BCE reduz juros e excesso de liquidez da banca portuguesa cai para 25 mil milhões em 2025
Os bancos portugueses continuam a preferir a liquidez ao crédito num momento em que o BCE vai retirando a almofada extraordinária que sustentou o sistema nos últimos anos.
No Relatório da Implementação da Política Monetária 2025, publicado esta quinta-feira, o Banco de Portugal mostra que os bancos nacionais mantiveram em 2025 um recurso muito elevado à facilidade de depósito do BCE, com uma média anual de cerca de 28 mil milhões de euros, apesar da descida das taxas diretoras. Esse valor representou uma redução de 32% face a 2024, mas continua a revelar uma forte apetência pela colocação de liquidez junto do banco central em vez da concessão de novo crédito.
Segundo o relatório, este comportamento insere-se numa normalização gradual da política monetária no euro, mas o Banco de Portugal sublinha que o excesso de liquidez permanece elevado, ainda que em diminuição, e que a facilidade de depósito continua a ser o principal instrumento usado pelas instituições de crédito nacionais.
A documento começa por contextualizar que o Banco Central Europeu (BCE) prosseguiu em 2025 o ciclo de descida das taxas de juro iniciado no ano anterior, levando a taxa da facilidade permanente de depósito para 2% em junho, nível que se manteve até ao final do ano. No conjunto do ano, as taxas diretoras desceram um ponto percentual, refletindo uma política monetária menos restritiva perante a desaceleração da inflação na área do euro. Segundo o Relatório da Implementação da Política Monetária 2025, o BCE aprovou ainda novas medidas relacionadas com critérios climáticos aplicados a ativos de empresas não financeiras e avançou com a revisão regular dos “haircuts” no sistema ECMS.
Em Portugal, o impacto da normalização monetária traduziu-se numa redução significativa do excesso de liquidez do sistema bancário. O montante caiu de 34 mil milhões de euros no início do ano para 25 mil milhões no último período de manutenção, com uma média anual de 28 mil milhões de euros. O saldo médio da facilidade permanente de depósito (depósitos no BCE) recuou 32% face a 2024, também para 28 mil milhões de euros.
O recurso dos bancos portugueses às operações de cedência de liquidez permaneceu residual. As contrapartes recorreram a estas operações apenas no segundo semestre e em montantes reduzidos, totalizando cerca de 18 milhões de euros.
O Banco de Portugal assinala que a mobilização de ativos de garantia continua muito acima do crédito efetivamente utilizado, num quadro de forte sobrecolateralização, o que confirma que os bancos mantêm capacidade de acesso a liquidez, mas preferem não a usar de forma intensiva.
“Apesar do reduzido recurso às operações de crédito do Eurosistema ao longo de 2025, tanto as contrapartes nacionais como as do Eurosistema mantiveram níveis elevados de ativos de garantia, assegurando assim a capacidade de obtenção de liquidez em caso de necessidade”, lê-se no relatório.
No final de 2025 existiam 33 contrapartes elegíveis para operações de política monetária em Portugal, num universo de 135 instituições de crédito. Os ativos de garantia utilizados ascenderam a 59 mil milhões de euros, mais 5% do que no ano anterior, sendo as obrigações cobertas e os títulos emitidos pela administração central os instrumentos mais utilizados pelos bancos nacionais.
O relatório diz ainda que o balanço do Banco de Portugal aumentou 11% em 2025, atingindo 211 mil milhões de euros. O crescimento refletiu sobretudo a valorização das reservas de ouro e o aumento da carteira de ativos não relacionados diretamente com política monetária.
Já a carteira de títulos de política monetária no ativo do Banco de Portugal diminuiu 10%, para 68 mil milhões de euros. Deste total, 99% correspondia a dívida pública portuguesa ou supranacional.
A grande variável para os próximos dois anos é a redução do balanço do Eurosistema. O relatório estima vencimentos de títulos de política monetária no valor de 942 mil milhões de euros nos próximos dois anos, o que deverá retirar liquidez ao sistema e obrigar os bancos a recorrer mais ao mercado para se financiarem.
Isso pode tornar o mercado monetário mais relevante para os bancos portugueses, sobretudo no segmento repo, que o Banco de Portugal identifica como mais atrativo em termos de custo, gestão de balanço e tratamento regulatório. Se essa transição avançar, os bancos terão menos espaço para ficarem “parados” em liquidez no BCE e mais incentivo para competir por fundos no mercado.
Em Portugal, esta mudança pode ser particularmente visível porque o relatório assinala que a proporção do excesso de liquidez detida por bancos portugueses é inferior à sua chave de capital no BCE, o que sugere menor peso relativo no stock agregado do euro. Ainda assim, a tendência europeia aponta para uma redistribuição mais intensa da liquidez entre países e entre bancos à medida que os saldos no BCE encolhem.
Ao mesmo tempo, o Banco de Portugal nota que os mercados monetários estão a reagir: aumentou a atividade nos segmentos com e sem garantia e, apesar de os volumes continuarem abaixo dos níveis pré-crise financeira, já se nota maior utilização do mercado como fonte de liquidez. Para os bancos portugueses, isto significa menos dependência do “abrigo” do BCE e mais necessidade de gerir tesouraria num ambiente concorrencial.
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