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Rui Lopes: “Este ano a Simplefy vai apostar na intermediação de seguros e expandir a atividade no crédito ao consumo”

Rui Lopes: “Este ano a Simplefy vai apostar na intermediação de seguros e expandir a atividade no crédito ao consumo”

Após um ano de 2025 marcado por um crescimento de 86% no volume de crédito intermediado, a Simplefy prepara-se agora para expandir o seu ecossistema para áreas como seguros e crédito ao consumo. “Na Simplefy o crédito habitação tem sido o nosso principal foco, mas, em 2026 vamos fazer crescer a intermediação de seguros e expandir a nossa atividade para o crédito ao consumo”, diz o CEO Rui Lopes que, em entrevista, analisa o cenário macroeconómico atual e explica por que acredita que o intermediário de crédito é o novo ‘ponta de lança’ dos bancos no futuro da banca de retalho.
O CEO da Simplefy, em entrevista, fala os desafios do setor em 2026, o impacto das novas medidas governamentais na habitação e como a tecnologia e a inteligência artificial estão a redefinir a relação entre bancos, intermediários e clientes.
Por outro lado, destaca que assistimos a uma “nacionalização” da procura (compradores estrangeiros representaram apenas 4,9% das transações no 2º trimestre de 2025, face a 6,6% um ano antes).
O que é a Simplefy e o que a distingue de outras intermediárias de crédito?
A Simplefy comemorou agora três anos. Somos a comunidade de intermediários de crédito, em Portugal, e cujo objetivo principal é impulsionar os resultados de negócio dos profissionais do setor. O que distingue a Simplefy de outras empresas de intermediação de crédito é o seu modelo de negócio “Original Brand by Simplefy”, que contrasta com o franchising tradicional, libertando assim os nossos parceiros de custos iniciais avultados e royalties mensais, bem como a necessidade de abrir uma loja. Na Simplefy os parceiros mantêm a sua identidade e autonomia, e têm acesso a um apoio estruturado e centralizado. Temos como base a filosofia “Tech by Human”, o que significa que nos apoiamos na tecnologia para simplificar processos e promover a transparência, mas sempre como apoio ao fator humano.

“Registámos um crescimento de 86% no volume de financiamento em 2025”

Existem cerca de 6.000 Intermediários de Crédito autorizados e registados no Banco de Portugal. Por categoria, cerca de 60% são a título acessório (por exemplo, a FNAC que dá financiamento aos clientes na compra dos seus produtos) e quase 40% são vinculados, sendo os não vinculados residuais. O que explica estes dados? Ou se preferir o que explica esta explosão de intermediários de crédito?
O setor da intermediação de crédito em Portugal tem registado, de facto, um crescimento nos últimos anos. Este crescimento pode ser explicado pela crescente complexidade dos produtos financeiros, que leva os consumidores a procurarem aconselhamento especializado.
Num contexto de subida das taxas de juro e de um maior escrutínio na concessão de crédito por parte da banca, os intermediários tornam-se essenciais para ajudar os consumidores a navegar neste cenário, adequar os seus perfis às exigências bancárias e encontrar as melhores soluções. O apoio destes profissionais assume especial importância principalmente no cenário atual, com vários bancos a encerrarem parte dos seus balcões
O sucesso exponencial da Simplefy – registámos um crescimento de 86% no volume de financiamento em 2025 – é um testemunho da confiança que o mercado deposita neste modelo de negócio e da crescente procura por serviços de intermediação.
Segundo a associação dos intermediários de crédito, mais de 60% dos Intermediários de Crédito trabalha com crédito ao consumo, pouco mais de 20% com crédito à habitação e cerca de 15% em ambos os segmentos. O que explica que apenas 20% trabalhem com crédito à habitação? Estes dados parecem-lhe realistas ou estão desatualizados?
Cerca de 20% trabalham apenas com crédito habitação, mas existem mais 15% que trabalham ambos os tipos de crédito (habitação e consumo), ou seja, na prática temos, sensivelmente, 35% dos intermediários de crédito que trabalham com habitação. O crédito à habitação, apesar de envolver volumes financeiros significativamente maiores por operação, é frequentemente mais complexo: exige um nível mais elevado de especialização; conhecimento regulatório e todo o processo burocrático é mais moroso. O que pode levar menos profissionais a focar-se exclusivamente no crédito à habitação, em comparação com o crédito ao consumo, que pode apresentar processos mais padronizados e, por vezes, mais rápidos.
Na Simplefy o crédito habitação tem sido o nosso principal foco, mas, em 2026 vamos fazer crescer a intermediação de seguros e expandir a nossa atividade para o crédito ao consumo.

