Macron insiste que a Europa deve assumir-se como potência mundial
Perante a crescente ameaça dos blocos China-Rússia e Estados Unidos, a Europa só tem uma alternativa: assumir-se como um bloco que tenha um papel determinante tanto no quadro da economia global, como no da diplomacia geoestratégica – áreas onde tem vindo a perder protagonismo. “Estamos prontos para nos tornar uma potência? Essa é a questão no campo da economia e finanças, da defesa e segurança, e dos nossos sistemas democráticos”. “Noutra época, poderíamos ter dito que é o momento de ‘assumir a nossa maioria’”, disse ele antes da cimeira da União, que terá lugar esta semana.
Macron repetiu seu o desejo de ver confirmada a criação de empréstimos mutualizados em toda a União para captar financiamento necessários para investimento industrial. “Chegou a hora de lançar uma capacidade de dívida partilhada para financiar as nossas despesas futuras – eurobonds para o futuro. Precisamos de grandes programas europeus para financiar os melhores projetos”, disse.
Os planos nesse sentido têm sido repetidamente contrariados por diversos países, entre elas pela Alemanha, que teme ser o principal pagador – ou mais propriamente o principal fiador – de um conjunto que em definitivo não tem as mesmas capacidades de contrair dívida. Ou seja, uma dívida contraída pelos 27 terá obrigatoriamente que ter um serviço bem mais caro que uma dívida contraída pela Alemanha – e os germânicos não estão interessados em ‘pagar para os outros’. Qualquer semelhança com o que sucedeu há mais de uma década quando o FMI interveio em vários países da Europa do Sul, não é pura coincidência.
Para agravar a situação, os analistas alemães pensam descobrir nas intenções de Macron uma forma de ultrapassar as deficiências internas francesas – que está a braços com uma dívida pública que não para de crescer e com os velados alertas (nem sempre claros, mas Aliás, Macron admitiu que a França “nunca teve um modelo equilibrado, ao contrário de certas economias do norte, que são construídas mais sobre o senso de responsabilidade. E nunca tivemos reformas como as iniciadas na década de 2010 em Portugal, Espanha, Itália e Grécia, que hoje estão a dar frutos”, afirmou, referindo-se exatamente aos regates de há uma década e meia.
Mesmo assim, o presidente francês afirmou que há uma procura crescente, nos mercados financeiros mundiais, por dívida europeia mutualizada, que atualmente a União não está preparada para suprir. “Os mercados mundiais estão cada vez mais receosos do dólar norte-americano. Eles querem alternativas”. “Para investidores em todo o mundo, um Estado democrático de direito é uma enorme atração. E quando olho para o mundo como ele é, temos o regime autoritário que é a China, e do outro lado temos os EUA a distanciarem-se cada vez mais de um Estado de direito”. Mas Macron sabe que não são estes aspetos aqueles que mais preocupam os investidores e as empresas de rating.
Segundo o presidente francês, a União precisa de 1,2 biliões de euros por ano para investir nos setores vitais de segurança e defesa, energia limpa e inteligência artificial. Pedindo ao bloco que “proteja” essas e outras indústrias, Macron afirmou que “os chineses fazem isso, os norte-americanos também. A Europa hoje é o mercado mais aberto do mundo”. “Diante disso, não estou a dizer que devemos ser protecionistas. É mais uma questão de sermos coerentes – ou seja, não impor aos nossos próprios produtores regras que não impomos a não europeus.”
“Hoje a Europa enfrenta um desafio enorme, em um mundo de desordem”, disse. “As mudanças climáticas estão a acelerar. Os EUA – que achávamos que garantiriam a nossa segurança para sempre – já não dão essa certeza. A Rússia deveria dar-nos energia barata para sempre, mas isso acabou há três anos. China… tornou-se um rival cada vez mais feroz. Nós, europeus, estamos por nossa conta. Mas temo-nos uns ao outros. Somos 450 milhões de pessoas. Para mim tornarmo-nos uma potência é a realização da aventura europeia. Unimo-nos para acabar com a guerra, vamos unirmos para construir um mercado”.
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