Tempestades atiram Altri para resultados negativos de 7,3 milhões de euros
A Altri fechou o primeiro trimestre de 2026 com um prejuízo de 7,3 milhões de euros, uma inversão face ao lucro de 7,6 milhões registado no mesmo período do ano anterior, num arranque de ano fortemente penalizado por intempéries, disrupções logísticas e um enquadramento ainda desfavorável nos mercados internacionais da pasta. As receitas totais desceram 21,3%, para 160,2 milhões de euros, e o EBITDA afundou para 5,4 milhões de euros, muito abaixo dos 29,4 milhões obtidos no 1º trimestre de 2025, refletindo o impacto das tempestades nas operações, a queda dos preços da pasta e a desvalorização do dólar.
O EBITDA nos primeiros três meses de 2025, foi “afetado pelos impactos dos temporais” que se manifestarão nas suas operações, “pelo contexto de preços da pasta nos mercados internacionais e pela desvalorização do dólar norte-americano”.
Em comunicado ao regulador do mercado, a Altri afirma que, “no final de março e início de abril, a normalidade operacional encontrava-se praticamente reposta, com exceção de algumas restrições ferroviárias. O segundo trimestre de 2026 deverá mostrar uma recuperação significativa da rentabilidade em comparação com o primeiro trimestre”.
O grupo informa ainda que o processo de instalação na Caima de uma unidade pré-industrial, com vista ao scale-up da atividade da AeoniQ está a decorrer. “Esta unidade vai permitir, a curto prazo, aumentar níveis de produção e acelerar processos de qualificação junto de clientes, neste novo mercado de fibras têxteis sustentáveis”, segundo o comunicado.
“O primeiro trimestre do ano decorreu num contexto particularmente exigente para a Altri e para o setor em geral. As condições climatéricas muito adversas registadas em Portugal com a sucessão de tempestades na envolvente das nossas bioindústrias, associadas a extensivas perturbações logísticas e a um enquadramento de mercado ainda desafiante para o setor da pasta de papel, tiveram um forte impacto, quer na nossa atividade operacional, quer nos volumes produzidos e vendidos e, naturalmente, nos resultados do Grupo. Apesar deste cenário, demonstrámos uma vez mais a resiliência das nossas operações, a capacidade de adaptação das nossas equipas e o compromisso contínuo com os nossos clientes, assegurando a estabilidade operacional e comercial num período marcado por elevada volatilidade e imprevisibilidade nos mercados internacionais”, refere o CEO, José Soares de Pina, citado pelo comunicado.
Apesar deste arranque fraco, a empresa sublinha que a atividade já recuperou praticamente a normalidade no final de março e início de abril, com exceção de algumas restrições ferroviárias, e antecipa uma melhoria significativa da rentabilidade no segundo trimestre de 2026. A verdade é que o primeiro trimestre parece ter funcionado como um ponto de compressão dos lucros: a produção total de fibras celulósicas caiu 19,8%, para 214,6 mil toneladas, e as vendas totalizaram 254,6 mil toneladas, menos 10,6% do que no ano anterior, com a pasta solúvel e a pasta BHKP a serem as mais afetadas pelas paragens programadas e pelas tempestades que atingiram Portugal, incluindo a Kristin, no final de janeiro e em fevereiro.
O efeito no negócio foi imediato, com paragens e produção condicionada em várias unidades, custos logísticos acrescidos, maior consumo de energia e menor produção energética, tudo isto num contexto de mercado ainda difícil. A empresa refere, contudo, que já há sinais de recuperação, sobretudo na procura asiática e no preço da pasta, com vários anúncios de aumentos na hardwood na Europa e uma melhoria gradual nos preços da pasta solúvel a partir de março, o que deverá refletir-se nas contas dos próximos meses.
Ao mesmo tempo, a Altri continua a apostar na transformação do grupo, com projetos como a conversão da Biotek para pasta solúvel, a unidade pré-industrial na Caima para escalar a AeoniQ e outras iniciativas ligadas à valorização de subprodutos e à diversificação para segmentos de maior valor acrescentado. Esta estratégia é vista pela administração como uma forma de reduzir a exposição à volatilidade cíclica da pasta tradicional e reforçar o posicionamento do grupo em áreas ligadas à sustentabilidade e à descarbonização.
No plano financeiro, o investimento líquido subiu para 14,9 milhões de euros e a dívida líquida aumentou para 348,4 milhões, refletindo o esforço de investimento e a quebra do cash flow operacional. Ainda assim, a mensagem principal do grupo é de confiança moderada: o pior do trimestre terá ficado para trás e, com a estabilização operacional e a recuperação dos preços, a Altri acredita que o segundo trimestre deverá mostrar uma evolução bem mais favorável da rentabilidade.