“A garantia do Estado abriu portas a muitos jovens, mas não eliminou os riscos financeiros”

A garantia pública para crédito jovem até aos 35 anos deu um impulso ao crédito à habitação no balanço dos bancos. Os intermediários de crédito tiveram protagonismo neste crescimento?
Em 2025, o crédito à habitação recuperou moderadamente, ajudado pela estabilização da Euribor. A Garantia Pública do Estado foi a medida mais marcante do ano: representou cerca de 23% dos contratos e 26% do valor total de crédito concedido. Foi um crescimento rápido que trouxe um desafio importante para os intermediários de crédito, foi essencial garantir a qualidade do aconselhamento. A garantia pública é uma ferramenta válida e útil, mas exige rigor. Não basta ajudar alguém a conseguir crédito – é preciso garantir que esse crédito é sustentável a longo prazo. Isto significa avaliar cenários de stress financeiro, calcular a capacidade real de pagamento e distinguir entre “ter acesso a crédito” e “ter acesso a crédito que se consegue pagar durante décadas”.
A garantia do Estado abriu portas a muitos jovens, mas não eliminou os riscos financeiros. O nosso desafio coletivo – regulador, bancos e intermediários – é garantir que o sonho da casa própria não se torna num problema financeiro de longo prazo. E exigiu por parte dos intermediários um aconselhamento rigoroso, transparente e focado na sustentabilidade.
Segundo a ANICA, 57,4% do crédito à habitação concedido em 2024 foi distribuído através de Intermediários de Crédito; 49,9% do crédito ao consumo concedido em 2024 foi distribuído através de Intermediários de Crédito e, no crédito automóvel, esta proporção disparou para 83,1%. Em 2025 manteve-se esta tendência?
Sim, a tendência não só se manteve como se consolidou. No crédito à habitação, os dados confirmam que, em muitos bancos, já há mais contratos originados através de intermediários do que diretamente nas agências.
No crédito ao consumo, continuamos a registar uma deslocação gradual do balcão tradicional para canais intermediados. Embora a contratação direta no banco ainda represente a maioria do montante, há perda de peso clara face a anos anteriores, com crescimento do montante concedido através de intermediários.
O que mudou em 2025 foi a natureza do papel do intermediário. Deixámos de ser percecionados apenas como facilitadores. Neste momento o intermediário já é percebido como um especialista técnico que  simula cenários, testa a sustentabilidade dos mesmos, explica trade-offs entre diferentes estruturas de crédito e documenta todo o processo de aconselhamento.

“No mercado imobiliário, esperamos uma desaceleração na variação de preços – crescimentos mais moderados, não quedas. A nova oferta deve começar a entrar com maior volume, ajudada pela redução do IVA da construção e pelos fundos europeus”

