Moon Capital: O fundo de private equity focado no empreendedorismo feminino levanta mais de 5 milhões
O fundo de Private Equity e Venture Capital, Moon Capital, gerido pela Eaglestone Capital Partners, acaba de fechar o seu primeiro closing. Com uma tese de investimento firmemente assente em empresas lideradas por mulheres e organizações com forte compromisso com equidade de oportunidades, as fundadoras Sílvia Mota e Ana Sá Ribeiro explicam, em entrevista ao Jornal Económico, como pretendem agitar o mercado de Private Equity e Venture Capital na Península Ibérica, começando com o investimento inicial na Olimec, empresa portuguesa de referência no setor de equipamentos e soluções para a gestão de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) e manutenção de frotas pesadas.
O fundo de capital de risco Moon Capital levantou cinco milhões de euros e quer chegar aos 75 milhões em três anos. As fundadoras Sílvia Mota e Ana Sá Ribeiro querem provar que investir em projetos com lideranças femininas e equidade de género produz melhores rentabilidades.
Sílvia Mota é também CEO da MEXT [Mota‑Engil Next], o braço de venture capital do Grupo Mota-Engil. Já Ana Sá Ribeiro é CFO da Eaglestone Capital Partners
Acabaram de realizar o primeiro closing do fundo. Os objetivos iniciais foram cumpridos? Levantaram este capital em Portugal?
Nós fizemos agora o primeiro closing do fundo. O nosso objetivo inicial eram cinco milhões de euros e posso dizer que superámos mais do que isso. Portanto, ultrapassámos as nossas expectativas. Nesta fase levantámos tudo em Portugal. O nosso próximo objetivo a curto prazo será atingir os 25 milhões e, no final de três anos, a meta global para o Fundo é de levantar 75 milhões de euros.
A estratégia passa por investir apenas quando atingirem o valor global ou os investimentos começam já?
Os investimentos começaram já. A razão pela qual nós fizemos este primeiro closing já nesta fase foi exatamente por causa disso. Para fazermos investimentos temos de já ter levantado dinheiro e fechado uma etapa. Não esperámos até ter os 25 milhões porque já temos projetos em carteira que queríamos avançar. O período de investimento começa no momento em que se dá o first closing. Daí a necessidade que tivemos de o antecipar, para podermos acompanhar algumas oportunidades que nos têm vindo a surgir e que achámos que estava na altura de avançar.
Sendo nós um first-time fund, este passo também nos permite construir algum track record no mercado. Sentíamos que alguns investidores podiam não entender exatamente a nossa proposta por ser um fundo diferente, com uma temática distinta. Ao fazermos este investimento, tornamos real a nossa proposta de valor; as pessoas percebem o perfil de empresa e o tipo de projeto que procuramos. Agora, arrancamos para a segunda fase de angariação, se calhar a uma escala mais internacional, embora ainda tenhamos vários investidores nacionais por explorar que ficaram em standby.
Que tipo de projetos compõem a vossa carteira e qual é o verdadeiro foco do fundo?
O Moon Capital é um fundo de empreendedorismo feminino. Ou seja, é um fundo com vocação para investir em lideranças de mulheres ou projetos que tenham no seu âmbito a promoção da igualdade de género no ecossistema empresarial. No entanto, o nosso pipeline é agnóstico em termos de setor. O nosso foco é, efetivamente, identificar estas mulheres que têm a capacidade de criar valor e de estruturar projetos nos quais nós acreditamos. Por isso, a nossa carteira é super abrangente: temos projetos desde a componente da saúde e tecnologias, à parte industrial e a negócios ligados à componente ambiental e economia circular.
O primeiro investimento já foi concretizado. Que empresa é esta?
Sim, o primeiro investimento já foi feito e é no setor industrial: a Olimec. É uma empresa que atua na vanguarda da gestão de resíduos sólidos e na manutenção de frotas de veículos pesados. Ela opera essencialmente em três vertentes: assistência técnica avançada (incluindo mecânica, hidráulica, serralharia e eletricidade), fornecimento de peças para veículos pesados e o desenvolvimento e montagem de soluções para a recolha de resíduos urbanos. Já está no mercado e encontra-se numa fase de crescimento (growth).
Atuamos nas duas vertentes, desde o seed até ao growth, mas o nosso objetivo principal é ser mais Private Equity. Em termos indicativos de portfólio, a nossa meta é ter 80% em Private Equity e 20% em Venture Capital. Olhamos para o Venture Capital com muita atenção, mas o Private Equity é o nosso grande motor.
Este é um investimento em Venture Capital ou Private Equity? Qual é o vosso posicionamento?
O Moon Capital, com estratégia mista de Private Equity e Venture Capital, investe em diferentes estágios de maturidade, desde seed até growth, mas o foco principal do fundo está em growth equity e lower mid-market private equity. No caso da Olimec, trata-se de um investimento de growth numa empresa industrial já estabelecida.
