Alumínio acumula subida de 47% em termos anuais
Está nos carros, nos comboios, nos aviões, nas janelas e até nas infraestruturas que sustentam a transição energética — mas raramente faz manchetes. Ainda assim, o alumínio tornou-se um dos termómetros mais sensíveis da economia global e está novamente sob pressão. Com os preços, a subirem 47% no último ano, e a aproximarem-se de máximos históricos, este metal essencial reflete hoje uma combinação explosiva de energia cara, tensões geopolíticas e uma procura que não abranda.
O alumínio é o metal mais usado depois do aço e um aumento do preço coloca pressão nos fabricantes que já estão a sofrer com a escalada dos preços da energia.
O alumínio continua a afirmar-se como uma das matérias-primas mais pressionadas no atual contexto económico global, refletindo um equilíbrio delicado entre constrangimentos do lado da oferta e uma procura estruturalmente forte. A cotação do metal, negociado na London Metal Exchange (LME), tem vindo a subir de forma consistente desde o período da pandemia, tendência que se mantém até hoje.
Segundo dados do Trading Economics, o preço do alumínio mantém-se em níveis elevados em abril de 2026, negociando nos 3.600 dólares por tonelada, o que representa uma valorização significativa face ao período homólogo. De acordo com a mesma fonte, a matéria-prima acumula uma subida de 47% em termos anuais, refletindo pressões persistentes do lado da oferta, custos energéticos elevados e uma procura industrial resiliente. À data de 27 de abril, o mercado evidencia sinais de estabilização em patamares historicamente altos, após meses de escalada, sugerindo um equilíbrio temporário num contexto ainda marcado por incerteza global. Ainda assim, permanece ligeiramente abaixo do pico registado em março de 2022, quando ultrapassou os 4.000 dólares por tonelada.
Segundo Paulo Monteiro Rosa, economista sénior do Banco Carregosa, esta evolução resulta sobretudo de fatores do lado da oferta, nomeadamente os elevados custos energéticos — determinantes numa indústria altamente intensiva em eletricidade — bem como de restrições produtivas em países como a China e da persistente incerteza geopolítica. Em paralelo, acrescenta o economista, a procura mantém-se robusta, impulsionada pela transição energética, pelo reforço das redes elétricas, pela expansão das energias renováveis e pelo crescimento dos veículos elétricos, além do uso crescente em infraestruturas.
Indústria nacional usa mais alumínio de reciclagem
Esta leitura é consistente com a perceção da indústria portuguesa. Mafalda Gramaxo, diretora-geral da AIMMAP, sublinha que a trajetória ascendente dos preços do alumínio se tornou evidente desde o início da pandemia, sem correções significativas ao longo do período. “Tem-se vindo a notar uma subida contínua, tanto no alumínio primário como nas ligas utilizadas pela indústria”, refere.
A responsável destaca o peso determinante da energia na produção de alumínio primário, que pode representar cerca de 70% dos custos totais. “Se os preços da energia voltarem a subir, isso terá inevitavelmente impacto no preço do alumínio”, alerta. Já o alumínio secundário — proveniente da reciclagem — apresenta custos mais baixos, sendo amplamente utilizado pelas empresas industriais europeias, incluindo as portuguesas.
Em Portugal, é esta a principal fonte de abastecimento das empresas metalúrgicas e metalomecânicas, que recorrem sobretudo a recicladores localizados em países como Espanha e Itália. A proximidade geográfica ajuda a mitigar custos de transporte e, até ao momento, tem evitado oscilações mais bruscas nos preços.
O alumínio reciclado resulta essencialmente de sucata industrial, gerada ao longo dos processos produtivos em setores como o automóvel, ferroviário e aeronáutico. Estes resíduos são posteriormente reaproveitados, alimentando um ciclo que reforça a sustentabilidade do material, frequentemente descrito como “eterno” pela sua capacidade de ser reciclado indefinidamente.
Mas se o alumínio reciclado tem ajudado a conter a escalada de preços, há outros fatores que ameaçam o equilíbrio do setor. Entre eles, destacam-se as políticas europeias de descarbonização, como o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM), que pretende taxar as importações com base na sua pegada de carbono.
O custo do CBAM
No entanto, o impacto do alumínio nos custos empresariais não pode ser analisado de forma isolada. “É apenas um dos vários vetores de custo”, sublinha Mafalda Gramaxo, apontando também para o aumento de outras matérias-primas, bem como para os encargos ambientais crescentes no espaço europeu.
Entre estes, ganha destaque o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (CBAM), que visa compensar as emissões de carbono associadas a produtos importados. Embora ainda em fase de implementação, o mecanismo já gera incerteza junto das empresas, que só deverão conhecer os encargos concretos mais tarde.
