americano, que vinha ganhando importância nas exportações nacionais, sobretudo em sectores específicos, quebrou 13,4%, mas nem assim evitou novo crescimento do indicador. Em termos de quota, o destino EUA manteve-se como o quarto principal em termos gerais e o mais importante fora da UE, mas perdeu 0,9 pontos percentuais (pp), representando agora 5,8% das exportações portuguesas.
Além dos EUA, as vendas para o Reino Unido, Itália, Países Baixos e Marrocos recuaram em comparação com o ano anterior, detalha a nota do INE publicada esta segunda-feira, com destaque para a quebra de 10,1% nas exportações para os parceiros marroquinos. Em sentido inverso, a Alemanha, que se manteve como segundo destino principal das exportações nacionais, acelerou 14,5%.
Também Espanha, principal parceiro comercial português, viu um crescimento de 0,6% nas exportações, enquanto França, o terceiro principal destino nacional, registou um aumento marginal de 0,1%. No top-10, Bélgica e Polónia também viram incrementos de 0,9% e 2%, respetivamente.
Contas feitas, os três principais compradores das vendas portuguesas para o exterior representam mais de metade do volume exportado. Apesar da concentração elevada em tão poucos destinos, Pedro Braz Teixeira aponta para a falta de dinamismo e fracas perspetivas de crescimento destas economias.
“Mais do que a concentração em três mercados, a questão é que não são mercados especialmente dinâmicos. Se fosse a Índia, China ou outros países com crescimentos na casa dos 5% ou 7%, o cenário seria um pouco distinto”, ilustra.
China no top-5 das importações
Do lado das importações, Espanha representa quase um terço do bolo, com 32,9% e um crescimento de 3,9%, enquanto Alemanha e França fecham o top 3, com aumentos de 9% e 4,9%, respetivamente. Destaque ainda para a China, cujas vendas para Portugal aumentaram 14,6%, permitindo ultrapassar Itália na quinta posição dos fornecedores externos nacionais.
Em sentido contrário, de notar que o Brasil viu as encomendas portuguesas caírem 27,9%, o que reflete sobretudo a diminuição na categoria de combustíveis e lubrificantes via “reduções nas quantidades transacionadas e também dos preços”, caindo assim de sétimo para nono lugar no ranking das importações portuguesas.
Também os EUA registaram uma diminuição em termos de volume de 1%, caindo do nono para o décimo lugar.
Contas feitas, o saldo da balança comercial voltou a agravar-se: os 32.100 milhões de euros de défice são mais 3.752 milhões do que no ano anterior, fruto de uma aceleração maior do lado das importações do que das exportações. Apesar de ser a categoria que domina as exportações, os fornecimentos industriais são também onde o défice é mais profundo, com 6.900 milhões de euros.
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