Quais são as suas perspetivas para o mercado de crédito e imobiliário em Portugal em 2026?
Acredito que 2026 será o ano da consolidação e da qualidade sobre a quantidade. Esperamos um mercado mais maduro, mais estável, mas também mais exigente. No crédito à habitação, o cenário macroeconómico é favorável: crescimento económico projetado em 2,2%, inflação controlada perto de 2% e taxas de juro em descida gradual (Euribor a 6 meses de 2,0%). Isto significa maior previsibilidade e condições mais acessíveis do que em 2022-2023, mas sem o regresso às taxas  muito baixas ou negativas do passado. A taxa mista vai continuar a dominar e a Garantia Pública para jovens vai manter uma forte procura.
No mercado imobiliário, esperamos uma desaceleração na variação de preços – crescimentos mais moderados, não quedas. A nova oferta deve começar a entrar com maior volume, ajudada pela redução do IVA da construção e pelos fundos europeus. Mas a pressão estrutural da procura interna vai manter-se. Penso que haverá cada vez mais uma diferenciação regional, com Lisboa, Porto, Setúbal e Algarve a continuar pressionados.
Está em marcha a revisão do regime jurídico dos intermediários de crédito, pelo Banco de Portugal que está a ouvir os vários stakeholders. O que gostaria de ver alterado com o novo regime? A Simplefy participa na consulta pública com sugestões?
Consideramos as alterações regulatórias positivas, em particular a revisão do aviso do Banco de Portugal que aborda os intermediários de crédito e clarifica as regras da publicidade. Gostava de continuar a ver reforçada a clareza na informação transmitida, tanto na publicidade como na comunicação geral, de modo a não induzir os consumidores em erro e a garantir que estes tomam decisões informadas. Na Simplefy defendemos ativamente que os nossos parceiros sigam as regras e transmitam informações claras e transparentes. O foco na ética, na conformidade com as regras do Banco de Portugal e na promoção de uma operação transparente e segura, que se alinha com a nossa filosofia ESG, onde quaisquer alterações que contribuam para a elevação dos padrões de profissionalismo e regulação são bem-vindas.
A Simplefy tem tido, desde a sua fundação, uma posição ativa e participativa nos processos de consulta pública. A próxima à realidade operacional permite-nos identificar oportunidades de melhoria, antecipar impactos práticos das medidas propostas e propor outras soluções que promovam mais transparência, eficiência e proteção ao consumidor.
Na minha perspetiva, o envolvimento contínuo e colaborativo entre as empresas de intermediação de crédito e o Banco de Portugal é fundamental e contribui para a regulação equilibrada e alinhada com a realidade do mercado.
Sobre a obrigatoriedade da formação contínua. Atualmente, é apenas necessária uma formação inicial e a ANICA defende que, tal como em Espanha, seja obrigatório que os profissionais tenham pelo menos 15 horas de formação por ano. Concorda com o que defende a associação?
Concordo com a posição da ANICA relativamente à obrigatoriedade de formação contínua. Num setor como o nosso, em constante evolução regulatória, tecnológica e comercial, limitar a exigência à formação inicial é manifestamente insuficiente. A intermediação de crédito exige hoje níveis crescentes de competência técnica e responsabilidade perante o cliente. A formação contínua não deve ser vista como um custo ou formalidade, mas como um mecanismo estruturante de qualidade e credibilidade do setor.
A imposição de um mínimo anual de 15 horas, à semelhança do que já acontece em Espanha, contribui para elevar o padrão médio dos profissionais, reforçar a proteção do consumidor e promover uma concorrência mais saudável baseada na competência. Além disso, a obrigatoriedade cria um referencial comum para todo o mercado, evitando assimetrias e prevenindo práticas menos rigorosas que acabam por prejudicar a reputação coletiva do setor.
 A associação também defende que é preciso clarificar o RJIC e eliminar algumas zonas cinzentas que persistem na atuação destes profissionais, nomeadamente quanto à angariação de clientes e ao pagamento de comissões associado a esta angariação. Concorda?
Concordo que é importante clarificar o Regime Jurídico dos Intermediários de Crédito e eliminar as zonas cinzentas, sobretudo no que toca à angariação de clientes e ao pagamento de comissões associadas.
No entanto, importa também garantir que essa clarificação não cria restrições desnecessárias a modelos legítimos de captação, desde que esteja sempre assegurado o essencial: transparência total sobre quem está a tratar da operação de crédito, e que o cliente identifica claramente e reconhece o seu intermediário de crédito. Se o cliente sabe com quem está a lidar, quem é o responsável pela intermediação e quais são as regras de remuneração e atuação, então o processo fica salvaguardado do ponto de vista da proteção do consumidor e da confiança no sistema.
O objetivo deve ser reduzir ambiguidades e riscos reputacionais, reforçando a transparência e a rastreabilidade e não limitar artificialmente a atividade quando ela é feita de forma clara, identificável e responsável.
Sobre o mercado imobiliário em Portugal. Apesar dos preços da habitação terem subido em 2025, com o IPHab a registar +17,2% no 2º trimestre, há a previsão de um abrandamento das taxas de variação em 2026, embora sem uma queda generalizada dos preços. O que lhe parece esta previsão?
É uma previsão realista e coerente com os fundamentos do mercado. Crescer 17,2% num único ano não é sustentável indefinidamente. 2026 deve trazer uma desaceleração, um crescimento mais moderado e uma normalização do ritmo. Primeiro porque a nova oferta vai entrar em maior volume, beneficiando da redução do IVA da construção para 6% e dos fundos europeus do PRR. Segundo, porque há sinais de saturação da capacidade de endividamento das famílias e terceiro, porque a memória de 2022-2023 tornou os compradores mais cautelosos e seletivos.
Mas acredito que os preços se manterão em patamares elevados porque a escassez de oferta é estrutural, não conjuntural. Licenciamento lento, falta de solo urbano, custos de construção elevados – estes problemas não se resolvem num ano. Por isso, as famílias vão continuar a precisar de financiamentos avultados.

