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Governador do Banco de Portugal defende subida de juros em junho e avança com novas regras para o crédito à habitação

Governador do Banco de Portugal defende subida de juros em junho e avança com novas regras para o crédito à habitação

O Governador do Banco de Portugal (BdP), Álvaro Santos Pereira, manifestou-se a favor de um aumento das taxas de juro já na próxima reunião de política monetária do Banco Central Europeu (BCE), em junho. Alinhando com a tendência europeia, o Governador sublinhou, em entrevista ao programa Conversa Capital (Antena 1 e Jornal de Negócios), que a inflação continua a ser a principal preocupação, mesmo que o conflito no Médio Oriente termine, uma vez que os seus efeitos vão persistir.
“É importante que, quando existem possíveis espirais inflacionistas, atuemos rapidamente”, afirmou, defendendo que a política monetária deve agir “mais cedo do que mais tarde”.
Apesar da escalada de preços, Álvaro Santos Pereira afasta o cenário de estagflação em Portugal, justificando que não há uma desaceleração da economia, mas sim uma aceleração dos preços. O Governador destacou ainda que o choque energético na Europa teria sido pior se não fossem os investimentos associados ao desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA).
“Nós temos de arranjar maneira de subir os salários neste país”
Face ao atual contexto macroeconómico, o Governador admite que a remuneração das poupanças deve ser revista, assumindo criticamente que “a remuneração à poupança neste país é muito baixa”. Nesse sentido, revelou que, dentro de poucas semanas, os três reguladores financeiros vão apresentar um relatório conjunto focado em estratégias para captar poupança de longo prazo.
No plano social e laboral, o líder do banco central deixou recados claros. “Nós temos de arranjar maneira de subir os salários neste país”, disse, referindo-se especificamente ao salário médio no setor privado.
O Governador defendeu a implementação da “flexisegurança” — modelo inspirado nos países nórdicos que protege o trabalhador e não o posto de trabalho em si.
Por outro lado, na entrevista, criticou o sistema atual português por ser “muito rígido” e típico do “meio do século XIX”, apelando ao fim de bloqueios ideológicos entre partidos, sindicatos e patrões para avançar com reformas estruturais.
Sobre a Segurança Social, classificou como “ridículo” e “uma ignorância total” a ideia de que existe uma intenção de privatizar o sistema público de pensões.
Já quando questionado sobre as contas públicas e o eventual regresso aos défices devido aos apoios atribuídos às famílias e empresas na crise energética, o Governador mostrou-se sereno, elogiando o equilíbrio entre os apoios e o rigor orçamental. “A economia continua resiliente, vejo o rendimento das famílias a crescer, vejo as empresas a desendividarem-se, vejo o setor financeiro com bastante margem e liquidez e a dívida pública a baixar”, sintetizou.
Travão ao Crédito à Habitação e novas regras para a banca
Uma das frentes de atuação mais imediatas do BdP será o mercado imobiliário. Álvaro Santos Pereira quer travar o ritmo de crescimento do crédito à habitação, que atualmente regista uma subida de 10% ao ano. Para isso, o regulador publicará nas próximas semanas novas recomendações sobre maturidades e taxas de esforço, que passarão a ser vinculativas, sob pena de os bancos serem penalizados se não as cumprirem.
O Governador alertou para uma “tentação de facilitar demasiado” e para o relaxamento de regras por parte de algumas instituições financeiras ao nível das maturidades e do Loan-to-Value (LTV). “Não podemos voltar a cometer os erros do passado”, avisou.
Ainda no setor bancário, foram anunciadas duas novidades para o próximo ano. Desde logo a disponibilização no site do Banco de Portugal de comparadores de comissões bancárias para toda a população. Depois avança com a introdução de novas regras para fomentar e facilitar a mobilidade de contas entre bancos.
Por outro lado, e olhando para o passado do setor, o Governador classificou o caso BES como “a maior fraude financeira que o país viveu”, aproveitando o momento para elogiar o trabalho dos técnicos do regulador e do seu antecessor, Carlos Costa.
Esclarecimento sobre polémica das ações 
Instado a comentar a polémica relacionada com a compra de ações de empresas do setor não financeiro após ter tomado posse — que motivou os partidos políticos a aprovarem a sua audição no Parlamento —, Álvaro Santos Pereira explicou tratar-se de um “mal-entendidos” da sua parte e lamentou o sucedido.
O Governador revelou ter contactado proativamente a comissão de ética do BCE para apurar se a situação configurava uma falta grave e saber como proceder.
O responsável pelo banco central garantiu ter agido com total transparência e assegurou que, por ter tomado a iniciativa de esclarecer o erro, a demissão do cargo nunca esteve em cima da mesa.

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