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“A vitória no Grupo 1 deu-me coragem para um programa internacional” — Carlos Torres, 1978, revisitado

“A vitória no Grupo 1 deu-me coragem para um programa internacional” — Carlos Torres, 1978, revisitado

Há quase cinco décadas, o AutoSport publicava uma entrevista que, relida hoje, nos transporta para outra era. Estávamos em 1978, num Rali de Portugal que ficou marcado não apenas pela batalha épica entre Ari Vatanen e Hannu Mikkola, mas também por algo que então parecia improvável: um português a ganhar o seu grupo de forma consistente, digna e emocionante.
Carlos Torres era o nome, e o Ford Escort RS a máquina. Hoje regressamos àquele texto com o mesmo sentimento de quem reabre uma gaveta que não abria há muito tempo. Num ano em que Carlos Torres viria a alcançar o seu único título de Campeão Nacional de Ralis.
Uma vitória construída na sombra dos favoritos
O artigo começa com uma constatação honesta: as atenções estavam postas noutros portugueses. Francisco Romãozinho e Mêquêpê eram, então, os nomes com fábricas por detrás, os que chegavam mais bem apetrechados em carros e apoio técnico. Eram os naturais candidatos a honrar o ‘pavilhão nacional’. Nenhum dos dois chegou ao fim.
E é nesse vazio que emerge Carlos Torres. Quem escreveu o texto em 1978 faz questão de sublinhar que a vitória no Grupo 1 não foi um acaso nem uma herança: foi construída especial a especial, sem alardear, por alguém que percebeu que a consistência pode mais do que a velocidade bruta quando os outros desistem.
Ao seu lado estava Pedro de Almeida – ex-diretor do Rali de Portugal e Dakar, na altura o navegador que partilhou com Carlos Torres os momentos mais tensos da prova, incluindo aquele que nos fez — e que fez o jornalista que acompanhava a prova — tremer mesmo: uma avaria de causas desconhecidas, perto de Sintra, na última etapa, quando o Grupo 1 já parecia uma certeza. A ameaça tinha nome — Patrick Lapie — e embora o artigo nos diga que estava “um tanto longínqua”, ninguém respirou fundo até que a classificação foi confirmada.
Carlos Torres pela sua voz
O que nos ficou da entrevista que a AutoSport fez a Carlos Torres após a prova é um retrato de um piloto com planos concretos e ambições bem calibradas. Quando questionado sobre os próximos passos, respondeu sem rodeios: Grécia, Espanha, América do Sul. Um programa internacional, algo que, na época, era uma afirmação de seriedade desportiva para um piloto nacional.
Sobre o apoio que recebeu, foi também preciso: sem os mecânicos que David Sutton deixou em Portugal, a prova não teria chegado, para si, ao fim. O artigo deixa clara esta dependência sem que Torres tenha qualquer dificuldade em reconhecê-la — é a honestidade de quem sabe exatamente o que custou chegar onde chegou.
Quanto ao futuro — e aqui a entrevista ganha uma textura interessante — Torres falou em competir no Grupo 4 no ano seguinte, num Ford, talvez noutra marca. “Não vale a pena estarmos a falar disso agora”, disse então, como quem guarda as cartas certas para o momento certo.
Reler aquele texto hoje é perceber que quem o escreveu captou com clareza algo que o tempo veio confirmar: Carlos Torres não era um piloto de circunstância. A vitória de 1978 foi a primeira de quatro presenças como melhor português no Rali de Portugal, três consecutivas, e o Ford Escort RS tornou-se, nas suas mãos, um símbolo de resistência e determinação nacional numa prova que crescia rapidamente para os palcos mais exigentes do calendário mundial.
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