“A nacionalização da procura, evidenciada pela descida da percentagem de compradores estrangeiros de 6,6% para 4,9% no 2º trimestre de 2025, pode ser explicada por vários fatores, como alterações em regimes de incentivo fiscal para estrangeiros”

É verdade que assistimos a uma “nacionalização” da procura (compradores estrangeiros representaram apenas 4,9% das transações no 2º trimestre de 2025, face a 6,6% um ano antes) e uma maior seletividade dos compradores, com os preços a manterem-se elevados devido à oferta escassa. O que explica isto, na sua opinião?
Sim, assiste-se a uma nacionalização da procura de habitação e a uma maior seletividade dos compradores. A principal explicação para a manutenção dos preços elevados, apesar destas tendências, reside na oferta escassa de imóveis, um fator estrutural que continua a pressionar os valores de mercado. A nacionalização da procura, evidenciada pela descida da percentagem de compradores estrangeiros de 6,6% para 4,9% no 2º trimestre de 2025, pode ser explicada por vários fatores, como alterações em regimes de incentivo fiscal para estrangeiros, uma conjuntura económica global que pode levar a uma menor apetência por investimento em mercados externos, ou simplesmente a um ponto de preço em que o mercado português se torna menos competitivo para alguns perfis de investidores estrangeiros.
A maior seletividade dos compradores nacionais, por sua vez, resulta dos preços já elevados do imobiliário, que obrigam a uma ponderação mais cuidadosa do investimento, a uma maior exigência em relação à qualidade e localização dos imóveis, e à necessidade de otimizar os seus limites de financiamento, mesmo num contexto de recuperação moderada do crédito à habitação impulsionada pela estabilização das taxas Euribor.
Quer falar das perspetivas para os preços da habitação em 2026, as implicações da crescente seletividade dos compradores e da “nacionalização” da procura, e como estes fatores influenciam o acesso ao crédito e as decisões das famílias?
Já falámos dos fundamentos de mercado, mas o que me parece mais relevante é o impacto concreto destas dinâmicas no dia a dia das famílias e no papel dos intermediários.
Com preços elevados e montantes de financiamento avultados, a margem para erro é mínima. Um cliente no limite regulatório do DSTI não tem almofada para absorver choques. Depois, a seletividade dos compradores significa que as decisões são mais ponderadas, mais lentas, mais informadas. E isso valoriza o aconselhamento profissional. Não basta apresentar “a taxa mais baixa”; é preciso simular sustentabilidade, comparar cenários, documentar alternativas.
Por fim, a nacionalização da procura coloca o foco total na capacidade das famílias portuguesas. Não há margem para continuar a culpar fatores externos. O desafio é interno: rendimentos, literacia financeira, acesso sustentável. o sonho da casa própria não pode transformar-se numa prisão financeira de décadas. E o nosso papel – e responsabilidade – é garantir que isso não acontece.
 

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