União Europeia aprova acordo comercial com os EUA
Com o presidente norte-americano Donald Trump a usar repetidamente as tarifas como instrumento de pressão política, Estados Unidos e União Europeia fecharam na noite de terça-feira um acordo que se arrasta desde há meses, que elimina direitos aduaneiros sobre a maioria dos bens industriais norte-americanos importados para a Europa.
As negociações foram concluídas duas semanas depois de Donald Trump ter ameaçado impor tarifas de 25% sobre os automóveis do ‘velho’ continente se os europeus não aplicassem o acordo, fechado por Trump e pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Turnberry, na Escócia, no verão passado, até 4 de julho, o dia em que os EUA comemoram a independência. O chamado ‘Acordo de Turnberry’, conseguido no meio de um enxovalho público a von der Leyen (foi recebida num resort de golfe) e fortemente criticado por dezenas de eurodeputados por ser desequilibrado, aumenta as tarifas norte-americanas sobre bens da União até 15 %.
“A UE e os Estados Unidos partilham a maior e mais integrada relação económica do mundo. Manter uma parceria transatlântica estável, previsível e equilibrada é do interesse de ambos os lados”, declarou o ministro do Comércio de Chipre (país que assegura a presidência rotativa do Conselho da UE), Michael Damianos, acrescentando, citado pela agência Euronews. “Hoje, a União Europeia cumpre os seus compromissos”, disse ainda, para espanto de vários analistas.
Os eurodeputados mantiveram o acordo congelado durante várias semanas, na sequência das ameaças de Trump relativas à Gronelândia. Em janeiro passado, Trump ameaçou aplicar tarifas retaliatórias crescentes (entre 10% e 25%) a oito nações europeias (membros da NATO) que recusaram apoiar a intenção dos EUA de adquirir a Gronelândia.
O lado europeu também suspendeu o processo depois de os Estados Unidos terem adotado novas tarifas, na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal norte-americano, que considerou ilegais as taxas impostas pela Casa Branca desde o regresso de Trump ao poder.
Ao exigirem clareza aos norte-americanos, os eurodeputados acabaram por aceitar iniciar negociações com a presidência cipriota do Conselho da UE, que representa os Estados-membros, depois de a Comissão lhes garantir que os Estados Unidos cumpririam a sua parte do acordo e limitariam as tarifas a 15 %, como previsto.
Tarifas continuam a ser uma arma
Ainda assim, as relações entre o Bloco e os Estados Unidos continuam frágeis e, em Bruxelas, teme-se que a administração norte-americana possa continuar a usar as tarifas para exercer pressão política sobre a União, caso este não responda às exigências da Casa Branca noutros dossiês. O caso das ameaças de Trump relativas aos automóveis da União, há apenas duas semanas, visaram especialmente a Alemanha, cujo chanceler, Friedrich Merz, criticou a guerra no Irão desencadeada pelos norte-americanos em conjunto com Israel. Na altura, Merz disse que o Irão estava a “humilhar” os Estados Unidos – o que motivou uma ‘vingança’ imediata da parte de Trump. É, por isso, a estes expedientes que a União Europeia se mantém exposta, apesar da retórica do ministro cipriota.
Até porque os atritos continuaram, entretanto. Trump tem insistido com os países europeus para que enviem navios para ajudar a garantir a segurança no Estreito de Ormuz, um passo que os europeus têm recusado dar, apesar da defesa dos interesses norte-americanos que o secretário-geral da NATO, o europeu (neerlandês) Mark Rutte tem protagonizado.
Muitos outros pontos de discórdia continuam a pressionar as relações entre os dois blocos económicos. A Ucrânia é mais um: a recente prorrogação norte-americana de uma derrogação às sanções que permite a compra de petróleo russo – nomeadamente por parte da China – desagradou profundamente o bloco europeu, que vê assim mais uma vez provado o alheamento da Casa Branca face à guerra. Na prática, os Estados Unidos mantêm-se apenas como fornecedores de armamento para a Ucrânia, desde que a Europa pague as contas.
Ainda segundo a Euronews, na noite de terça-feira, os eurodeputados tentaram blindar o acordo ao acrescentar condições, correndo o risco de irritar Washington com disposições adicionais às quais os Estados Unidos não tinham dado o seu aval. No âmbito do Acordo de Turnberry, a UE comprometeu-se ainda a investir 600 mil milhões de dólares em setores estratégicos nos Estados Unidos até 2028 e a comprar energia norte-americana no valor de 750 mil milhões de dólares. À margem destes pressupostos, está também em vigor uma obrigação dos países europeus da NATO de investirem até 5% do PIB de cada um em armamento – que deverá ser comprado à indústria norte-americana, barrando assim o propagandeado investimento da União na independência militar do bloco.
Trump tem dito repetidamente que a União Europeia era uma construção que desde a primeira hora existe para explorar os Estados Unidos – esquecendo ou não sabendo que foram os EUA que insistiram na sua criação no quadro do Plano Marshall – e que o seu plano pretendia reverter esse quadro. Do seu ponto de vista, portanto, o acordo só pode ser considerado muito vantajoso.
Comércio a encolher
O Eurostat registou uma quebra substancial nas vendas da União Europeia aos Estados Unidos. Em fevereiro de 2026, as exportações da UE caíram 26% e, em março sofreram um rombo de 37% em termos homólogos. O excedente comercial da União fixou-se em apenas 9,1 mil milhões de euros em fevereiro de 2026, uma descida acentuada face aos 22,9 mil milhões registados no mesmo mês do ano anterior.
O valor do excedente é o mais reduzido desde o período da pandemia – apesar de os números do ano passado estarem ‘empolados’ pela forte acumulação de stock por empresas norte-americanas, que importaram em massa para evitar as taxas aduaneiras que viriam a entrar em vigor.
Para 2025, os dados oficiais indicam que “a relação transatlântica é uma das principais artérias da economia mundial. Em conjunto, a União Europeia e os EUA representam quase 30 % do comércio mundial de bens e serviços e 43 % do produto interno bruto mundial”. Nesse ano, que a União considera “histórico”, o comércio bilateral de bens e serviços ascendido a 1,77 biliões de euros. “Todos os dias, atravessam o Atlântico bens e serviços no valor de mais de 4,8 mil milhões de euros” – mas tudo isso era no ano passado.
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