Em termos de portefólio, como dividem o investimento entre Venture Capital e Private Equity?
Estimamos cerca de 80% do capital alocado a empresas em fase de crescimento, com fundamentos operacionais já demonstrados, e cerca de 20% em venture capital seletivo.
Olhamos para o Venture Capital com muita atenção, mas o nosso grande driver é o Private Equity, posicionando e valorizando empresas em fase de growth com volumes de negócio na casa dos 10 milhões de euros.
Qual é a maturidade do Fundo Moon Capital e que rentabilidade esperam oferecer aos investidores?
Em termos de maturidade, o fundo tem uma duração de 10 anos. Quanto ao target return, a rentabilidade que esperamos e com a qual estamos comprometidas com os nossos investidores situa-se entre os 15% e os 18%.
Os tickets médios andam entre um e cinco milhões de euros. As fases de seed têm mais risco, pelo que os tickets são habitualmente mais pequenos e não tomamos uma participação tão significativa. No growth, o volume de capital alocado é superior.
Quais são os valores dos vossos tickets médios de investimento e que dimensão de empresas procuram?
Os nossos tickets médios variam entre um milhão e cinco milhões de euros dependendo da maturidade da empresa e podendo existir follow-ons em empresas com maior potencial. Essa amplitude deve-se ao facto de podermos entrar em fases diferentes: a fase de seed (capital semente) tem mais risco, pelo que normalmente são tickets mais pequenos e não tomamos uma participação tão significativa. Já na fase de growth (crescimento), os volumes são obrigatoriamente superiores.
Qual é o foco geográfico do fundo nesta fase inicial?
O nosso foco global é a Europa, sendo que nesta primeira fase estamos muito focadas na Península Ibérica, dividida entre Portugal e Espanha. Já analisámos projetos fora deste eixo, mas neste momento estes são os dois mercados que olhamos com mais interesse.
Quando referem que o fundo tem uma forte componente ESG focada na igualdade de género, como é que isso se reflete na prática? A Olimec, por exemplo, é fundada por mulheres?
A igualdade de oportunidades é uma das dimensões da nossa análise ESG, mas avaliamos igualmente governance, sustentabilidade operacional, eficiência de recursos e impacto económico de longo prazo.
A Olimec é liderada pela Juliana Oliveira e foi cofundada pelo Luís Tavares.
Quando analisamos um projeto, avaliamos toda a sua estrutura em termos de igualdade salarial, a presença de mulheres em cargos de gestão, a paridade e a equidade de oportunidades.
Não se trata propriamente de um regime de “quotas” formal, mas sim de garantir que a empresa respeita e assegura a justiça de oportunidades na seleção. Estamos muito focadas em investir em projetos liderados por mulheres porque acreditamos que essa justiça de género surge naturalmente quando as lideranças são femininas. Investir numa mulher tem um impacto social e uma capacidade de transformação enorme para toda a sociedade.
É importante esclarecer que o investidor do nosso fundo não precisa de ser mulher. É o contrário. Nós quisemos criar um fundo igual a qualquer outro do mercado. A única coisa que nos difere dos fundos generalistas é a nossa tese de investimento focada na convicção de que existe uma ineficiência de mercado: empresas lideradas por mulheres permanecem relativamente subfinanciadas face ao seu potencial de criação de valor.
Além do financiamento, queremos criar uma estrutura de suporte com networking, mentoria e formação, dando ferramentas para que estas mulheres continuem a crescer sozinhas no seu percurso.
Diz-se frequentemente que fundos liderados por mulheres têm maior dificuldade em levantar capital. Sentiram esta barreira? É um problema nacional ou global?
Eu não sei se é por sermos mulheres, mas que não é fácil, não é.
Existe evidência internacional de enviesamentos no acesso a capital por parte de fundadoras, mesmo perante métricas e pitches comparáveis. Há um gap cultural e de comunicação que desfavorece o feminino nas triagens preliminares. Mas as mulheres estão quase sempre na vanguarda dos movimentos de transformação do mundo e o que nós fazemos é equilibrar e promover essas forças.
Este diferencial está sobretudo no acesso a oportunidades e originação de projetos, mais do que numa leitura de género sobre decisão de investimento. Eles olham para os projetos que vêm sempre da mesma rede de contactos. Logo, não conseguem ver as oportunidades que eu e a Sílvia, por estarmos sentadas noutras mesas, conseguimos ver. Não é por sermos mais virtuosas, é porque estamos noutro ecossistema. Para resolver isto, quem decide os investimentos também têm de ser as mulheres. Estarmos nós as duas na tomada de decisão é o que faz a diferença na Moon Capital.