Para a diretora-geral da AIMMAP, a questão central prende-se com o impacto cumulativo destas políticas na competitividade da indústria europeia. “As empresas estão a ser oneradas com custos adicionais, enquanto competidores fora da Europa não enfrentam as mesmas condições”, alerta, apontando para o risco de desindustrialização.
Num setor onde o aço e o alumínio são matérias-primas fundamentais, qualquer oscilação de preços ou alteração regulatória tem efeitos diretos na estrutura de custos. Ainda assim, a relevância estratégica destes materiais permanece inquestionável. “O metal é uma matéria-prima praticamente eterna e essencial para a economia”, conclui.
Num contexto de forte incerteza, a evolução futura do preço do alumínio dependerá, em larga medida, da trajetória dos custos energéticos, da estabilidade geopolítica e da capacidade de resposta da oferta global. Até lá, o setor industrial continuará a navegar entre pressões crescentes e uma procura que não dá sinais de abrandamento.
Mas há um problema: o alumínio entrou em défice com aumento da tensão no Médio Oriente
O ING alerta que o mercado do alumínio entrou num défice significativo após a escalada da tensão no Médio Oriente. “O que inicialmente parecia ser uma interrupção no transporte marítimo e na logística evoluiu para um choque de oferta substancial, com diversas fundições do Golfo a operar muito abaixo da capacidade”, sublinhou o banco. A instituição bancária traça três cenários e alerta que o mercado apresentaria um défice de quase 2,9 milhões de toneladas se as interrupções persistissem durante o resto do ano. Já a Mercuria, um dos maiores grupos independentes de comércio de matérias-primas, calcula que o défice se possa situar nos dois milhões de toneladas.
“Embora o Médio Oriente seja responsável por cerca de 9% da produção global de alumínio, a sua quota-parte do fornecimento marítimo é muito maior. Consequentemente, as perturbações na região têm um impacto significativo na disponibilidade e nos preços do mercado”, sublinha a instituição bancária. O banco destaca eventos que têm afetado o alumínio. Aqui colocou a paragem das operações na fundição Al Taweelah da Emirates Global Aluminium, uma forte redução da produção da Aluminium Bahrain (Alba) e a continuidade da redução das taxas de operação na Qatalum.
O ING estima que, em meados de Março, tenham sido afetadas cerca de 560 mil toneladas de capacidade anual, incluindo aproximadamente 300 mil toneladas na Alba e 260 mil toneladas na Qatalum. “Com a Alba a operar atualmente a cerca de 30% da capacidade e a Qatalum a aproximadamente 60%, a capacidade afetada implícita subiu para cerca de três milhões de toneladas – quase metade da produção da região”, alerta o banco.
O ING, tendo por base as taxas de funcionamento atuais, projeta que o mercado do alumínio apresentaria um “défice de quase 2,9 milhões de toneladas se as interrupções persistissem” durante o resto do ano. “No entanto, com os preços elevados, esperamos que a destruição da procura, a redução dos stocks e uma resposta parcial da oferta chinesa compensem parte do choque da oferta, resultando num défice no cenário base de cerca de dois milhões de toneladas”, alerta a instituição.
Banco traça três cenários para o alumínio
O cenário base traçado pelo banco projeta uma interrupção amplamente precificada. “A disrupção atinge o pico no início do ano e diminui gradualmente ao longo do ano, em linha com a nossa perspetiva para o mercado energético. Embora a oferta continue restrita, uma combinação de destruição da procura, redução dos stocks e aumento da oferta chinesa deverá limitar novas subidas. Como resultado, os preços do alumínio continuam elevados, mas não sobem significativamente em relação aos níveis atuais”, antevê o banco.
O segundo cenário aponta para a subida dos riscos. “Se a interrupção persistir ou se intensificar, a recuperação da oferta permanecerá provavelmente limitada. Podem surgir reduções adicionais na produção de fundições, principalmente devido ao agravamento das restrições existentes no fornecimento de alumina e à persistência das interrupções logísticas. Nestas condições, os preços do alumínio poderão ultrapassar os quatro mil dólares por tonelada, embora a queda da procura leve provavelmente a uma correção no segundo semestre do ano, mesmo com o mercado a manter-se estruturalmente apertado”, considera a instituição bancária.
O terceiro cenário passa pela continuação do défice estrutural que já existe. “O mercado do alumínio já apresenta um défice significativo após as recentes interrupções no fornecimento. Embora se espere alguma recuperação no nosso cenário base, o equilíbrio continua apertado, com riscos de queda limitados e riscos de alta claros em cenários de disrupção prolongada ou severa”, adianta o ING.
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