Finanças públicas da UE sob pressão com choque energético global, alerta DBRS
A Morningstar DBRS alertou, numa nota emitida esta terça-feira, que o atual choque global na oferta de energia deverá agravar significativamente o peso sobre as finanças públicas dos países da União Europeia. Segundo a agência, a crise — desencadeada pelo conflito após os ataques dos Estados Unidos (EUA) e de Israel ao Irão e pelas perturbações no trânsito no Estreito de Ormuz — já provocou uma subida expressiva dos preços energéticos, com perspetivas de manutenção em níveis elevados nos próximos meses.
Apesar do cessar-fogo em vigor e dos esforços diplomáticos em curso, o bloqueio parcial do tráfego no estreito continua a limitar o abastecimento global, pressionando os mercados de futuros de energia. Este cenário, segundo a DBRS, tem implicações diretas nos orçamentos públicos europeus.
A análise identifica três principais vias através das quais o choque energético se transmite às finanças públicas dos países europeus.
O canal económico: o aumento dos preços trava o crescimento económico e ativa estabilizadores automáticos, como maiores despesas sociais e menor receita fiscal. O canal de apoio governamental: os governos tendem a reintroduzir medidas de apoio à energia, aumentando a despesa pública. O terceiro é o canal financeiro: o agravamento das condições financeiras eleva os custos de serviço da dívida pública.
A DBRS destaca que o canal financeiro já está a intensificar-se, com uma reavaliação significativa das obrigações soberanas europeias. A yield das obrigações alemãs a 10 anos — referência na região — subiu entre 40 e 50 pontos base desde o início do conflito, situando-se agora em torno de 3%. Este movimento tem sido acompanhado por aumentos semelhantes noutros países europeus, enquanto economias com maior dívida ou fora da área do euro enfrentam um alargamento mais acentuado dos spreads face aos títulos alemães, o chamado prémio de risco.
“Taxas mais elevadas surgem após um longo período de redução dos spreads. A reprecificação parece proporcional às preocupações com a inflação”, diz a agência.
A subida das taxas surge após um longo período de compressão de spreads e reflete preocupações crescentes com inflação, crescimento económico e a orientação da política monetária dos bancos centrais. Os mercados de futuros indicam que a taxa de depósitos do Banco Central Europeu (BCE) — atualmente em 2,0% — poderá subir entre 50 e 75 pontos base até ao final do ano.
Outros bancos centrais europeus também deverão manter uma trajetória de aperto monetário, embora na Europa Central e de Leste ainda se observe uma ligeira tendência para flexibilização. A evolução das taxas diretoras é um fator determinante para o comportamento das yields e, consequentemente, para o custo de financiamento dos Estados.
Os países mais expostos são aqueles com crescimento económico já fraco, forte dependência de importações energéticas e fragilidades pré-existentes nas contas públicas. Para estes, o choque representa um dilema político e económico: conter o impacto da inflação com medidas de apoio — agravando o défice — ou permitir que o aumento de preços afete diretamente famílias e empresas.
A DBRS sublinha que o efeito final dependerá de vários fatores, incluindo a duração das perturbações na oferta, a estrutura energética de cada país e a resposta política tanto a nível nacional como europeu.
“O prolongamento das interrupções no comércio de energia aumentará as consequências cumulativas para a economia global e para as finanças públicas dos Estados-membros da União Europeia (UE)”, afirmou Jason Graffam, vice-presidente e responsável pelo setor de ratings soberanos globais. O responsável acrescenta que o impacto orçamental dependerá de fatores específicos de cada país, como o crescimento económico, a dependência energética, a forma como a inflação se transmite à economia e a posição inicial da dívida pública.
Graffam destaca ainda que o apoio ao nível da União Europeia será determinante, embora considere que seria necessário um choque mais prolongado e severo para justificar uma repetição dos programas de apoio direto adotados no início da década.
Respostas políticas já em curso
Alguns países europeus já começaram a implementar medidas de mitigação, mas muitos enfrentam esta nova crise com dinâmicas de dívida pública desfavoráveis, o que limita a margem de manobra orçamental, diz a DBRS.
No conjunto, o alerta da DBRS reforça a ideia de que a atual crise energética poderá representar um novo teste à resiliência financeira da União Europeia, num contexto ainda marcado pelas consequências económicas recentes e por elevados níveis de endividamento público.
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