Embora o enquadramento macroeconómico e geopolítico continue a exigir prudência, “encaramos os próximos trimestres com confiança moderada. A recuperação gradual dos mercados, a normalização das operações, a solidez financeira do Grupo e a qualidade dos nossos ativos industriais deixam-nos bem posicionados para enfrentar os desafios do atual contexto e continuar a executar a nossa visão estratégica”, conclui José Soares de Pina.
As vendas totais de pasta no 1º trimestre totalizaram 254,6 mil toneladas, uma diminuição de 10,6% face ao 1º trimestre do ano passado. Apesar das condições adversas no primeiro trimestre de 2026, o Grupo Altri procurou minimizar os efeitos com níveis de serviço consideráveis para todos os seus clientes.
Em termos de uso final, o Tissue continua a ser o principal destino para as fibras celulósicas produzidas pelo Grupo Altri, com um peso de 39% no total do volume de vendas. “Este sofreu algum decréscimo de peso, pontualmente, devido a alguns adiamentos de vendas para destinos com maior peso de Tissue como uso final. Com o aumento da produção de pasta solúvel (DP) na Biotek, deveremos continuar a ver uma tendência de crescimento do segmento destinado ao têxtil no peso total dos volumes vendidos, tendo atingido 14% no trimestre”
Em termos regionais, a Europa é responsável por 61% das vendas, seguida pelo Médio Oriente e Norte de África com 20%, sendo a Turquia o principal destino neste segmento geográfico. O peso da Ásia deverá, tendencialmente, aumentar com o reforço da produção de pasta solúvel (DP) na Biotek, uma vez que a maioria dos clientes deste tipo de pasta se encontra nessa região, acrescenta a empresa.
Investimento e dívida
O investimento líquido total realizado pelo Grupo Altri no primeiro trimestre de 2026 foi de 14,9 milhões de euros, o que compara com 9,9 milhões de euros no período homólogo. Este valor inclui 12,1 milhões de euros referentes a investimentos classificados como ESG, 81% do investimento líquido total.
A dívida líquida do Grupo Altri atingiu 348,4 milhões de euros no fim de março de 2026, o que compara com 329 milhões no final de 2025. “A evolução no trimestre é devida, sobretudo, a um aumento já expectável no nível de investimento relacionado com os vários projetos de diversificação (conversão para DP na Biotek, recuperação e valorização de ácido acético e furfural e a unidade de scale-up industrial da atividade da Aeoni) conjugado com um nível de cash flow operacional inferior. Este nível de dívida equivale a um rácio de Dívida Líquida/EBITDA LTM de 5x”.
Após um ano de 2025 marcado por elevada volatilidade no mercado global de pasta, influenciada pelo ambiente de incerteza gerado pelos anúncios de tarifas dos EUA, “iniciamos 2026 com uma melhoria no dinamismo da procura por parte da China, no segmento de pasta Hardwood, ao qual o Grupo Altri está particularmente exposto. O segmento de Pasta Solúvel (DP) mostra sinais de recuperação sustentada em 2026, depois de um ano de 2025 especialmente desafiante, marcado por algum aumento de oferta e mais afetado pela conjuntura de incerteza económica na Ásia e Sudeste Asiático”.
A reativação da procura na Ásia tem contribuído para uma recuperação sustentada dos preços da pasta Hardwood (BHKP) na Europa com cinco anúncios de aumentos mensais que aconteceram de janeiro a maio de 2026. “De salientar que o impacto financeiro de um anúncio de aumento do preço da pasta só se faz sentir integralmente nas contas do Grupo, no mínimo 2 meses após o mesmo. Os preços de DP têm igualmente apresentado uma melhoria, especialmente a partir de março, com a cadeia de valor de fibras têxteis de base celulósica a beneficiar face às fibras sintéticas (dependentes do preço do petróleo)”. Adicionalmente, é esperada também uma normalização da maioria dos custos operacionais pontuais assumidos durante o 1º trimestre deste ano, relacionados com as disrupções causadas pelas intempéries e tempestades, nomeadamente custos com logística e energia. Como tal, esperamos uma recuperação significativa da rentabilidade no segundo trimestre de 2026 em comparação com o 1º trimestre, quer por via da melhoria do nível de preços, quer por uma base de custos mais eficiente.
Na frente de diversificação do Grupo Altri, o projeto de conversão total da produção de pasta papeleira (BHKP) para pasta solúvel (DP) continua a decorrer na Biotek, com conclusão prevista para o final de 2026
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