BNP Paribas alerta que BCE não afastou subidas de taxas de juro face ao choque no Médio Oriente
Numa nova análise o BNP Paribas partilha as suas perspetivas para as próximas reuniões do Banco Central Europeu (BCE), num contexto marcado pela recente volatilidade dos preços da energia e pela incerteza geopolítica no Médio Oriente.
O Banco Central Europeu (BCE) deixou o mercado precificar com naturalidade novas subidas de taxas de juro nos próximos trimestres, sem qualquer tentativa de travar as expectativas geradas pelo choque energético desencadeado no Médio Oriente. Esta é a leitura principal da nota de estratégia e economia do BNP Paribas publicada esta quinta-feira, intitulada “ECB: Goodbye good place, hello uncertain one”.
Na sua análise o BNP destaca que o BCE não contrariou as expetativas do mercado e validou implicitamente que poderá ser forçado a subir as taxas de juro nos próximos trimestres em resposta ao choque no Médio Oriente. O cenário base já incorpora um aumento acumulado de cerca de 50 pontos base, mas, com os preços do petróleo e do gás 23% e 30% acima do previsto (à data da análise), a pressão para não ignorar o problema é cada vez maior.
Através da análise de cenários, o BNP Paribas estima que, num cenário “adverso” de preços de matérias-primas, possa ser necessário um aperto monetário adicional de 25 pontos base. Caso o cenário se torne “severo” e o choque energético seja mais persistente, a política monetária poderá apontar para um aperto adicional na ordem dos 100 pontos base, defende o BNP.
Os economistas liderados por Paul Hollingsworth consideram que o tom tanto do comunicado como da conferência de imprensa de Christine Lagarde foi deliberadamente não comprometido. “Nem Lagarde tentou empurrar contra as expectativas de política mais restritiva, nem sentiu necessidade de usar linguagem mais forte que abrisse claramente a porta a uma resposta mais cedo ou maior do que o esperado”, escrevem.
Para o BNP Paribas, o BCE entende que o mercado já interiorizou perfeitamente a sua “função de reação”. Ao permitir que os investidores precifiquem subidas, o banco central já está a atuar preventivamente contra efeitos inflacionistas de segunda ronda. Se a situação no Médio Oriente acalmar e os preços da energia recuarem, as expectativas de taxas também descerão naturalmente.
Segundo os analistas do banco francês o BCE vai manter uma postura dependente dos dados divulgados e avaliar a situação reunião a reunião.
O BNP Paribas perspetiva que junho será a data mais provável para o início de eventuais subidas das taxas de juro, uma vez que haverá mais informação económica disponível.
O BNP Paribas considera que, até à reunião de 30 de abril, o BCE terá ainda informação limitada sobre o impacto real na economia (apesar do Inquérito Telefónico às Empresas e possíveis desenvolvimentos no conflito). Em junho, com mais dados económicos e o exercício completo de projeções macroeconómicas do Eurosistema, o banco central terá condições para agir.
Lições de 2022 ainda muito presentes
As comparações com o choque energético de 2022, após a invasão russa da Ucrânia, foram inevitáveis. Lagarde sublinhou que o ponto de partida atual — com inflação e política monetária mais equilibradas — deixa o BCE “bem posicionado”. No entanto, o relatório alerta que o trauma recente ainda está fresco na memória de empresas e consumidores, o que pode fazer com que o choque “propage” com mais facilidade desta vez.
Recorde-se que a revisão estratégica de 2025 do BCE reforçou que o banco responderá com política “forçosa ou persistente” a choques grandes e sustentados, incluindo ações preemptivas para evitar a desancoragem das expectativas de inflação. Em 2022, o BCE só subiu taxas após 12 meses consecutivos de inflação acima de 2 %
Cenário base já está desatualizado
O cenário macroeconómico central do BCE incorpora já cerca de 50 pontos base de subidas de taxas (baseado na curva de mercado). Mas este cenário assumia preços de petróleo a USD 90/bbl e gás a EUR 50/MWh — níveis que, na altura do corte de dados, eram os futuros vigentes. Hoje, o petróleo está 23 % mais caro e o gás 30 % acima. “O cenário base já parece datado”, conclui o BNP Paribas, o que coloca “o ónus da prova” nos preços da energia: só uma queda significativa justificará a estratégia de “ignorar” o choque.
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