Nós, mulheres e homens, validamos os projetos da mesma forma, não temos esse viés. O que fazemos é combater o preconceito que acontece nas fases preliminares de seleção do mercado tradicional. Como os ambientes de triagem são maioritariamente masculinos, acabam por aplicar restrições que limitam o acesso das mulheres ao capital.
Os estudos demonstram que quando há mais de 30% de mulheres nas empresas, verifica-se um aumento de cerca de 19% nos retornos e na rentabilidade.
O projeto tem de ser tão rentável como se estivesse noutro fundo qualquer? Existe um compromisso financeiro?
Sim, isso é a base. Nós temos o objetivo e o compromisso claro de entregar rentabilidade aos nossos investidores. O nosso target return está fixado entre os 15% e os 18%.
Não estamos aqui a pedir solidariedade ou caridade para apoiar as mulheres. Há uma oportunidade de mercado efetiva e fundamentada em dados. Se ignorarmos as mulheres, estamos a ignorar metade do mercado que pode criar valor.
Toda esta aparente subjetividade está provada em números: os estudos demonstram que quando há mais de 30% de mulheres nas empresas, verifica-se um aumento de cerca de 19% nos retornos e na rentabilidade. Em Portugal, a maior parte dos graduados universitários (54%) são mulheres. Porque é que o mercado não está a olhar para esta comunidade? Isto faz do Moon Capital uma oportunidade incrível para o investidor.
A nossa tese assenta na convicção de que existe uma ineficiência de mercado: negócios liderados por mulheres continuam subfinanciados apesar de demonstrarem métricas de resiliência, eficiência e criação de valor muito competitivas. Portanto, investir em projetos com lideranças femininas e equidade de género produz melhores rentabilidades financeiras.
A nossa ambição é contribuir para demonstrar, através de resultados, que diversidade de liderança e performance financeira podem caminhar juntas.
Quando entram no capital de uma empresa, qual é a vossa estratégia de intervenção? Exigem maiorias ou entram na gestão direta?
Tendencialmente, o nosso objetivo são participações minoritárias, mas sempre com influência na gestão. Exigimos ter assento no Conselho de Administração ou ao nível da direção. Entramos com participações acima dos 20%. Só estando lá dentro é que conseguimos assegurar o cumprimento das métricas ESG e acompanhar o crescimento financeiro do negócio. Claro que não pomos de parte investimentos maioritários no futuro, mas não é esse o nosso driver principal. Quando colocamos pessoas na gestão, colocamos mulheres, mas claro que também podemos colocar homens. O importante é o equilíbrio.
Para terminar, qual é o vosso apelo para o mercado nesta fase de arranque?
Isto funciona um bocadinho como a pescadinha de rabo na boca, se temos os projetos, atraímos o capital; se temos o capital, temos de ir atrás dos projetos. Por isso, deixamos um call to action para que estas mulheres se aproximem de nós e apresentem os seus projetos. Estamos aqui, estamos disponíveis e temos o capital. Queremos que as pessoas se unam a nós nesta transformação.
Sobre o Fundo Moon Capital:
O fundo assinalou recentemente o seu primeiro fecho de capital, superando a meta inicial de 5 milhões de euros para o arranque da fase operacional. Tem como objetivo a captação de 75 milhões de euros para investir prioritariamente nos mercados de Portugal e de Espanha.
Foi fundado por Sílvia Mota e Ana Sá Ribeiro. A entidade gestora do fundo é a Eaglestone Capital Partners.
O grande valor diferencial da Moon Capital assenta na promoção da igualdade de género como fator de eficiência económica, investindo em modelos de negócio sustentáveis com capacidade de escala global. Combina estratégias de Private Equity e Venture Capital, com tickets médios de investimento entre 1 milhão e 5 milhões de euros.
Além do apoio financeiro, a estratégia do fundo assenta em mentoria, formação e acesso a redes de contactos internacionais.
Olimec (Primeiro Investimento do Fundo)
É uma empresa portuguesa de referência no setor de equipamentos e soluções para a gestão de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) e manutenção de frotas pesadas. É sediada na Maia, tem unidades e em Palmela, e é liderada pela CEO Juliana Oliveira.
Atua em três pilares principais: assistência técnica avançada para veículos pesados/máquinas industriais; fornecimento de peças críticas para frotas; e venda/desenvolvimento de soluções de RSU (como caixas compactadoras, mobiliário urbano, máquinas limpa-praias e monitorização inteligente). Detém a representação exclusiva para a assemblagem e comercialização da marca italiana Farid em Portugal e nos PALOP. O investimento da Moon Capital visa precisamente acelerar a sua expansão internacional.
A Olimec tem em curso um projeto financiado pelo PRR (NextGeneration EU) para reduzir a sua pegada carbónica em mais de 30% e o consumo energético em pelo menos 40%.
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