A verdade é que nem Cannes escapa à guerra
Desde a apresentação da 79ª edição do Festival de Cannes, a 9 de abril, que a memória teima em devolver esta frase. “O mundo está a escurecer e a perder o rumo”. Palavras da presidente do festival, Iris Knobloch. O tom não foi de derrota. Pelo contrário. Mostrar filmes num contexto como o atual é tudo menos trivial, é reafirmar “o papel da 7ª Arte como espaço de resistência”, sublinhou Knobloch. Sem esquecer uma outra ameaça que ganha escala. “A Inteligência Artificial já está presente nos estúdios, nas salas de montagem, no processo criativo. Não vamos fechar os olhos a isso, mas recusamos que dite as regras”, prosseguiu Iris Knobloch. “A Inteligência Artificial sabe muito bem imitar, mas nunca saberá como sentir.”
Está dado o tom para a edição de 2026 do Festival de Cannes, que decorre entre 12 e 23 de maio, na eterna Croisette. Hollywood quase não existe. Os únicos dois realizadores americanos em competição são James Gray, com “Paper Tiger”, protagonizado por Scarlett Johansson, e Ira Sachs, que leva a Cannes “The Man I Love”, passado na Nova Iorque da Sida, nos anos 1980, com Rami Malek no principal papel. E se a guerra é um tema transversal a muitos dos filmes selecionados, o festival também não esqueceu a condição de exilado de alguns realizadores, como o cineasta iraniano Asghar Farhadi, que filmou “Parallel Stories” em Paris, com as atrizes Isabelle Huppert e Virginie Efira.
Em competição estarão 21 filmes de cineastas como Andrey Zvyagintsev, László Nemes, Cristian Mungiu, Hirokazu Kore-eda e Ryûsuke Hamaguchi, para não fastidiar. Dos coet cnsagrados, salta à vista o nome de Pedro Almodóvar, com “Amarga Navidad”, o seu último filme, já estreado nas salas de cinema espanholas. De Espanha chegam também dois dos filmes mais esperados na corrida à Palma de Ouro. “El Ser Querido”, de Rodrigo Sorogoyen (“As Bestas”) e “La Bola Negra”, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, filme de época que junta Penélope Cruz e Glenn Close.
Na Quinzena dos Realizadores, fora da competição, está “La bataille de Gaulle: L’âge de fer”, de Antonin Baudry, um épico sobre o soldado, combatente da resistência, estadista e escritor, que fundou a França Livre durante a II Guerra Mundial. Destaque ainda para a única presença portuguesa no festival. “Aquí”, a nova longa-metragem de Tiago Guedes, adapta J.M.Coetzee e passa na secção Cannes Première. O filme será exibido a 18 de maio, mas a estreia nos cinemas portugueses só está prevista para 3 de dezembro.
Se o tom amargo e bélico trespassa muitos dos filmes presentes este ano em Cannes, é porque as guerras do passado podem ajudar a deslindar o presente. Palavra de Thierry Frémaux, delegado geral do festival.
79ª edição do Festival de Cinema de Cannes | 12 a 23 de maio | Programa completo aqui
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