Viagens de camioneta e comboio
No Bangladesh, fica-se com o telefone do condutor e liga-se para saber quando estará próximo. No Nepal, as camionetas param para beber chá, mesmo as mais locais, e, se necessário, esperam por quem se atrasa. Connosco, fizeram uma pausa de dez minutos, com toda a gente dentro, no meio da estrada, enquanto corríamos a casa do nosso anfitrião recuperar o resto da bagagem. No regresso ofegante, ao nosso olhar de constrangimento, os passageiros devolviam outro, quase búdico, entre o sorriso e a atenção tranquila.
Com tudo isto, chegam atrasadas. São camionetas que não funcionam para pessoas sem tempo, mas que convivem bem com pessoas com tempo.
Também há as loucas, no Bangladesh e na Índia, a evitar a colisão frontal no último instante, em estradas por onde passam riquexós a pedais, tuk-tuks, carros, autocarros, camiões — em todos, a buzina, a peça mais indispensável.
Na Índia, os comboios de longa distância não se atrasam muito, mas há um truque: andam devagar e fazem pausas longas nas estações, o suficiente para sair, comprar qualquer coisa e voltar. Demoram facilmente dez horas a percorrer algumas centenas de quilómetros e chegam às cinquenta quando atravessam cerca de três mil, como o Kerala Express, que liga Nova Deli a Cochim. Mas chegam à tabela.
São viagens longas, em carruagens com beliches em três níveis, com lençóis e almofada. Passam vendedores de comida, snacks, refeições completas, muito chai. Há também autocarros sleeper, com cabines sobrepostas, para uma ou duas pessoas. Lá dentro, a sensação faz pensar no interior de uma baleia.
Horas com tempo e convívio. No nordeste do Nepal, perto da fronteira com o Tibete, as camionetas transportam tudo o que caiba. Depois de sentadas as pessoas, o corredor enche-se de sacas agrícolas. Servem de apoio, embora se viaje comprimido. No tejadilho seguem mais sacas, bagagens, às vezes cabras, que lá se ajeitam. O revisor lida com tudo: arruma, distribui, sobe ao tejadilho, pendura-se na porta.
As horas passam, muitas, às vezes um dia inteiro. Conhecem-se pessoas, resolvem-se pequenos problemas, trocam-se sorrisos curiosos. Há sempre crianças. E a paisagem vertical. No Nepal, raramente se passa dos 20 km/h, e cada curva nas montanhas é um aperto no coração. Desvia-se o olhar. Nos comboios da Índia, nada melhor do que viajar junto à entrada da carruagem, de porta aberta.
“Portugal profundo” é a forma como se fala das aldeias do interior. Aqui, o mais profundo talvez seja viajar nos transportes públicos, entre sacas, paragens e curvas.
Este artigo integra a série “Caderno de Viagem”, publicado quinzenalmente na edição impressa e online.
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